Antonio dos Santos Acas
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Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.

O ANJO DA GUARDA DE FERNANDA MONTENEGRO

Autor: ACAS

No ano de 1990 eu estava desempregado: eu e mais de dois milhões e meio de brasileiros, por conta de um governo federal fraco e corrupto, que congelou a economia do país e tornou-se um fiasco. Os empregos, ainda que «temporários», eram difíceis de conseguir.
Por pura sorte, consegui um emprego semi-informal, subcontratado por um pequeno empresário e, portanto, por ele sendo explorado. - Mas, que fazer?
A empresa era de origem alemã e ficava (fica ainda) na Marginal Pinheiros, ou Avenida das Nações Unidas, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Eu morava na periferia e ia todos os dias até o trabalho, pilotando meu fusquinha 1975... .

Num certo dia, choveu torrencialmente na cidade de São Paulo, coisa de 100 mm por metro quadrado (ou 100 litros para cada metro quadrado). Verdadeiro dilúvio!

Mal saí do trabalho, constatei tristemente que a avenida, por onde eu teria que seguir, estava intransitável, devido a um enorme alagamento. Parei junto a outros carros numa espécie de dique seco, algo mais alto que o trecho pior da inundação. Pelo pequeno número de carros ali, constatei em conversas com os outros motoristas que às nossas costas também havia uma inundação, onde centenas de carros estavam pacientemente esperando as águas baixarem. Portanto essa era a situação: inundação às costas e inundação à frente!

Quase todos os motoristas saíram de seus respectivos carros e formamos um bloco de pessoas que trocavam idéias, falávamos da nossa fragilidade diante das chuvas torrenciais, da engenharia, da prefeitura, dos políticos, dos habitantes que sujam as ruas e etc..

Uma das pessoas mais animadas da conversa era uma moça, ainda jovem, que parecia ser passageira do carro que estava imediatamente à frente do meu, no interior do qual eu vislumbrava que havia ainda mais dois vultos. O motorista do carro era sisudo, porém o outro passageiro era uma pessoa afável, ainda moço, ligeiramente calvo.

Em certo momento, ele se dirigiu à moça com quem eu conversava e pediu que ela entrasse em contato com o teatro, pois não poderiam atuar naquele dia, visto que já se passara muito tempo que ali estavam e que as águas pareciam não querer baixar o nível da inundação. A moça mostrou-se preocupada.

Perguntei a ela de qual grupo de teatro eles pertenciam; ela respondeu-me que não era exatamente de um grupo de teatro, mas de uma equipe que havia recém chegado da Europa, onde nossa estrela remontou a peça «Dona Doida».

1987 - No monólogo Dona Doida, a partir de escritos da poeta mineira Adélia Prado, Direção de Naum Alves de Souza

Eu sabia que havia uma peça em cartaz alguns anos antes e que a protagonista havia até ganhado prêmios (Moliére; creio). Pensei: só pode ser Fernanda Montenegro!

FERNANDA MONTENEGRO, A PRIMA-DONA DAS ATRIZES BRASILEIRAS

-  Perguntei e a tal moça me respondeu concordando de que era ela mesma, em carne e osso, que estava no carro. Eles estavam hospedados no Hotel Transamérica, cerca de cem metros à frente; justamente onde a inundação era maior. Em verdade, a inundação não só não permitia acesso ao Hotel Transamérica pela Avenida Marginal, como as águas haviam invadido todo o jardim do hotel e, ao que parecia, chegava até à recepção do mesmo.

Passadas uma hora e meia, mais um carro parou logo atrás do meu: era uma enorme carreta, da fábrica da Coca-Cola, devidamente carregada: na cabine estavam o Jesus, ajudante e Tonhão, o motorista. (soube os nomes, pois naquela situação, identificar-nos era a única coisa que podíamos fazer: nós todos éramos protagonista de uma situação desesperadora).

O Jesus era branco e tímido. Tímido e franzino, com idade algo superior a cinquenta anos de idade. Já o Tonhão, bem merecia o epíteto: deveria pesar algo como cento e vinte quilos, e uma altura de, pelo menos um metro e noventa; e era negro e sorridente. Tonhão irradiava simpatia.

Uma hora após a chegada da carreta, percebemos que a água havia baixado um pouco; não muito: cerca de vinte centímetros, talvez. O Tonhão trocou umas palavras com o Jesus e os dois foram, a pé, fazer uma inspeção na altura da água da via. Quando voltaram tinham tomado uma resolução.

Eles iriam tentar passar com a carreta, pois perceberam que do lado direito da via era pouco mais alto que do lado esquerdo; consistindo essa a tarefa que seria cumprida em seguida. A moça falante que fazia parte da «trupe» da atriz pediu a eles se não seria possível levar pelo menos a «dona» Fernanda até a entrada do hotel. Os dois trocaram olhares e disseram que sim.

A moça e o rapaz (soube que era o diretor da peça), radiantes, correram até o carro , dentro do qual estava a atriz e expuseram o fato: ela desceu, de óculos escuros e meio sem jeito: eu até pensei: acho que é difícil para ela passar por um «aperto» desses,.

A outra senhora resolveu esperar dentro do carro, ao ver o mar de água que havia pela frente. Quem assumiu a direção foi o Jesus, ele manobrou atrás de meu fusquinha e emparelhou com o carro da atriz. Coisa que eu não sabia: a atriz Fernanda Montenegro, que nas telas do cinema e da televisão nos parece uma mulher enorme, é ainda menos que minha esposa; creio que deva ter, no máximo, um metro e sessenta centímetros de altura.

Daí veio o inusitado: o primeiro degrau da boléia ficava a uma altura de, no mínimo setenta centímetros e a atriz, de saias, não consegui subir. O Tonhão fez então algo maravilhoso: tomou-a nos braços e a depositou suavemente no assento da boléia, ao lado de Jesus. O Tonhão parecia mesmo o próprio anjo da guarda da atriz! Eu até pensei uma brincadeira: agora ela está ao lado de Jesus, portanto estará a salvo! (risos).

Ato contínuo entregaram à atriz algumas pastas e bolsas dos seus colegas da trupe. O Jesus acelerou com insistência, talvez prevendo as dificuldades a que estaria exposto ao tentar ultrapassar aquele trecho de via inundado. O Tonhão sentou-se à porta, tendo a atriz entre ele e o Jesus.

E a carreta foi atravessando, devagar; foi indo em meio às águas. Passado mais ou menos um minuto, a carreta parou defronte à entrada do hotel. Não havia como manobrar para adentrar o jardim do hotel e chegar mais próximo da recepção. Do nosso posto, confabulávamos: que será que o Tonhão vai fazer para levar a dona Fernanda para o hotel?

Passaram-se alguns minutos. De onde nós estávamos não era possível escutar as vozes dos três ocupantes da carreta; apenas ouvimos a aceleração exagerada do Jesus, com a carreta parada em meio às águas.

De repente, a porta do lado do passageiro abriu-se com estrondo. De dentro da boléia, surgiu o corpanzil do Tonhão, que ficou plantado em meio às águas no meio da via. Mais alguns minutos, surgiu a figura frágil, mas resoluta da atriz, segurando as pastas e bolsas e com muito receio, nos parecia.

Mais alguns instantes, entendemos o plano: o Tonhão encostou-se ao máximo da porta, estendeu os dois braços enormes e, naqueles braços aninhou-se, nada mais, nada menos, que a maior atriz do Brasil, Fernanda Montenegro.

Em seguida, o Tonhão cruzou a via, em direção ao hotel. O Tonhão (anjo da guarda) levou-a ao colo, até a recepção do hotel. Pelo que concluímos o trecho entre os jardins do hotel, ainda estava inundado e o Tonhão fez aquilo que qualquer mortal gostaria de fazer um dia: tomar seu ídolo no colo!

Lembro-me bem daquele dia; àquela altura, o céu de São Paulo se desanuviou e se podia ver a lua em quarto crescente e abaixo dela uma estrela de raro fulgor. Mais abaixo, carregado nos braços de um anjo da guarda sem asas estava a nossa estrela maior: Fernanda Montenegro!

 

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