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Poesia
e prosa poética de Ilona Bastos
ECOS (Poema); PROSA (Poética)
ECOS
Mesmo que aos ouvidos
me não cheguem,
os ecos existem, eu sei.
Largados no espaço, talvez.
Aos meus anseios, eu sinto,
uma voz responde,
inaudÃvel mas forte,
ao longe criada, difundida
pelos confins do Universo.
Mas como encontrá-la,
se aos meus ouvidos não soa,
ao meu olhar não aporta,
em meus dedos não se aninha
essa voz, eco de vida e amor?
Só, à margem dos sentidos,
cabe ao coração se abrir
às ondas vogando, voláteis
carÃcias do Criador!
E difÃcil, sim, prosseguir esta caminhada solitária em que não existe resposta
aos nossos apelos. Como o conseguimos antes? Levados por um impulso inicial, que
nada parecia deter ou refrear. Não contava, então, o silêncio que perseguia as
nossas palavras. Nem o eco, por vezes perturbante, das releituras insistentes
que fazÃamos, esperançados de encontrar a resposta na própria pergunta
formulada.
Depois, não sei porquê, tudo se tornou diferente. Onde dantes se avistava um
campo fértil - em que uma nova planta sempre se destacava, do solo surgida -,
nasceu um deserto com as suas dunas, apenas interrompido por súbitos e tristes
oásis, que mais faziam sobressair a desolação em redor.
Agora, lendo outrem que do mesmo modo esmoreceu, se apagou e deixou simplesmente
um antigo rasto no ciberespaço, senti-me compreendida e acompanhada neste
caminho solitário que ambas percorremos, cada uma por si, inicialmente
inspiradas e felizes, mais tarde desiludidas e murchas, como a flor que brilhou
ao sol e encantou, mas finalmente viu perdido o seu fulgor e se escondeu entre
as páginas fechadas de um livro que ninguém lê.
Nem vejo o que escrevo, mas isso não interessa. Não é agora o desenho das
palavras que me toca, nem a estética dos seus traços sulcando o papel - conta
somente a torrente que da minha alma jorra e nesse desabafo intempestivo
encontra inesperada pacificação.
Como eu, também tu percorreste esta via, indiferente à indiferença, auto
confiante e esperançosa, adivinhando algo que nos últimos meses perdeu contornos
e se esfumou, mas que uma súbita luz faz ressurgir no horizonte.
Talvez agora regresse. Quem sabe o reencontro tenha acontecido e de mim para mim
possa retomar o diálogo que o tempo interrompeu mas não calou em definitivo.