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O ESCRITOR SANTOMENSE
Por
Francisco Costa Alegre
(Ver Biografia e Bibliografia)
O acto de escrever rima com a obrigação profunda de ler. Ler não só como consumo do que foi ou é escrito, como também o dever de ler o ambiente envolvente, numa perspectiva identitária, reivindicativa, informativa/formativa e evolutiva. Todo aquele que escreve é um leitor nestas vertentes, ele é o primeiro a ler o que escreve, por vezes mesmo antes de utilizar os códigos semióticos. Mas o Escritor só é Escritor quando no seu exercÃcio, ele completa as fases que vão de criação, produção, publicação e divulgação....
1- Introdução
O Escritor é uma personalidade artÃstica e ou cientÃfica individualizada ou que se individualiza entre o fascÃnio da História e as demandas da realidade presente, porque ele é um ser sempre presente, pelo que ele/ela utiliza a lÃngua como veÃculo transmissor de vontades e quereres, de identidade e de cidadania, de entretenimento e de aprendizagem, de construção e desenvolvimento.
Essas vontades e esses quereres entre a conotação e a denotação, constituem a base da construção escrita em forma de Literatura, de Ciência e de Jornalismo, num enquadramento real e conceitual. Essas premissas proporcionam a revelação especÃfica ou distinta de cada povo, cultura ou sociedade de exprimir a sua forma de ser, numa palavra, de formular o pensamento. O escritor santomense se revê perante esse quadro universal identitário de interpretação e descrição, onde se destaca, a poesia, a prosa, a música, a dança, o teatro, a investigação e a crÃtica.
2- O caleidoscópio literário santomense
A vernacularidade remota e ingente de Francisco Garção Stockler (1834-1881) como a primeira e única referência literária de todos os tempos; o pan-africanismo especificamente mestiço de Francisco Tenreiro (1921-1963) suscitando a exclusiva revelação negritudista, socio-cientÃfica santomense remota; o lirismo nostálgico e versátil de Caetano Costa Alegre (1864-1890), o que se lhe seguiu o esquecido Herculano Pimentel Levy (1889-1969) com quase mesmo timbre clássico; o nacionalismo humanista e iluminista de Alda Graça EspÃrito Santo (1926-2010) como a maior voz feminina empolgante no Hino Nacional e não só; a santomensidade regional e nacional de Marcelo da Veiga (1892-1976), uma insÃgnia identitária para com as gentes da sua ilha do PrÃncipe onde Maria Manuela Margarido (1925-2008) também se exalta; o jornalismo panfletista e em crioulo Forro de Francisco de Jesus Bonfim, conhecido por Faxiku Bêbê Záwa, os pingos de chuva românticos de escritores luso-santomenses da era colonial destacados por Manuel Ferreira Marques (Sum Marky) e Fernando Reis; associado a criatividade presente na nova geração de escritores de pós independência; representam dentre outros, a herança literária de que a Literatura Santomense se constrói e se revê na sua estampa publicitária.
Tudo isso decorre numa latitude de revisitação constante onde o passado colonial e a vivência de pós independência se entrechocam, onde a exigência pelo rigor e pela qualidade se gladeiam, lugar onde a lassidão e a ruptura com o clássico se negam, espaço ainda onde a relação entre a oralidade como tradição e a escrita ambos factores de comunicação, convivem numa determinação de aperfeiçoamento, de desenvolvimento e de crescimento cultural, em que o fiel da balança de tudo em quanto constitui o mito e a realidade. Uma realidade que é a mesma mas, nunca foi e nem será a sempre a mesma porque senão, não seria realidade e o mito não teria lugar como matéria real.
Trata-se assim de um caleidoscópio fulgurante de um arquipélago literário de um paÃs do Golfo da Guiné chamado de S. Tomé e PrÃncipe, cujo território neste caso artÃstico-cientÃfico é povoado pelos diversos tipos de produtores/autores que vêm construindo a identidade com vontades e quereres, que se revelam assim policrómico, etnolinguÃstico, urbano e rural, profano e religioso, numa perspectiva individualista e/ou individualizada.
A policromia é evocada porquê?! Tudo porque especificamente o escritor santomense enquanto produtor/autor de ou sobre esse território literário, é um sujeito aculturado, aculturante e policrómico, para não falar mestiço, ou Forro, tal e qual a Tragédia Marquês de Mântua, um projecto de teatro vicentino do século XV-XVI como uma obra de sangue europeu, tornou-se definitivamente crioulo e africano.
Situação que se pode ter em conta também o Auto de Floripes da Ilha do PrÃncipe, outro projecto sÃmile de tragédia da aristocracia francesa ou mesmo ainda a exposição do próprio Danço Congo que constitui uma estampa régia remota do viver régulo africano, que embora seja ou tivesse sido africano puro, passou a ser exclusividade de S. Tomé e PrÃncipe, qualquer coisa como a PuÃta, uma dança, um culto religioso de origem angolana se miscigenou numa obrigação consequente de se corresponder com a História.
Todas essas revelações policrómicas, são partes de um dos raios do caleidoscópio fulgurante que aparecem nas obras dos escritores santomenses em forma de poesia e de prosa, em forma de romance e de conto, ou mesmo de teatro. Aito Bonfim é um desses ecritores que por exemplo com o seu projecto de teatro «Berlinização ou Partilha de �frica», desenha um desafio aberto pela intervenção estrangeira e o dinamismo dos próprios africanos, consubstanciando naquilo que tornou-se moda agora, o diálogo entre a Europa e a Africa.
Um diálogo que a Ã?frica ela própria permitiu, facilitou ou foi vÃtima numa descrição épica e lÃrica. Um diálogo necessário, não exclusivamente exógena, mas também pertinente entre os progenitores de uma geração que anseia uma maior africanidade para os seus descendentes.
Essa policromia persistente em tudo quase que se faz fisicamente nas ilhas de S. Tomé e PrÃncipe transpira algo de antropológico e sociológico como o cliptoplasma da constituição orgânica despercebida de cada cidadão, ao ponto por exemplo de, na comunidade Angolar notar-se que os elementos que formam essa comunidade nos nossos dias pode ser reportada por descendentes de angolanos, de cabo-verdianos, de forros e dos próprios resquÃcios de angolares que utilizam a lÃngua e certos hábitos da tradição angolar no dia a dia de suas vidas.
Quando as bandas musicais desta comunidade actuam ao público, para além da apresentação do Quiná que é a dança emblemática da região e do grupo, sinal de guerra e objecto de iniciação e de resistência, a banda é igual a qualquer outra em termos de ritmo e partitura, (aliás as bandas são todas elas assim), diferenciando-se apenas nas letras que são evidentemente em angolar, tocadas e cantadas por estes diferentes descendentes atrás mencionados.
O que o escritor luso-angolar Fernando Macedo transporta no seu livro de poesias Anguéné patenteia essa herança cultural de um povo que entre a resistência colonial e a claridade da independência do paÃs se imiscui na essência do ser desse povo enquanto parte de um todo paÃs em reconstrução.
3- A santomensidade intra-muros e os escritores das ilhas
E assim se pode evocar a etnolinguÃstica considerando uma santomensidade intra-muros que congrega a sociedade santomense com uma matrix transcontinental, onde um bocado de cada paÃs falante da lÃngua portuguesa considerado os PALOP e não só, como toda Comunidade de PaÃses de LÃngua Portuguesa (CPLP) se encontra nela radicado, com incidência para as seguintes evidências:
-a realidade do ser Forro como lÃngua franca e agrupamento humano onde o sentido judicioso tem raÃzes históricas;
-a expressão angolar muito marcante no sul da ilha de S. Tomé e nas orlas costeiras;
-o linguajar do lungwyé quase redutÃvel da população principense;
-o falar cabo-verdiano muito incidente na ilha do PrÃncipe e com presença aguarelada em toda ilha de S. Tomé;
-a descendência de angolanos assinalada pelo Kimbumdo;
-e resquÃcios de moçambicanos realçado nas diversas antigas roças do perÃodo colonial e bairros populares perto da cidade de S. Tomé (Vila Maria, Atrás da Cadeia, Arraial do Riboque e outros locais).
Quer se queira quer não, o escritor santomense tendo como patente principal a origem Forro como lÃngua materna dominante e franca, escrevendo em Português, revela esses sintomas de origem como as diferentes notas musicais que constituem o corpo integrante de uma partitura devidamente harmonizada.
Quando a Rádio Nacional põe e repõe no ar a gravação de um poema em crioulo Forro de autoria de Frederico Gustavo dos Anjos com o tÃtulo «Fónódu s’Omé»(O Maltrapilho Tem Dignidade), ficamos com essa imagem sintomática, onde o prestÃgio patriótico é exaltado, onde a revelação individualizada é assinalada, embora na sua mensagem ele estivesse a falar e a agir no colectivo, qualquer coisa como o que o Teófilo Braga de Macedo nos deixou de forma dispersa, quando ele no poema «Dukason» ele faz apelo para que cada cidadão para além de ser educado, deve ser instruÃdo, formado ou culto, para vencer o mundo.
Não podemos duvidar que a escrita é certamente individualizada, tendo em conta o ambiente e a construção orgânica de cada personalidade artÃstica. E é como dizia algures Margarida Braga Neves, «um Escritor é um artista único inimitável com as suas impressões digitais, um Escritor individualizado determina-se pelo que de visÃvel nele se mostra visÃvel, no vocabulário, no ritmo da frase, na fracção da realidade escolhida».
De facto não se pode comparar individualidades como Frederico Gustavos Anjos com Jerónimo Salvaterra, ou ligar a Olinda Beja com Conceição Deus Lima, como escritores contemporâneos, embora, ao invés destas últimas escritoras, se possa por outro lado estabelecer um paralelismo subtil entre Fernando Reis no seu livro «A Roça» e o Sum Marky (Manuel Ferreira Marques) no seu livro «Vila Flogá», como escritores luso-santomenses, também contemporâneos, da era colonial, tendo em conta a plasticidade e cadência das suas frases no diálogo urbano e rural.
Eu bem gostaria de imitar Caetano Costa Alegre no seu poema «Experiência» onde
ele como experiente relata:
«Ai! Cada dor contem uma lição!/ Cada ilusão perdida,/Mais uma experiencia
adquirida/Arquiva o coração./Nas mágoas aprendi muitas verdades:/ Nem sempre a
desventura é desventura/Nem sempre a felicidade é felicidade/ nem sempre o dia é
claro e a noite é escura.»
Se eu talvez entre a Verdade e a Mentira conseguisse exprimir algo aproximado como este, dado aos meus laços de parentesco, certamente que nunca atingiria o primor do Herculano Levy que se individualiza na sua época como terceiro escritor a surgir na história do paÃs, enquanto um produtor de poesia dos finais do século XIX, principio do século XX.
Distinção que tanto poderÃamos atribuir ao Manuel Teles Neto ou ainda a Joaquim Rafael Branco (1953-) que embora quase contemporâneos da geração de pós independência de 1975, como o Armindo Vaz de Almeida (1953-), diferenciam-se na elasticidade da poética, em presença da realidade socio-histórica comum a eles, numa perspectiva convergente do passado e do presente, visando a reconstrução nacional.
O mesmo facto se poderia reportar se tivéssemos que recorrer a nomes de outros autores luso-santomenses da era colonial, quase como os nossos dinossauros na exploração de romances e contos, ao referirmos a figuras como Mário Domingues (1899-1977) e Viana de Almeida (1903-190?) seu contemporâneo.