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A COLUNA DE JORGE M. PINTO
CASOS
AO ACASO
Parte V - DIVERSOS
MEU COMPADRE MUSSORONGO - Minha saudosa irmã negra - (V I - MAIS DIVERSIFICADOS AINDA.....) - Evoluções do Português
MEU COMPADRE MUSSORONGO
Um auxiliar eu tive, (1959/1973) de nome ALFREDO TITI. de quem posteriormente e com muito gosto vim a ser compadre, pois lhe apadrinhei dois dos cinco filhos que lhe conheci .
Era muito gago e serviu comigo – desde ainda garoto e naturalmente solteiro - na povoação denominada Pedra do Feitiço.
Tendo eu sido transferido dessa para outra localidade (São Salvador do Congo, hoje M’BANZA CONGO), com saudade, lhe deixei o meu novo endereço, e coloquei-me ao seu dispor para o que viesse a necessitar.
Meses depois, estando a trabalhar no meu gabinete que tinha janela para a rua,
ouço do lado de fora uma voz bem conhecida que me diz:
- BBBBBBom dia paaaaaatrãããããoooo !
- O que estás aqui a fazer? Como vieste aqui parar ?
Com um papel na mão, me anuncia ele na sua imensa gaguez:
- Apaaaaanhei o avviiiiiiiião, e aquiiiiiiiiiiii essssssstou. Tens aaaaaqui o
bbiiiiilheete da passsssaaaaagem paaara pagar.
- Olha que estou a pensar ir para Timor !
- E onde éééééé isssssso?
Peguei o globo que tinha no escritório e mostrei-lhe a localização da PEDRA, de SAO SALVADOR , e em seguida a da Ilha de TIMOR, para que ele bem pudesse avaliar da distância que nos separava daquele território.
- Vai, queee eeuuuuu vou lá teeeeeeeeer ! Foi a sua única curta e instantânea
resposta.
Foi assim que anos depois de São Salvador do Congo, já casado e com dois filhos,
me acompanhou para Luanda, de onde partiu para Cabinda em 1973, nessa altura já
como funcionário do Banco Totta & Açores.
Apesar dos esforços desenvolvidos nesse sentido, nunca mais soube dele, dos meus afilhados e da famÃlia.
Minha saudosa irmã negra
CATARINA MIGUEL, era (ou é?) o seu nome !
Teria os meus nove / dez anitos, (1941) quando ela rondaria já os 13 /15.
Oriunda de famÃlia do centro de Angola (CACONDA), foi praticamente criada no
seio da nossa como irmã mais velha, tendo-se mantido conosco até depois do
casamento de todos e de filhos nascidos a cada um.
Em 1959, ter-se-há casado por sua vez, e seguido o seu destino, jamais tendo
dado notÃcias.
Pelos meios disponÃveis, tentei por diversÃssimas ocasiões saber dela, e dos
seus, mas nunca consegui. nem o mais leve sinal de que existiria ainda.
Entre nós havia uma relação de amizade tão grande como se na verdade irmãos de
sangue fossemos.
Cabe-me a grata recordação de ter sido o seu professor pois foi comigo que aprendeu as primeiras letras até chegar a ler correcta e correntemente. Já no que respeita a números, só a lê-los foi preciso ensinar. Era exÃmia em fazer contas mentalmente, dando no instante, dobros, triplos, quádruplos, metades, terços ou quartos de quantos números (grandes e pequenos) lhe fossem propostos.
O seu português e o seu vocabulário aprimorado, eram de tal forma perfeitos que, ao telefone, era impossÃvel distingui-lo do de qualquer outra culta mulher de criação e nacionalidade genuinamente lusitanas.
Por sua vez ela me ensinou a contar (não sei em que lÃnguas) até dez:
Tigui, Riri, Ongongua, Lunda, Tico, Rapama, Nui, Lualua, Colo, Tuex; e Moche,
Cungenge, Catuma, Caracáva, Ricubeti ,Piquerigue , (já me faltam sete e oito)
Rifieri, Fió, (O R inicial, deve pronuciar-se como se simples fosse, e não como
R duplo, tal como aconteceria se de português se tratasse.)
Estas lenga - lengas banto não serão pois que em banto, de um a 10 se conta
assim:
Moche; Vari ou Giari; Tando, tano ou tato; Uana ou Cuana (dependendo da região);
Tano, Tandovari ou TatovarI, Xeen ou Cheen, Xerare ou Cherare....... (o nove,
«apagou-se-me») e Cuim.
(A grafia pode não estar certa de modo nenhum, mas como o banto não é uma linguagem escrita, tanto valerá Kwana, como Kuana, Cuana, ou Quana. O que interessa é o som produzido, pelo que bastará ler tal como se leria se português fosse, para lhe apanhar a pronúncia...
Curioso é notar que, entre os bantos, a base é TRES. SEIS, que dizem tandovari – à letra, tres dois - difere da nossa que será CINCO ou dez.
V I - MAIS DIVERSIFICADOS AINDA.....
Evoluções do Português
Já no fim da presença portuguesa (uns três, quarto anos antes da Independência) em Angola estavam a surgir novos vocábulos no português que por lá se falava.
Inspirados quiça na própria praticidade os africanos de origem banto, umbunda, ambunda e/ou quimbunda logo costumam crismar as coisas e situações atribuindo-lhes designações práticas e quase sempre abreviadas.
Foi possÃvel notar o surgimento de neologismos curiosÃssimos, de que me lembro:
- FILIZAR. Verbo que outra coisa não significa senão o acto ou efeito de tornar
lisos os fios dos cabelos (carapinha) de frizados que eram ! FILIZAR, teria tido
origem em FIO, em FRIZAR ou numa mistura de ambos ?
. O neo-verbo naturalmente conjungado em todos os tempos como qualquer outro da 1ª conjugação, entrou no linguajar quotidiano: - Você já filizou ? Vai filizar ? Jà filizei.... etc.
Curiosa também a aplicação do AINDA, sem mais, como resposta a qualquer pergunta sobre se determinada tarefa fora ou não já cumprida. Na verdade, quem pensaria responder com um simples e seco NAO, se havia e há ainda intenção de a concluir só que falta de tempo ou oportunidade se terão intrometido? Para quê juntar-lhe o advérbio de negação se não há memória de se dizer AINDA SIM ?
AINDA, por si só desde logo contem a idéia da negativa e deixa em aberto a ideia de voltar à agenda logo que oportuno...
Assim, AINDA isolado mostra-se perfeitamente suficiente dispensando com vantagem o não, e ainda proporciona economia de esforço oral !!!
Outra curiosidade diz respeito à designação de nova profissão. No passado, havia quem se dedicasse a tudo e a nada simultaneamente. Sem profissão especÃfica, este útil personagem a todos sempre dava uma mãozinha.. Era o que habitualmente se designava por Faz Tudo.
Pois não é que o Faz Tudo simplesmente se tornou no ZUCUTEIRO ? Julgo saber
porquê .
Vejamos a lógica «da coisa».
Quem se desempenha de qualquer tarefa, executa-a. Ora, se o faz, com pequeno
desvio de pronúncia chega-se, evidentemente a zucuta-a.
Daqui que havendo quem «zucute» que outro nome lhe pode cabe senão mesmo o de
zucuteiro ?
Perfeito !
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