O ESCRITOR SANTOMENSE - Por Francisco Costa Alegre
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FEEDS


 

O ESCRITOR SANTOMENSE

Por Francisco Costa Alegre

(Continuação - Veja desde o início)

 

Pese embora essa qualidade individualista ou individualizada de facto, no entanto a Literatura como escola filosófica ou doutrinária é colectiva, porque só o conjunto, o colectivo de escritores individualizados permite a existência de Literatura de um país.

S. Tomé e Príncipe embora com poucos anos de Literatura pura, possui um colectivo desses operadores literários, embora não havendo no seio deste colectivo escolas de ideias, ou uma marca estatística em género que produzem e transmitem pensamento nesse enquadramento artístico. Se tivermos que nos referir ao género salientamos a lista que deve incluir a Maria Manuela Margarido, Alda Graça Espírito Santo, Conceição Deus Lima, e se tanto, onde vamos colocar também a Professora Doutora Inocência Mata que para além de se destacar como Professora Universitária, ela se consagra como como crítica literária e ensaísta.

E, falando no campo da crítica como meio de se encontrar um fio condutor, também não se pode desqualificar a presença de filosofia doutrinária no seu todo porque de qualquer forma entre as vontades e quereres, os escritores santomenses premeiam a identificação, a construção e o desenvolvimento da República emergente. E é só assim que podemos afirmar que a Conceição Lima é uma feroz seguidora da malograda Alda Graça Espírito Santo considerando o encadeamento e a robustez dos seus textos poéticos. Talvez se possa argumentar que Albertino Bragança e Lúcio Pinto são da mesma escola onde a ficção e o património são notas dominantes na valoração cultural.

A este propósito e num trabalho sobre a trajectória da literatura santomense da autoria de Frederico Gustavo dos Anjos, tornado público em 1985, logo após dez anos do país se tornar independente no único jornal de então, Jornal Revolução número 466 de 25 de Novembro de 1985, reporta a dado momento o seguinte quanto ao escritor santomense:

«O Escritor não inventa a sua realidade social. Ele é o sujeito histórico, parte integrante de um povo, cuja função é utilizar o instrumento das ideias, dar-lhes forma e colocá-las na arena de um debate cujo registo e tempo não podem apagar e nem eliminar«.

Essa é a descrição cúmplice, típica, real e verdadeira de um Escritor que muitas vezes se contradiz quando como haveremos de ver posteriormente ao encararmos Escritores e Investigadores que escrevem sobre uma outra realidade cultural diferente da deles.

Perante este aspecto, Mia Couto escritor moçambicano numa interpelação sobre o papel do Escritor Africano numa cerimónia realizada em Julho de 2002 em Cape Town a propósito de eleição de 12 Romances Africanos de destaque, relata o seguinte acerca da genealogia do Escritor:

O Escritor não é apenas aquele que escreve. E aquele que produz pensamento, aquele que é capaz de engravidar os outros de sentimento e de encantamento. Mais do que isso, o escritor desafia os fundamentos do próprio pensamento. Ele vai mais longe do que desafiar os limites do politicamente correcto. Ele subverte os próprios critérios que definem o que é correcto, ele questiona os limites da razão.

Estamos assim perante uma contradição saudável se afincarmos no que nos indica Frederico Gustavo dos Anjos e o que nos propõe Mia Couto. Mas, é verdadeiramente compreensível, não se produz pensamento sem inventá-lo, desde que essa invenção embora aleatória não seja descontextualizada e despropositada.

O propósito de um Escritor é de ser aquele eterno construtor de identidades, por isso esses indivíduos (Escritores e Escritoras, Ensaístas e Investigadores) num gesto de missão a cumprir, recebem na corrida do ordenamento da sociedade e do mundo a estafeta dos antecessores e passam-na aos vindouros na perspectiva desse feito.

Com esses detalhes muitas vezes pergunta-se também aonde colocar-se-ia o escritor Sacramento Neto com as suas obras tipicamente exclusivas em termos substanciais e de marketing, produzidas à moda antiga dos livros «Colecção Seis Balas»?!

Este escritor santomense enquanto emigrante, para além de lidar ou ter lidado de forma explícita com outros factores da realidade literária autóctone, ele explora na maior parte das vezes o profano e o religioso, considerando a sua costela vocacional de padre, por um lado e, consequentemente por outro, ele enquadra-se naquela visão individualizada de qualquer Escritor conforme elucidou Frederico Gustavo dos Anjos em 1985 de que ele não inventa a sua realidade social, ou se ele inventa ele constitui parte daquela invenção.

Inventando ou não, os dados revelados por Carlos Agostinho das Neves, Carlos do Espírito Santo (Béné), Armindo de Ceita do Espírito Santo ou Maria Nazaré Ceita justificam a elegância dessa individualização no campo da investigação primária ou secundária de diversos espaços históricos ou científicos. Torna-se assim uma oportunidade para se reclamar o sentido de apropriação científica dos cidadãos de S. Tomé e Príncipe, como forma de garantir o fervor da nacionalidade.

Enfim...essa herança literária de que a Literatura e a investigação científica santomense se constrói ou que dela se serve como cabouco para se soerguer, onde se despoletam fontes diversas participativas de cidadãos nacionais e estrangeiros, revela-se talvez anárquica no bom sentido da palavra, e ainda bem que é assim, tendo em conta a fertilidade do espaço rústico como o próprio cidadão santomense, que é uma personalidade socio - antropológica por descobrir ou por definir. O que um cidadão santomense tem para fazer ou não, para tornar-se escritor, investigador ou ensaísta é muito vasto e diferenciado, qualquer coisa como os bosques da floresta virgem local destinado a preservar ou desbravar.

4- O ser Escritor, Investigador ou Ensaísta

E por isso que desde os primórdios este espaço vem sendo invadido, também gratificante no bom sentido da acção, por escritores, investigadores não autóctones, numa estratégia de reforçar a construção da cidadania do ponto de vista exógeno. E aqui que encontramos espaço para louvar a obra prima do estudo sobre o crioulo de Hugo Schuchdart escrito exclusivamente em alemão, como outros seguintes realizados por Morais Barbosa, ou os mais recentes produzidos por Tjerk Hejemeir ou Gabriel Antunes Araújo.

O mesmo se pode debruçar sobre os diversos estudos efectuados sobre plantas medicinais e pássaros endémicos existentes no país. E aqui ainda, que encontramos terreno para legar ao Gerhard Seibert como dono de todo país com estudos diversos e intervenções diferentes sobre S. Tomé e Príncipe, ou a relevância atribuída a outros estudiosos como Izabel Castro Henriques, Augusto Nascimento no domínio da História ou como a Maria do Céu Madoreira com o estudo farmacológico das plantas medicinais de S. Tomé e Príncipe.

E aqui, graças a Deus que encontramos espaço para dar ao jornalista português Miguel Sousa Tavares que escreveu um Romance chamado Equador, que suspeita-se, se um colega seu jornalista ou escritor do território autóctone artístico santomense, com as mesmas competências teria a mesma chance de escrever um livro volumoso de folego forte como tal e com as mesmas montagens e, ele teria o mesmo sucesso e cobertura como teve e tem tido, ao ponto de ter o livro transformado em filme, que nem se quer foi gravado em S. Tomé.

O grande problema é que se qualquer de nós escritores fora da europa escrevermos para além da norma já canonizada, as pessoas, mesmo os nossos compatriotas não nos lê, reprovam-nos, ao invés dos outros que exaltam como novidade. Se Saramago que já nos deixou fosse um santomense conseguiria furar o mundo da norma para ter a atenção e êxito que teve com devido mérito?!

Para colmatar as aspirações numa tentativa de aplicação de parceria mundial temos aqui que elevar o mérito do Sacramento Neto enquanto um escritor santomense residente no estrangeiro conseguiu estabelecer essa parceria fazendo com que um dos supostos «Seis Balas», o livro «Milongo» fosse transformado em filme e gravado em S. Tomé.

E aqui que reside o cerne da polémica de que o Escritor, o Investigador ou o Ensaísta só se torna entidade como tal, desde que passa por todas essas fases que vão de criação, produção, publicação e divulgação. Se o criador no seu território físico não tiver o aparato de apoio para com excelência e rigor, publicar e divulgar os seus trabalhos, ele deixa de ser essa individualidade artístico - científica muito necessária, ele deixa um transmissor de pensamento.

Quem não diria que o Caustrino Alcântara, um investigador auto-didacta do crioulo santomense do nosso tempo não se enquadra nesse âmbito?! Aliás, grande parte ou todos os escritores santomenses da nova geração confrontam-se com esse problema de identificação perante a falta de uma gráfica para produzir, desde livros didácticos, jornais, livros de entretenimento e livros científicos.

Segundo o relato dos contemporâneos e admiradores de Francisco Stockler afirmam que são poucas as obras deste escritor santomense dos finais do século XIX conhecidas o que faz com que ele seja conhecido como um simples produtor crioulo, enquanto ele era de facto um escritor bilingue e de fina veia iluminista. O mesmo se o futuro não ditar ao contrário poderá acontecer com o Caustrino Alcântara que é um linguísta investigador auto-didacta.

Trata-se de uma atenção que nós todos enquanto cidadãos membros desse território físico, interessados a ver o território cultural recheado de autoridades artísticas e científicas deverá fazer jus a vontade de querer que esse aparato exista, sobretudo nos tempos que correm em que a modernidade e a tecnologia tornaram fácil e não onerosa essa pretensão.

5 - Conclusão

Só temos a dar uma vez mais graças e graças a Deus alguns daqueles outros escritores santomenses que entre o desafio de bem servir e a vontade e querer prestigiar a arte têm encontrado carinho externo para publicar e procurar um patamar de prestígio e de respeito perante outros seus pares do grupo linguístico e não só. E é assim em linhas gerais a estrutura de um escritor santomense.

A sua salvação e de muitos outros tantos de outras paragens com mesmas cumplicidades terão de dar graças a nova responsabilidade comum entre os povos, Estados e culturas no engajamento da nova parceria mundial. Todos nós conhecemos a finura da linguagem dos poemas do Herculano Levy, um contemporâneo de Francisco Stockler graças as investidas do escritor e investigador Carlos do Espírito Santo (Béné), que tornou público no ano 2000, o pronunciar quase autobiográfico deste escritor santomense remoto que de muitas coisas foi crítico do viver das antigas roças de cacau, com grande incidência para a Roça Pedroma.

Carlos Alberto Dias da Graça, médico, político, escritor e insigne palestrante, numa abordagem por ocasião da publicação da Revista de Letras da União doa Escritores e Artistas Santomense (UNEAS) o «Batê Mon» comemorativo do trigésimo quinto aniversário da independência nacional, disse:

«A maior homenagem a prestar às grandes figuras literárias como Caetano Costa Alegre, Alda Graça Espírito Santo, Marcelo da Veiga, Tomás Medeiros, fundadores da nossa literatura e agentes históricos da saga da reconquista da nossa identidade e dignidade, será divulgar os seus escritos e fazê-los estudar nos liceus e universidade».

E essa publicação e divulgação que torna o artista um Escritor, só é possível através de aparatos que os sustentam e que os garantam maior exercício da cidadania e consequentemente do saborear de uma PAZ esclarecedora e uma Concórdia construtiva.

Este texto é um extracto de um Livro em preparação


BIBLIOGRAFIA:

Armindo de Ceita Espírito Santo, Economia de S. Tomé e Príncipe (entre o regime de partido único e o multipartidarismo, Edições Colibri, Lisboa Outubro de 2008

Carlos Agostinho das Neves, Antologia Poética de S. Tomé e Príncipe, Artes Gráficas, S. Tomé, 1977.

Idem, S. Tomé e Príncipe, problemas e perspectivas para o seu Desenvolvimento, Lisboa Junho de 2009

Herculano Pimentel Levy, Poemas, Carlos Espírito Santo, Demali Artes Gráficas, Lisboa 2000

Jerónimo de Sousa Pontes, Sun Faxiku Stockler no Contexto da Poesia Santomense do Século XIX, Centro de Estudos Africanos, Universidade do Porto, 2002

João Maria da Fonseca Viana de Almeida, Maiá poçon, Contos Africanos, Lisboa, Ed. Momento, 1937.

JL, Vida de Escritor, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XXXVIII, de 26 de Março a 8 de Abril de 2008

Mia Couto, Que Ã?frica Escreve o Escritor Africano? (Passatempos) Caminho 2005

Mário Domingues, O Menino entre Gigantes, Prelo, Lisboa, 1960

Mata, Inocência, Diálogo Com As Ilhas, Sobre a Cultura e Literatura de S. Tomé e Príncipe. 1998

Mata, Inocência, Suave Pátria, Reflexões Político-Culturais sobre a sociedade santomense, Junho de 2004

 

Francisco Costa Alegre foi lido
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