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o que você sempre quis saber sobre:
Fernando Pessoa,
e não encontrou.
Texto e Recolha da Redacção
(Continuação do número anterior - Veja aqui)
A Arte Moderna é Aristocrática
Que essa arte não é feita para o povo? Naturalmente que o não é - nem ela nem
nenhuma arte verdadeira. Toda a arte que fica é feita na história das
sociedades, porque o povo passa, e o seu mister é passar.
A nossa arte é supremamente aristocrática, ainda, porque uma arte aristocrática
se torna necessária neste Outono da civilização europeia, em que a democracia
avança a tal ponto que, para de qualquer maneira reagir, nos incumbe, a nós
artistas, pormos entre a elite e o povo aquela barreira que ele, povo, nunca
poderá transpor - a barreira do requinte emotivo e da ideação transcendental, da
sensação apurada até à subtileza (...)
A nossa civilização corre o risco de ficar submersa como a Grécia ( Atenas ) sob
a extensão da democracia, de cair inteiramente nas mãos dos escravos, ou então
de ficar como Roma, não nas mãos dos imperadores filhos do acaso e da
decadência, mas de grupos financeiros sem pátria, sem lar na inteligência, sem
escrúpulos intelectuais e sem causa em Deus. O único antídoto para isto é uma
lenta aristocratização. E é pela arte que, supremamente, essa aristocratização
pode ser feita.
Raiava, já antes da guerra, no horizonte o triste sinal da plebeização das
elites. Bailados, espectáculos e outros desvios semelhantes da arte superior iam
tomando vulto. E preciso reagir contra esta corrente.
Depois da Guerra, é de crer que aumente o espírito patriótico. Nada mais
ignóbil. Reporto-me às palavras sublimes de Goethe quando falou de quão pouco o
sentimento patriótico sobe até às paragens de ar puro e raro onde vivem os
Superiores. Permita-se que lhe recorde aquele passo das conversações com
Eckermann em que o Mestre de Weimar registou essa ideia.
( In Fernando Pessoa, Páginas de Estética, Teoria e Crítica Literária - Sobre
Escolas Literárias -10- A arte moderna é aristocrática. 1915-1916(?) ).
Comentário de D. T. :
O facto de o artista, neste caso Fernando Pessoa, se colocar e colocar os
artistas na sua concepção acima da gente comum, e as suas opiniões sobre a
democracia e a sua função «submersora» da arte tem de ser enquadrado na sua
época e no tipo de democracia que era corrente na altura. Sendo a larga maioria
da população iletrada a democracia era antes de mais uma oligarquia...daí os
receios perante a ideia dessa democracia se dividirem em dois campos.
De um lado, a falta de sensibilidade artística como factor comum e perigo para a
cultura e o processo cultural e de outro lado o receio dos grupos económicos
(eles afinal os verdadeiros beneficiários desta democracia a meio gás).
O «perigo» do patriotismo deve também ser encarado nesta perspectiva uma vez que
o patriotismo não representava mais que a defesa dos interesses das oligarquias
e dos monopólios.
A reserva dada ao artista, como guardião da cultura, erigindo-se ele mesmo como
elemento da uma elite, de alguma forma continuadora da elite culta que tinha
restado e resistido desde a monarquia, sendo mais discutível, aparece-nos como
uma ideia extrema, em que a reserva da cultura acaba afinal por passar para mãos
plebeias que se não consideram como tal através da sua capacidade de criação e
cultura.
Não se trata de um texto fascizante, mas anda lá por perto...daí que no período
em que Pessoa vive, e de cujo movimento ainda faz episódica parte ( a Renascença
) tenha tido no seu oposto como ideia indiscutível de extrema direita o
Integralismo Lusitano, cujo termo ainda foi objecto de disputa entre os
Renascentistas e os fundamentalmente integralistas.
Nota: Este tema e selecção de textos de Fernando Pessoa e depois de outros autores também continua nos próximos números.
Leia aqui Quatro Poemas de Fernando Pessoa