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Memória
sobre a memória
Reflexão de Michel Crayon
Por vezes penso que deve haver uma razão bem forte para que as pessoas tenham memória. Pensando que Deus (se existe) não faz nada ao acaso, é normal que encontremos só por causa deste pressuposto uma razão forte para admitirmos a ideia de termos memória e para estarmos perfeitamente conformados com a ideia da sua inevitabilidade. Mas, e aparece sempre um «mas» nestas coisas, se analisarmos bem veremos que aceitamos a existência da memória não por aquilo que ela pode significar em si como entidade mas sim porque a temos (a memória).
Eu coloco a questão noutros termos para tentar ser mais claro: se não
tivéssemos memória sentiríamos a falta de algo, a falta dela, quer como
memória tal como a conhecemos quer com outra coisa qualquer que a
substituísse e exercesse uma função substitutiva ainda que forma mais
primarizada?
Todos nós conhecemos aquelas pessoas, pelo menos dos filmes, que perdem
a memória e que sofrem um tormento horrível para a recuperar: quem sou
eu? - perguntam-se. E a resposta dada por outros é que fulano ou fulana
se chama, por exemplo, da Silva, que teve uma vida regular até ao tal
acidente, sendo um excelente pai de família ou uma extremosa mãe,
conforme os casos.
Mas essas pessoas perderam uma coisa que já tinham. Nunca viveram sem
memória. Com os doentes de Alzheimer, que igualmente perdem a memória, a
situação coloca-se de forma diferente e mais próxima daquela ideia que
eu quero dar de ausência de memória. Embora os doentes com Alzheimer
percam a memória sabe-se também que eles perdem a ideia de memória, ou
seja, não sabem, pelo menos nos momentos em que a doença se manifesta,
que perderam a memória e comportam-se como se aquela ausência de memória
que têm fosse o seu estado natural. São os outros, os familiares e
próximos que sentem a ausência de memória do doente, não ele.
Assim, e como mera hipótese quase académica, se de facto, uma pessoa
nunca tivesse tido memória nada sentiria em relação à sua presença ou à
sua ausência. Memória? Que é isso? Recordar-me de quê e para quê? Todos
os dias são dias novos para mim, dias que fecham a cada sono ou a cada
segundo e passado o tempo necessário para completar o processo cognitivo
em devir não me recordo de nada. Sim, porque mesmo sem memória é
possível viverem-se processos contínuos como o demonstram aqueles que
perderam a memória.
A coisa, na minha perspectiva passar-se-ia assim: um indivíduo
utilizaria apenas um conjunto de processos interligados que funcionariam
em sistema de rotina e viveriam para além dos processos de memória. Ir à
casa de banho, fazer a barba, tomar duche, muitos de nós já fazemos isso
mecanicamente sem que para isso sintamos a falta da memória. São rotinas
simples, quase tão reflexas como o respirar ou o afastar da mão de uma
fonte que queima. São quase actos reflexos.
Viver sem memória pode parecer, para quem está habituado a viver com
memória, uma coisa complicada mas para mim acho que não o deve ser e que
tem até as suas vantagens. Não dizem os psicólogos que o sonho é uma
repetição onírica do vivido? Pois acabaríamos assim com o sonho, mas,
por outro lado, acabaríamos também com o pesadelo.
Devo dizer que nunca fui muito bom a distinguir um do outro e que para
mim os chamados sonhos cor de rosa são uma extrema frustração após
acordar. Fico ainda pior do que estava antes de ter o sonho cor de rosa
porque ao aperceber-me de que se trata de um sonho fico frustrado,
chateado por não ter sido verdade (quando é sonho cor de rosa) e
contente por não ter sido verdade quando se trata de um pesadelo mas ao
mesmo tempo chateado por ter tido aquele pesadelo. Já não se pode dormir
descansado? - pergunto-me.
Assim a memória pode ter as suas vantagens mas tem igualmente muitas
desvantagens: fazer o balanço da vantagem e da desvantagem é assim um
pouco subjectivo, mas eu acho que se não tivéssemos memória de todo era
melhor. Viveríamos o momento, cada momento como coisa nova e nada ligada
a acontecimentos ou factos anteriores: apanharíamos, qual guarda redes,
as bolas à medida que elas fossem aparecendo.
Não sentiríamos esta necessidade parva, a meu ver, de alicerçar a nossa
vida na vida dos nossos antepassados e o pior de tudo é que sem
antepassados não somos ninguém neste mundo de memórias, acabando a
memória por funcionar como entidade desidentificadora pela sua ausência
e identificadora pela sua presença. No fim o que resta, ao identificado?
Uma amálgama onde aquilo que ele é se dilui naquilo que a sociedade com
memória diz que ele é. A meu ver uma parte substancial das pessoas, por
causa da memória, não são aquilo que de facto são.
Oh pá, és português, puxa do teu orgulho nacional e vai lá agitar a
bandeirinha. Ou então és cidadão, não te esqueças de ir votar. Ou então
ainda, não te esqueças dos povos irmãos...ora para mim todos os povos
são irmãos entre si, tenham eles sido descobertos. colonizados,
explorados por quem quer que seja.
Bem, e para acabar esta fase um pouco embrionária do estudo devo dizer
que vou prolongá-lo, se não me esquecer, embora desde já desenhe a
possibilidade de haver pelo menos alguma memória. O problema, que segue
no capítulo seguinte, é o de se saber qual o tipo de memórias que são
para guardar e qual o tipo de memórias que se devem pura e simplesmente
jogar fora.