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Desde 7 de Março de 2011
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Memória sobre a memória

Reflexão de Michel Crayon

 

Por vezes penso que deve haver uma razão bem forte para que as pessoas tenham memória. Pensando que Deus (se existe) não faz nada ao acaso, é normal que encontremos só por causa deste pressuposto uma razão forte para admitirmos a ideia de termos memória e para estarmos perfeitamente conformados com a ideia da sua inevitabilidade. Mas, e aparece sempre um «mas» nestas coisas, se analisarmos bem veremos que aceitamos a existência da memória não por aquilo que ela pode significar em si como entidade mas sim porque a temos (a memória).

Eu coloco a questão noutros termos para tentar ser mais claro: se não tivéssemos memória sentiríamos a falta de algo, a falta dela, quer como memória tal como a conhecemos quer com outra coisa qualquer que a substituísse e exercesse uma função substitutiva ainda que forma mais primarizada?

Todos nós conhecemos aquelas pessoas, pelo menos dos filmes, que perdem a memória e que sofrem um tormento horrível para a recuperar: quem sou eu? - perguntam-se. E a resposta dada por outros é que fulano ou fulana se chama, por exemplo, da Silva, que teve uma vida regular até ao tal acidente, sendo um excelente pai de família ou uma extremosa mãe, conforme os casos.

Mas essas pessoas perderam uma coisa que já tinham. Nunca viveram sem memória. Com os doentes de Alzheimer, que igualmente perdem a memória, a situação coloca-se de forma diferente e mais próxima daquela ideia que eu quero dar de ausência de memória. Embora os doentes com Alzheimer percam a memória sabe-se também que eles perdem a ideia de memória, ou seja, não sabem, pelo menos nos momentos em que a doença se manifesta, que perderam a memória e comportam-se como se aquela ausência de memória que têm fosse o seu estado natural. São os outros, os familiares e próximos que sentem a ausência de memória do doente, não ele.

Assim, e como mera hipótese quase académica, se de facto, uma pessoa nunca tivesse tido memória nada sentiria em relação à sua presença ou à sua ausência. Memória? Que é isso? Recordar-me de quê e para quê? Todos os dias são dias novos para mim, dias que fecham a cada sono ou a cada segundo e passado o tempo necessário para completar o processo cognitivo em devir não me recordo de nada. Sim, porque mesmo sem memória é possível viverem-se processos contínuos como o demonstram aqueles que perderam a memória.

A coisa, na minha perspectiva passar-se-ia assim: um indivíduo utilizaria apenas um conjunto de processos interligados que funcionariam em sistema de rotina e viveriam para além dos processos de memória. Ir à casa de banho, fazer a barba, tomar duche, muitos de nós já fazemos isso mecanicamente sem que para isso sintamos a falta da memória. São rotinas simples, quase tão reflexas como o respirar ou o afastar da mão de uma fonte que queima. São quase actos reflexos.

Viver sem memória pode parecer, para quem está habituado a viver com memória, uma coisa complicada mas para mim acho que não o deve ser e que tem até as suas vantagens. Não dizem os psicólogos que o sonho é uma repetição onírica do vivido? Pois acabaríamos assim com o sonho, mas, por outro lado, acabaríamos também com o pesadelo.

Devo dizer que nunca fui muito bom a distinguir um do outro e que para mim os chamados sonhos cor de rosa são uma extrema frustração após acordar. Fico ainda pior do que estava antes de ter o sonho cor de rosa porque ao aperceber-me de que se trata de um sonho fico frustrado, chateado por não ter sido verdade (quando é sonho cor de rosa) e contente por não ter sido verdade quando se trata de um pesadelo mas ao mesmo tempo chateado por ter tido aquele pesadelo. Já não se pode dormir descansado? - pergunto-me.

Assim a memória pode ter as suas vantagens mas tem igualmente muitas desvantagens: fazer o balanço da vantagem e da desvantagem é assim um pouco subjectivo, mas eu acho que se não tivéssemos memória de todo era melhor. Viveríamos o momento, cada momento como coisa nova e nada ligada a acontecimentos ou factos anteriores: apanharíamos, qual guarda redes, as bolas à medida que elas fossem aparecendo.

Não sentiríamos esta necessidade parva, a meu ver, de alicerçar a nossa vida na vida dos nossos antepassados e o pior de tudo é que sem antepassados não somos ninguém neste mundo de memórias, acabando a memória por funcionar como entidade desidentificadora pela sua ausência e identificadora pela sua presença. No fim o que resta, ao identificado? Uma amálgama onde aquilo que ele é se dilui naquilo que a sociedade com memória diz que ele é. A meu ver uma parte substancial das pessoas, por causa da memória, não são aquilo que de facto são.

Oh pá, és português, puxa do teu orgulho nacional e vai lá agitar a bandeirinha. Ou então és cidadão, não te esqueças de ir votar. Ou então ainda, não te esqueças dos povos irmãos...ora para mim todos os povos são irmãos entre si, tenham eles sido descobertos. colonizados, explorados por quem quer que seja.

Bem, e para acabar esta fase um pouco embrionária do estudo devo dizer que vou prolongá-lo, se não me esquecer, embora desde já desenhe a possibilidade de haver pelo menos alguma memória. O problema, que segue no capítulo seguinte, é o de se saber qual o tipo de memórias que são para guardar e qual o tipo de memórias que se devem pura e simplesmente jogar fora.

 

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