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CORONEL FABRICIANO
Terrorista louro de olhos azuis
BENEDITO FRANCO
Atualmente, bancos fazem mais mal aos países que todas as guerras existentes... E a «guerra branca»: deixa dor e miséria por todo lado! Até quando os povos aguentarão este Sistema Financeiro que domina o mundo? E ele pertence à Trilateral: Japão, Europa e Estados Unidos – e estes já sofrem as consequências, e se não tomarem sérias providências, ficarão junto com os pequenos que eles levaram para o fundo do poço... BFranco
Terrorista louro de olhos azuis
Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital - Preconceitos, como mentiras, nascem da falta de informação (ignorância)
e excesso de repetição. Se pais de uma criança branca se referem em termos
pejorativos a negros e indígenas, judeus e homossexuais, dificilmente a criança,
quando adulta, escapará do preconceito.
A mídia usamericana incutiu no Ocidente o sofisma de que todo muçulmano é um
terrorista em potencial. O que induziu o papa Bento XVI a cometer a gafe de
declarar, na Alemanha, que o Islã é originariamente violento e, em sua primeira
visita aos EUA, comparecer a uma sinagoga sem o cuidado de repetir o gesto numa
mesquita.
Em qualquer aeroporto de países desenvolvidos um passageiro em trajes islâmicos
ou cujos traços fisionômicos lembrem um saudita, com certeza será parado e
meticulosamente revistado. Ali reside o perigo... alerta o preconceito
infundido.
Ora, o terrorismo não foi inventado pelos fundamentalistas islâmicos. Dele foram
vítimas os árabes atacados pelas Cruzadas e os 70 milhões de indígenas mortos na
América Latina, no decorrer do século 16, em decorrência da colonização ibérica.
O maior atentado terrorista da história não foi a queda, em Nova York, das
torres gêmeas, há 10 anos, e que causou a morte de 3 mil pessoas. Foi o
praticado pelo governo dos EUA: as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em
agosto de 1945. Morreram 242.437 mil civis, sem contar as mortes posteriores por
efeito da contaminação.
Súbito, a pacata Noruega – tão pacata que, anualmente, concede o Prêmio Nobel da
Paz – vê-se palco de dois atentados terroristas que deixam dezenas de mortos e
muitos feridos. A imagem bucólica do país escandinavo é apenas aparente. Tropas
norueguesas também intervêm no Afeganistão e deram apoio aos EUA na guerra do
Iraque.
Tão logo a notícia correu mundo, a suspeita recaiu sobre os islâmicos. O duplo
atentado, no gabinete do primeiro-ministro e na ilha de Utoeya, teria sido um
revide ao assassinato de Bin Laden e às caricaturas de Maomé publicadas pela
imprensa escandinava. O preconceito estava entranhado na lógica ocidental.
A verdade, ao vir à tona, constrangeu os preconceituosos. O autor do hediondo
crime foi o jovem norueguês Anders Behring Breivik, 32 anos, branco, louro, de
olhos azuis, adepto da fisicultura e dono de uma fazenda de produtos orgânicos.
O tipo do sujeito que jamais levantaria suspeitas na alfândega dos EUA. Ele «é
dos nossos», diriam os policiais condicionados a suspeitar de quem não tem a
pele suficientemente clara nem olhos azuis ou verdes.
Democracia é diversidade de opiniões. Mas o que o Ocidente sabe do conceito de
terrorismo na cabeça de um vietnamita, iraquiano ou afegão? O que pensa um líbio
sujeito a ser atingido por um míssil atirado pela OTAN sobre a população civil
de seu país, como denunciou o núncio apostólico em Trípoli?
Anders é um típico escandinavo. Tem a aparência de príncipe. E alma de viking. E
é o que a mídia e a educação deveriam se perguntar: o que estamos incutindo na
cabeça das pessoas? Ambições ou valores? Preconceitos ou princípios?
Egocentrismo ou ética?
O ser humano é a alma que carrega. Amy Winehouse tinha apenas 27 anos, sucesso
mundial como compositora e intérprete, e uma fortuna incalculável. Nada disso a
fez uma mulher feliz. O que não encontrou em si ela buscou nas drogas e no
álcool. Morreu prematuramente, solitária, em casa.
O que esperar de uma sociedade em que, entre cada 10 filmes, 8 exaltam a
violência; o pai abraça o filho em público e os dois são agredidos como
homossexuais; o motorista de um Porsche se choca a 150 km por hora com uma jovem
advogada que perece no acidente e ele continua solto; o político fica indignado
com o bandido que assaltou a filha dele e, no entanto, mete a mão no dinheiro
público e ainda estranha ao ser demitido?
Enquanto a diferença gerar divergência permaneceremos na pré-história do projeto
civilizatório verdadeiramente humano.
[Fonte: Adital Notícias - 29.07.11 - Mundo -- Frei Betto é escritor, autor, em
parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de «Conversa sobre a fé e a
ciência» (Agir), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/ - twitter:@freibetto. Copyright 2011 – FREI
BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os
artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL –
Agência Literária (mhpal@terra.com.br)]
Benedito Franco