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Tudo o que você sempre quis saber sobre:

Fernando Pessoa, 

e não encontrou. 

 

Texto e Recolha da Redacção

 

(Continuação do número anterior - Veja aqui)

 

A Arte Moderna é Arte de Sonho

 

Quem quisesse resumir numa palavra a característica principal da arte moderna encontrá-la-ia, perfeitamente, na palavra sonho. A arte moderna é arte de sonho.

Modernamente deu-se a diferenciação entre o pensamento e a acção, entre a ideia do esforço e o ideal, e o próprio esforço e a realização. Na Idade Média e na Renascença, um sonhador, como o Infante D. Henrique, punha o seu sonho em prática. Bastava que com intensidade o sonhasse. O mundo humano era pequeno e simples. Era-o todo o mundo até à época moderna.

Não havia a complexidade de poder a que chamamos a democracia, não havia a intensidade de vida que devemos àquilo a que chamamos o industrialismo, nem havia a dispersão da vida, o alargamento da realidade que as descobertas deram e resulta no imperialismo.

Hoje o mundo exterior é desta complexidade tripla e horrorosa. Logo no limiar do sonho surge o inevitável pensamento da impossibilidade. (a Própria ignorância medieval era uma força de sonho). Hoje tudo tem o como e o porquê científico e exacto. Explorar a Africa seria aventureiro, mas não é já tenebroso e estranho, procurar o Pólo seria arriscado, mas já não é. O Mistério morreu na vida: quem vai explorar a Africa ou o Pólo não leva em si o pavor do que virá a encontrar, porque sabe que só encontrará coisas cientificamente conhecidas ou cientificamente cognoscíveis.

Já não há ousadia: basta a coragem física de um bom pugilista (?). Por isso as mais loucas tentativas de idealização dos nossos aviadores e exploradores não logram ser senão ridículas, tão de estatura de alma mediana estas são. São homens de ciência, homens de prática. E os grandes homens antigos eram homens de sonho.

Os homens diminuem. Gradualmente, cada vez mais, governar é administrar, guiar. Desde que a arte moderna se tornara a arte pessoal, lógico era que o seu desenvolvimento fosse para interiorização cada vez maior - para o sonho crescente, cada vez mais para o sonho.

O poeta do sonho é um melódico, um acorrentado na música dos seus versos, como Ariel estava preso na curva de Sicorax (The Tempest de Shakespeare). A música é essencialmente a arte do sonho: e o desenvolvimento da música, moderno todo, no que valioso e grande, é a composição suprema de quanto aqui teorizamos.

O poeta sonhador, porque sonhador, é até certo ponto músico. E para comunicar o seu sonho precisa de se valer das coisas que comunicam o sonho. A música é uma delas. O poeta de sonho é geralmente visual, um visual estético. O sonho é da vista geralmente. Pouco sabe auditivamente, tactilmente. E o «quadro», a «paisagem» é de sonho, na sua essência, porque é estática, negadora do continuamente dinâmico que é o mundo exterior. ( Quanto mais rápida e turva é a vida moderna, mais lento, quieto e claro é o sonho).(...)

(...)Havia 3 caminhos a seguir ante este novo estado civilizacional:

1) Entregar-se ao mundo exterior, deixar-se absorver por ele, tomando dele a vida oca e ruidosa, o esforço sumamente esforço, a Natureza simplesmente Natureza - e este caminho seguiram Whitman, Nietzsche, Verhaeren, e entre nós, a corrente que incluiu Nunes Claro, Sílvio Rebelo e João de Barros.

2) Pôr-se ao lado, à parte dessa corrente, num sonho todo individual, todo isolado, reagindo inertemente e passivamente contra a vida moderna, quer pela ânsia medieval, quer pela fuga para o longe no espaço, quer para o estranho e o invulgar na vida - o Longe na vida afinal. Foi o caminho que seguiram Edgar Poe, Baudelaire (fugindo para o estranho), Rossetti, Verlaine (para a Idade Média e para o Estranho), Eugénio de Castro (para a Grécia ), Loti (para o Oriente).

3) Metendo esse ruidoso mundo, a natureza, tudo, dentro do próprio sonho - e fugindo da «Realidade» nesse sonho. O caminho Português ( tão caracteristicamente português ) - que vem desde Antero de Quental cada vez mais intenso até à nossa recentíssima poesia.

Quem quiser compreender o simbolismo tem de contar com a sua tripla natureza. E:

1) Decadência do romantismo;

2) Um movimento de reacção contra o cientismo;

3) Um estádio na evolução ( ou princípio duma evolução ) duma nova arte. (...)

(...) O maior poeta da época moderna será o que tiver mais capacidade de sonho. (...)

(...) Em seu carácter, o sonhador mostra certas características: A assexualidade, ou parassexualidade, é um, e vidente; é a forma mais flagrante da sua incapacidade para lidar com a normalidade e a realidade das coisas. (...)

(...) O Infante D. Henrique é o perfeito tipo do sonhador. Desde a sua assexualidade até ao seu perfeito sacrifício dos outros - é um sonhador. Mas viveu no tempo em que se podia sonhar.

Hoje o sonho é sempre de coisas inexequíveis. O que se concebe como exequível é porque se concebe como cientificamente exequível, e o que se concebe como cientificamente exequível qualquer coisa não pode ser matéria de sonho,

( In Fernando Pessoa, Páginas de Estética, Teoria e Crítica Literária - Sobre Escolas Literárias - 9- A arte moderna é arte de sonho. 1913(?) ).

Nota de D. T. : Este trabalho de Fernando Pessoa, ainda que bastante antigo como se entende, e embora se refira ao simbolismo como corrente estética, pode, neste plano considerar-se como sendo uma visão geral sobre o panorama artístico do seu tempo e daqueles tempos que imediatamente o antecederam ou procederam.

O acento colocado no sonho, e não num sonho qualquer, ou seja, a necessidade de sonhar o irrealizável encontra-se em toda a poesia da época (ou pelo menos em quase toda ). O poeta / artista não pode arriscar-se a sonhar aquilo que pode ser realizado ou que pode acontecer, ainda que hipoteticamente as possibilidades disso acontecer sejam pequenas.

Basta-lhe a suspeita de que algo que sonha seja humanamente ou naturalmente realizável para que o poeta fuja desse sonho...o sonho tem de ser total enquanto sonho, não pode trazer consigo réstias da vida presente ou do dia a dia.

Esta fuga ao concretizável é, de uma forma algo subtil, uma fuga à fuga à realidade que os devaneios proporcionam (nomeadamente através das drogas em Camilo Pessanha, por exemplo). Trata-se de um elevado grau de alienação da realidade...quase uma paranóia no sentido psiquiátrico do termo, um autismo construído.

O problema que se coloca, quando lemos este texto e quando juntamos os dados das coisas é o de saber até que ponto os poetas que assim pensaram foram, no seu sentido menos natural e mais psíquico, gente, na acepção comum do termo.

Foram-no, sem dúvida, gente...o problema reside «apenas» e só no facto de estarem convencidos que o não eram...

 

Nota: Este tema e selecção de textos de Fernando Pessoa e depois de outros autores também continua nos próximos números.

 

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Leia aqui Quatro Poemas de Fernando Pessoa