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Sobre
a penosidade
Reflexão de Michel Crayon
Esta coisa de estar de férias tem as suas vantagens mas tem também, e penso mesmo que em maior medida, as suas desvantagens. Para uma pessoa como eu, caso não único certamente, quando apetece estar de férias é na altura em que se está a trabalhar e quando nos apetece não estar de férias é quando temos de estar de férias, porque trata-se, pelo menos a partir de uma dada altura das férias de praticar uma obrigação que é a obrigação de estar e continuar de férias.
Pelo contrário - por muito que arredemos esta ideia má que vou referir -
quantas vezes, durante o ano (de trabalho) acordamos penosamente e ainda
na cama dizemos: «porra, hoje não me apetecia mesmo nada ir trabalhar!».
Mas temos de ir, mesmo que o trabalho esteja todo entrançado, que
tenhamos vontade de passar pelo contentor e arrastá-lo connosco até ao
10º andar (mesmo pelas escadas para não fazer cheirar ainda mais mal o
elevador) e chegados perto da secretária abraçar todo o papelame, em
várias dobradelas da espinal medula e colocando as mãos em pá, e
enterrar tudo o que estiver sobre a secretária dentro do dito contentor
do lixo, separando é claro as coisas de forma a cumprir as boas regras
da reciclagem...
Mas não podemos, é claro. Sentamo-nos ainda mais penosamente do que nos
levantámos da cama, começamos a atirar clipes com a esferográfica contra
tudo o que apareça e já lá esteja na sala, fazemos bolinhas de papel e
jogamos o basquete amontoando falhanços na carpete e olhamos
ansiosamente para o relógio que parece estranhamente trabalhar sempre
mais lento nesses dias.
Eu já contei que num dia normal de trabalho, com trabalho que dá algum
gozo, uma encestadela tem mais hipóteses de sair certeira em cada milhar
numa proporção de quase 50/50 contra cerca de 10/90 nos dias chatos. Por
outro lado a projecção de clipes quando do impacto é nitidamente mais
melodiosa nesses dias do que nos outros, nos dias chatos, o que acho que
deveria ser estudado de uma forma aprofundada porque se trata de
reacções subjectivas sobrepondo-se à objectividade dos factos uma vez
que os elementos materiais em jogo são precisamente os mesmos só mudando
a nossa íntima e pessoal disposição ou humor.
Por isso eu acho, e penso que posso ser seguido por uma multidão de
adeptos que pensam certamente como eu, que as férias (e o trabalho)
deveriam ser quando nós quiséssemos: um belo dia, estando a trabalhar
(em período de trabalho) ou de férias (em período de férias) uma pessoa
deveria ser livre de decidir por si se ia ou não trabalhar ou se
continuava ou não de férias.
Porque a realidade é esta, não temos nada que esconder estes factos já
abundantemente estudados: o trabalho com alegria, com gosto, tem uma
mais elevada produtividade. Por outro lado, e inversa e lamentavelmente,
as férias contrariadas têm um maior desperdício e não funcionam como
aquele retemperar que deveria fazer parte da sua função e apenas faz
parte dessa função nominalmente.
E é claro que haverá quem - fazendo jus a algum reaccionarismo que ainda
vive latente na nossa sociedade ofuscada por 50 anos de obscurantismo -
que haverá, dizia eu, quem afirme desde logo: «O que este gajo quer é
mama: quer transformar o sistema de 99,9% de trabalho em 99,9% de
férias» e por último haverá quem diga que isso iria ter repercussões no
vencimento mensal, na produtividade, nas contas do défice público, etc.
Nada mais errado e tendencioso, como me parece claro: se virem de novo o
início do texto que agora vou ter de acabar, eu estou de férias e
quereria ir trabalhar. Não se trata de ver ao contrário...eu estar a
trabalhar e querer partir de férias. Acho que está assim provado que a
produtividade da minha empresa aumentava, ainda que esteja a ver só o
dia de hoje.
Aliás devo acrescentar que este cesto de papéis em minha casa não tem
condições de encestamento que se pareçam com aquelas que tenho no
escritório...