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«O
ESPECTRO DA IDEOLOGIA» DE SLAVOJ ZIZEK
Por Arlete Deretti Fernandes
Texto inicialmente publicado Pagª 48 - EDIÇAO NºXXXIX , III NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 (link)
Slajov Zizek, filósofo e crítico esloveno, em seu artigo «O Espectro da Ideologia», do livro «Um Mapa da Ideologia», organizado por ele e publicado em 1994, faz uma importante análise do conceito de ideologia, desde o pensamento de Marx, (1818-1883) e das reelaborações que este tema recebeu até hoje, na sua avaliação e reconstrução feita pelos intelectuais que refletem sobre estes assuntos.

Em sua tese, o autor cita:
Até uma ou duas décadas atrás, o sistema produção - natureza (a relação
produtiva exploratória do homem com a natureza e com seus recursos) era
percebido como uma constante, enquanto todos tratavam de imaginar diferentes
formas de organização social da produção e do comércio, (o fascismo ou o
comunismo como alternativas ao capitalismo liberal), e que hoje, como assinalou
Fredric Jameson com muita perspicácia ninguém mais considera seriamente as
possíveis alternativas ao capitalismo, enquanto a imaginação popular é
assombrada pelas visões do futuro «colapso da natureza», da eliminação de toda a
vida sobre a Terra.. (ZIZEK, 1994,p. 7)
Para Zizek, todos imaginam como verdadeiro que o capitalismo liberal seja o
«real», que irá sobreviver a qualquer catástrofe.
O autor se move neste meio multifacetado, composto de inúmeras interpretações,
buscando esclarecer o sentido do termo «ideologia», em suas diversas
manifestações, para dar-lhe uma significação possível ainda de ser pensada na
era pós-moderna e do capitalismo tardio.
Ele exemplifica com a dialética do «velho» e do «novo», das rupturas radicais,
dos críticos do Marxismo que «apreendem a sociedade capitalista avançada como
uma nova formação social não mais dominada pela dinâmica do capitalismo tal como
descrita por Marx».
Ao citar muitos rompimentos de estruturas, refere-se a um exemplo no campo da
sexualidade, ao sexo virtual como uma ruptura radical com o passado, pois para
Lacan o ato sexual «real???»é intrinsecamente fantasmático, o sexo virtual seria
então uma estrutura fantasmática subjacente.
A nação, por exemplo, é composta por uma ideologia e por uma realidade, é
formada por homens, com suas idéias e interesses, com suas necessidades vitais e
suas lutas. Por este motivo, ela é um fenômeno social complicado, e é um espaço
de intensa ideologização.
«Um caso exemplar da (des) apreensão inversa é fornecida pela reação dos
intelectuais liberais do Ocidente ao surgimento de novas nações oriundas da
desintegração do socialismo real no Leste europeu: eles (des)apreenderam esse
surgimento como um retorno à tradição oitocentista do Estado nacional, quando
aquilo com que estamos lidando é exatamente o inverso – o fenecimento do Estado
nacional tradicional, baseado na idéia do cidadão abstrato, identificado com a
ordem jurídica constitucional».[...] «O antigo espectro do Leviatã, parasitando
o Lebenswelt (mundo da vida) da sociedade, totalizando-a de cima para baixo, é
cada vez mais desgastado por duas vertentes. De um lado, existem as novas
comunidades étnicas emergentes; embora algumas sejam formalmente constituídas
como Estados soberanos, elas já não são propriamente Estados, no sentido europeu
da era moderna, uma vez que não cortaram o cordão umbilical entre o Estado e a
comunidade étnica. (Paradigmático, nesse aspecto, é o caso da Rússia, onde as
máfias locais já funcionam como uma espécie de estrutura paralela de poder.) Por
outro lado, existem os múltiplos vínculos transnacionais, desde o capital
multinacional até os cartéis da máfia e as comunidades políticas interestatais
(a União Europeia)».( ZIZEK 1994, p. 8.)
Em meio aos conflitos das Nações, perante um sistema que seja de hegemonia
mundial como ideologia e poder, está o pensamento que «a ideologia é o oposto
diametral da internalização da contingência externa, residindo na externalização
do resultado de uma necessidade interna»( ZIZEK, 1994, p10).
Esta ideologia como externalização resultante de uma necessidade interna, é
exemplificada por Zizek pelo modo distinto como a mídia ocidental tratou a
guerra da Bósnia e a guerra contra o Iraque, dois fatos da história
contemporânea, mesmo sendo diferentes no espaço e no tempo, mas ligados às
raizes de uma história passada com suas realidades no presente, mas tratados
ideologicamente de maneiras distintas, em função das necessidades internas da
potência ou das potências dominantes.
Em vez de dar informações sobre as tendências e antagonismos sociais, políticos
e religiosos do Iraque, a mídia acabou reduzindo o conflito a uma briga com
Saddam Hussein, a personificação do mal, o fora-da-lei que se excluira da
comunidade internacional civilizada.
Mais do que a destruição das forças militares do Iraque, o verdadeiro objetivo
foi apresentado como sendo psicológico, como a humilhação de Saddam, que tinha
que «perder a pose».
Em se tratando da guerra da Bósnia, porém, apesar de alguns casos isolados de
demonização do presidente sérvio, Milosevic, a atitude predominante reflete a de
um observador quase antropológico. Os meios de comunicação superam uns aos
outros no esforço de nos dar aulas sobre os antecedentes étnicos e religiosos do
conflito; traumas de mais de cem anos são encenados e reencenados, a tal ponto
que para compreender as raizes do conflito, tem-se que conhecer não apenas a
história da Jugoslávia, mas também toda a história dos Balcãs, desde os tempos
medievais (...)
Na guerra da Bósnia, portanto, não se pode simplesmente tomar um partido, mas
apenas tentar apreender os antecedentes daquele espetáculo selvagem, alheio a
nosso sistema de valores civilizado. (...) Esse processo inverso implica uma
mistificação ideológica ainda mais ardilosa do que a demonização de Saddam
Hussein. (ZIZEK, apud RENATA SALECL 1994,p.10).
Para Zizek a ideologia como uma externalização (e não uma internalização do
externo, como costuma acontecer com a ideologização da percepção) que resulta de
uma necessidade interna, acaba servindo ao engendro de informações por aqueles
que manipulam interesses internacionais.
Há nos dias de hoje uma ideologia do internacionalismo econômico e uma ideologia
na história das Nações.
Zizek, à p. 10 faz questionamentos sobre a mistificação ideológica e uma crítica
ao Ocidente pela forma como se coloca diante dos conflitos nos Bálcãs, como um
silencioso apoio à purificação étnica.:
«Em que consiste, exatamente, essa mistificação ideológica? Dito de maneira um
tanto crua, a evocação da «complexidade da situação» serve para nos livrar da
responsabilidade de agir. A cômoda atitude do observador distante e a evocação
do contexto supostamente intricado das lutas religiosas e étnicas dos países
balcânicos servem para permitir ao Ocidente livrar-se de sua responsabilidade
para com os Balcãs – ou seja, para evitar a dura verdade de que, longe de expor
um excêntrico conflito étnico, a guerra da Bósnia resulta diretamente da
incapacidade do Ocidente de apreender a dinâmica política da desintegração da
Iugoslávia, e do silencioso apoio ocidental à purificação étnica».
O que se constata neste ensaio de Zizek é que o conceito de ideologia está
caracterizado pelo paradoxo, é um tipo de visão comprometida com a realidade
social, com sua transformação ou com a distorção desta realidade.
Zizek, em sua análise do conceito de ideologia, (re) visita o pensamento de
Marx, Althusser, Foucault, Adorno, Freud, Lacan, Derrida, Lefort e outros,
preparando uma possível direção onde este conceito possa vir a contribuir para a
(. re) apreensão da realidade social contraditória vigente nos dias atuais.
Uma visão que mais se aproxima desta meta é a contribuição psicanalítica de
Lacan que se distancia da dicotomia realidade verdadeira versus realidade falsa.
A realidade é sempre mediada pelo símbolo, ela é uma construção simbólica,
dissimulando a pretensão da (re)apreensão do real em si..
O Espectro da Ideologia é uma reconstrução válida e inquietante sobre um
conceito jogado fora pelos intelectuais burgueses, mas que se constitui, na
verdade, num instrumento valioso para a compreensão das tensões, dos paradoxos,
dos antagonismos, das crises, das contradições que permeiam a realidade social
nesta época conturbada por problemas ecológicos, sociais, étnicos, econômicos,
políticos.
Como aluna do curso de Letras, considero que o autor em sua exaustiva e
articulada análise do conceito de ideologia deixou uma lacuna ao não abordar a
lógica da ficção enquanto ato criativo ou criação literária, o que se torna
compreensível por ser por demais complexo (des)entranhar o viés ideológico na
memória, na imaginação e na fonte revolucionária da criação literária, da
construção discursiva de um romance.
Outra questão importante é que as ideologias são sempre produzidas em condições
propícias e objetivas, por homens e por mulheres que vivenciam situações
concretas.
Nestes tempos elas estão vivas, latentes ou manifestas, mas fazendo parte das
forças conflitantes do corpo social.
Enfim, Zizek traz para a pos - modernidade, caracterizada hoje pelo Capitalismo
tardio, a coragem e a audácia de colocar em novos termos o que é a ideologia.
Porém, este discurso tem o seu revés, é a aparição fantasmática que retorna, é a
astúcia da razão, que ao reconstruir também se desconstrói, se desmonta.
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