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As citações de Ilona Bastos

Citações retiradas do Blogue Da Matéria das Estrelas de Ilona Bastos

 

Rainer Maria Rilke

«Ambos nos recostámos simultaneamente nas cadeiras, o que fez os nossos rostos mergulharem na sombra. Pousei a minha chávena de vidro, alegrei-me por o chá ter um brilho dourado, lentamente voltei a esquecer esta alegria e perguntei subitamente: «Ainda se lembra de Deus?»

O desconhecido refectiu. Os olhos penetravam no escuro e, através dos pequenos pontos de luz nas pupilas, pareciam duas longas áleas cobertas de folhagem num parque sobre o qual pousam luminosa e amplamente o Verão e o Sol. Também estas áleas começam assim: com uma arredondada luz crepuscular, estendem-se por uma escuridão cada vez mais cerrada até a um ponto distante e reluzente - a saída do lado oposto para um dia talvez ainda mais claro. Enquanto fazia esta descoberta, ele disse hesitante como se se servisse de mau grado da voz: «Sim, ainda me lembro de Deus.»»

Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus, Quasi

Stendhal

«No livro da cozinheira burguesa, a receita de guisado de lebre começa com estas palavras muito sensatas: «Irá necessitar de uma lebre.»
Portanto, é em vão que se pretende ser artista sem ter engenho.
Neste aspecto, todos os discursos do mundo serão inúteis se um homem não tiver esta intuição profunda.»

Do Riso, Um Ensaio Filosófico Sobre um Tema Difícil e Outros Ensaios, livros de bolso EUROPA-AMÉRICA

 

Robert Benchley

«Durante a época de Natal e Ano Novo andou de boca em boca, pelos escritórios e salas de visita, o desagradável boato de que eu tinha sido preso.

Gostaria de deixar claro desde já que fui eu próprio que lancei esse boato.

Não só o lancei como gastei bastante dinheiro para o manter vivo, recorrendo a mexeriqueiros pagos, para que os meus amigos percebessem por que motivo não lhes enviava presentes ou bilhetes-postais com lembranças minhas.

De um homem preso numa cadeia não poderiam esperar que lhes enviasse qualquer coisa, não é verdade?"

Robert Benchley, Wit, Ensaios Humorísticos, Tinta da China edições.

 

Pierre Benoit

«Tendo tirado à sorte as diversas partes da Terra, os deuses obtiveram, uns uma parte maior e outros uma parte mais pequena. Foi assim que Neptuno, tendo recebido como partilha a Atlântida, colocou os filhos que tivera com uma mortal numa parte da ilha.»

«(...) - Deve compreender - continuou Le Mesge, mais calmo - o erro daqueles que, acreditando na Atlântida, quiseram explicar o cataclismo, em que a maravilhosa ilha se submergiu completamente. Todos acreditaram nisso. Mas a verdade é que não houve uma imersão. Pelo contrário, deu-se uma emersão. Novas terras emergiram do centro atlântico. Quer dizer, o deserto substituiu o mar.»

«(...) Mas foi encontrada um mulher que pudesse restabelecer, em proveito do seu sexo, a grande lei hegeliana das hesitações. Separada do mundo ariano pela formidável precaução de Neptuno, ela atrai a si os homens mais novos e corajosos: O seu corpo é condescendente, mas a sua alma é inexorável.

Desses jovens audaciosos, ela toma o mais que eles podem dar. Oferece-lhes o corpo, mas domina a sua alma. É a primeira soberana que jamais foi escrava, um só momento, do amor».

Pierre Benoit, A Atlântida, Editorial Minerva

 

Karl Jaspers

«A filosofia é o acto da concentração pelo qual o homem se torna autenticamente no que é e participa na realidade.

Embora a filosofia possa inspirar qualquer pessoa, mesmo uma criança, sob a forma de pensamentos simples e ineficazes, a sua elaboração consciente é tarefa nunca totalmente cumprida e sempre repetida na sua totalidade presente; assim surge nas obras dos filósofos maiores e, em eco, nas dos menores.

A consciência desta tarefa, qualquer que seja a forma que assuma, manter-se-á perenemente enquanto os homens forem homens.»

Iniciação filosófica, Karl Jaspers, Guimarães & C.ª Editores

 

Carlo M Cipolla

«(...) se uma piada humorística não é entendida como tal por parte do interlocutor, é praticamente inútil, senão mesmo contraproducente, procurar explicá-la.

«O humorismo é claramente a capacidade inteligente e subtil de revelar e representar o aspecto cómico da realidade, mas é também muito mais do que isso.

Antes de mais, como escreveram Devoto e Oli, o humorismo não deve implicar uma posição hostil, mas sim uma profunda e muitas vezes indulgente simpatia humana. Além disso, o humorismo implica a percepção instintiva do momento e do lugar em que pode ser usado.

Fazer humor sobre a precariedade da vida humana à cabeceira de um moribundo não é humorismo. Por outro lado, merecia certamente que a sua cabeça tivesse sido poupada aquele cavalheiro francês que, tendo tropeçado num dos degraus ao subir a guilhotina, se dirigiu aos guardas e disse:
«Dizem que tropeçar dá azar.»

Carlo M Cipolla, Allegro ma non troppo.



 

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