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Desde 7 de Março de 2011
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 Entrevista a Gilberto Nogueira de Oliveira

Conduzida por Arlete Piedade

Desde o início do ano corrente, que Gilberto Nogueira de Oliveira, poeta da esquerda brasileira, homem que usa a caneta como arma e a poesia como porta-estandarte, está sempre connosco semanalmente, com os seus poemas de intervenção, não só na rádio, como no jornal, dando-nos a sua amizade e divulgando incansavelmente o nosso projecto cultural e de intercâmbio entre os povos de língua portuguesa. Assim nada mais apropriado que tentarmos conhecer um pouco melhor esse homem e intelectual, convidando-o para uma entrevista, a ser difundida no programa Arlete Con:)Vida da Rádio Raizonline e publicada igualmente no Jornal Raizonline.

1- Lago Titicaca. Gilberto Nogueira, Rita Maria ( esposa ) Lidiane Levi ( Nora) Ramon Barreto ( filho )

Arlete Con:)Vida (AC):

- Vamos pois começar esta entrevista, convidando Gilberto, a falar mais de si próprio, como homem, pai de família, socialista, escritor e poeta.

Gilberto Nogueira de Oliveira (GO):

- Meu nome é Gilberto Nogueira de Oliveira, sou poeta e escritor desde 1968 quando fui apresentado aos pensadores Karl Marx, Jean Paul Sartre, Herbert Marcuse, Antonio Gramsci, Pablo Neruda, ideologicamente, por meu irmão Paulo Nogueira de Oliveira que foi assassinado pela ditadura militar aqui na Bahia em 1972, no curso de medicina da UFBA.

Tenho 5 filhos, sou comunista porque acho que o mundo capitalista está em decomposição desde os anos 60. Os donos do sistema capitalista tentam levar essas idéias de Superman de defesa da pobreza pelo capital e o acúmulo de causas judiciais que no fim não dão em nada, comprando Juízes e Políticos brasileiros que atuam em favor do crime organizado. Um grande exemplo foi a assassinato da Juiza Accioly no Rio de Janeiro.

Minha vida foi numa família de classe média na cidade de Nazaré - Bahia a qual eu nasci. Tive uma infância feliz e amigos cultos. Em 1964 no golpe de estado, vários professores foram presos e outros colegas perderam a vida nos protestos contra a ditadura em minha cidade. Trabalhei na Caixa Econômica Federal por 28 anos e fui aposentado por problemas de depressão.

AC: - Pelas fotos que me enviou e por conversas que tivemos pelo messenger, sei que um dos seus filhos, está a estudar medicina na Bolívia.

Quer falar um pouco dos motivos que o levaram a ir estudar para outro país, se é por dificuldades em estudar no Brasil e quais são essas dificuldades?

E quanto aos seus outros filhos? Estão a estudar também no estrangeiro, ou no Brasil?

Gostaria que contasse aos nossos ouvintes e leitores, quais os problemas que os jovens brasileiros enfrentam para se formarem, hoje em dia.

2 - Copacabana - Ramon (filho) Gilberto Nogueira, e Lidiane Levi ( nora )

GO: - Hoje no Brasil, para se colocar um filho no curso de medicina é preciso ser político ou empresário muito rico porque o povo é quem paga. E alem do mais na Bolívia tem bons cursos de medicina.

Só que quando volta formado ao Brasil a pessoa tem que fazer uma prova que é impossível passar. Eles já criam essa dificuldade para o pobre desistir e não ser médico.

Tenho uma filha que estuda odontologia aqui no Brasil e que me custa 3 mil dólares por mês então tive que mandar o Ramon para a Bolívia porque lá o curso é mais em conta.

A dificuldade do jovem é que em suas cidades não tem faculdades e normalmente eles tem que ir para outras cidades. E faculdade particular é cara e ainda tem o aluguel.

AC: - Dando uma volta pelo seu blog, vejo poesias com datas desde pelo menos 1968. Um ano significativo para a humanidade, pela revolta dos estudantes em França nesse ano, que marcaram uma viragem na sociedade desse tempo e a ida do homem á lua no ano seguinte. Por isso pergunto ao nosso convidado, afinal em que idade começou a escrever? E como despertou para a poesia?

GO: - Comecei a escrever em 1967. Mas eram textos românticos e inadequados para a época em que vivíamos. Era a época de Geraldo Vandré, Che Guevara, Josué de Castro, Fidel Castro e também de Mao Tze Tung.

Meu irmão Paulo me orientava através de cartas que enviava de São Paulo, a cidade a qual ele residia, me indicando livros e autores como: Kafka, Marcuse, Gramsci e outros pensadores inclusive alguns brasileiros.

Quanto ao ano de 1968 na França, trata-se de um vexame do Partido Comunista Francês que não soube orientar as massas para o confronto. Foi válido porque o mundo inteiro conheceu os crimes da ditadura de Gaulle. Como no Brasil em 1964 quando o PCdoB se ausentou das lutas, aceitando o golpe e ficando fracionado a vários grupos de esquerda dissidentes que na verdade foi quem fizeram o movimento contra a ditadura.

Quando é proibido ao jovem escrever, aí é que desperta a curiosidade e ele encara o desafio.

3 - Aeroporto - Ramon (filho ) Rita Maria ( esposa) Alvaro Levi ( pai Lidiane Levi ) e Gilberto Nogueira, Aeroporto de Cochamba La Paz

AC: - Fale-nos agora um pouco do seu percurso como poeta, socialista e homem de intervenção, que faz da caneta a sua arma.

GO - No ano de 1973, ia eu e um primo-irmão para Salvador quando fomos abordados por forças do exército e fomos conduzidos à prisão. Sem saber por que, foram tirados todos os nossos pertences, inclusive 82 poesias minhas que foram destruídas.

Seis horas depois apareceu um sujeito que foi diretor militar do colégio em que eu estudei em Nazaré e liberou a gente. Disse que foi um engano. Isso, poucos meses depois de meu irmão ser assassinado no Hospital das Clínicas da UFBA.

Estava indo para Salvador ao encontro de um jornalista do jornal A Tarde que prometeu ler minhas poesias para ver se tinha «condição de publicação».

AC:- Sei que entretanto publicou livros no Brasil e noutros países. Fale-nos das suas obras e como foram publicadas e divulgadas noutros países.

GO - Publiquei um livro no Brasil. Seu nome é Ferro Teatro mas não é meu livro mais importante. No mais, tenho publicado poesias em várias revistas como: Varal do Brasil (Suíça), Raizonline Radio, Jornal e Portal (Portugal), Palanque Marginal, WebArtigos, W2H.com.br, Revista Virtual Partes e outras revistas do Brasil.

Fui indicado para o Raizonline e para o Varal do Brasil pelo poeta bahiano Waldeck Almeida de Jesus. Waldeck é uma pessoa tão superior que não pensa em fazer sucesso sozinho. Como eu. Ando cassando poetas novos e promissores para o sucesso.

AC: - Sente que a sua voz e de outros poetas de intervenção social e humanitária, fazem-se ouvir pelos políticos e influenciam decisões nos governos não só brasileiros como mundiais?

GO - E é bom que isso aconteça. Um homem quando ganha o poder num país capitalista, automaticamente torna-se um homem de «transação». Como no Brasil. O sistema foi amansando o Lula com eleições fraudulentas e eletrônicas. Quando ele ficou «no ponto», foi eleito Presidente. Hoje o Lula representa os banqueiros e as empresas multinacionais. Como eles previram e o moldaram.

AC - Como sabe, há um movimento mundial de poetas, Poetas del Mundo, que teve o seu início em Santiago do Chile, com Luis Arias Manzo. Qual a sua opinião e posicionamento em relação a essa associação de poetas e aos seus objectivos?

GO - No Chile aconteceu uma desgraça em 1973. Lembro da ditadura violenta de Pinochet que prendeu 30 mil pessoas num Estádio de futebol em Santiago e fuzilou a maioria delas. Nesse mesmo estádio foi assassinado o cantor e compositor Victor Jara. Primeiro cortaram-lhe as mãos e depois furaram-lhe os olhos.

No fim da ditadura, quando foi descartado pelos Estados Unidos, Pinochet fugiu para o Brasil para morar em uma mansão a convite do então ditador Fernando Henrique Cardoso.

Quanto ao nosso companheiro Arias Manzo, teve que se retirar para a França senão teria o mesmo fim. Os seus objetivos são os mesmos de todos nós, poetas do mundo. Promover a paz através da guerra aos que não querem paz. A caneta é minha arma.

AC - Tenho visto pelos seus poemas que todas as semanas me envia e eu declamo, com todo o prazer nos meus programas de poesia, desde o início deste ano, que muitos se referem a épocas determinadas da política e sociedade brasileira. Como vê o actual momento que se vive agora no seu país, a nível politico e social.

GO - Hoje, o povo brasileiro está anestesiado por telenovelas e consumismo. E o caso da coisa prática: até para votar nas eleições temos uma tal de urna eletrônica que é controlada pelo sistema capitalista e só ganha o candidato que interessa a eles.

Já foram constatadas fraudes nesse tipo de urna no Brasil e em países da América Central. Hoje no Brasil as coisas básicas que são negadas pelo governo ao povo, tem levado esse mesmo povo à criminalidade.

Veja bem. O que é mais fácil? Abrir uma microempresa e ser perseguido pelo Estado com impostos extorsivos ou vender drogas na esquina sem pagar imposto? Até os camponeses estão vendendo seus quinhões de terras e correndo para a cidade mais próxima para negociar com drogas. A sociedade brasileira foi extinta há muito tempo. A realidade aqui no Brasil é uma tristeza.

AC - E a nível internacional, com a crise económica a afetar a Europa e os Estados Unidos, e as economias emergentes, entre as quais, o Brasil, a terem crescimentos acentuados das suas economias que se reflectem no aumento do consumismo, pensa que os valores humanitários e sociais, serão substituídos pelo poder de compra de cada indivíduo?

GO - Os Estados Unidos não vão quebrar agora não. Enquanto tiver parceiros corruptos e entreguistas como os presidentes da França, Itália, Portugal e outros para dar o sangue do povo ao vampirismo americano...

Não desejo que os países do mundo se quebrem porque é o povo quem vai pagar a conta. E vai pagar com a vida enquanto presidentes de nações européias estão sendo fotografados nus em colônias de férias.

Quanto ao consumismo do povo brasileiro, isso é o resultado do aprendizado de anos a fio assistindo as novelas da TV Globo. Quando o povo não paga, nem o governo e nem as grandes industrias perdem nada. Quem perde são os pequenos comerciantes.

AC - Para terminar e porque esta conversa já vai longa, e a propósito dos recentes tumultos em Inglaterra protagonizados pelos jovens que são o futuro da humanidade, qual acha que deve ser o caminho correto para cada um realizar-se consoante as suas aspirações e sonhos, ultrapassando as dificuldades crescentes do poder económico.

GO - É como diz aquela frase: «Quem não chora, não mama.» A juventude inglesa está protestando contra os crimes do governo. Quando executaram o brasileiro Jean Charles de Meneses, o crime ficou sem punição para ninguém. Agora, dessa vez eles resolveram reagir.

Se o povo não reage (como o povo brasileiro) os corruptos acham uma estrada pavimentada para passar com o dinheiro do roubo. Se não dá nada mesmo!? Contra o poder econômico nos países capitalistas, ninguém pode. Só eles que podem tudo.

AC- Grata pelo tempo dispensado á Radio e Jornal Raizonline, e pela sua amizade, desafio-o a deixar uma mensagem a todos os ouvintes e leitores, em especial aos jovens que lutam por encontrar o caminho da realização pessoal e do futuro.

GO - Aos ouvintes e leitores, sobretudo aos jovens eu peço que nunca deixem de estudar. Se estudando já é difícil... Leiam e estudem para ter base e ser alguém amanhã. Quem não estuda está condenado a ser roubado de todas as formas.

Evitem ligações com pessoas que nada tem a ver com vocês. Evitem o uso de drogas e o vício do consumismo que também é uma droga e faz com que vocês desejem coisas que não servem para nada.

Por fim gostaria de agradecer ao Jornal e Rádio Raizonline a oportunidade desta entrevista e desejar uma boa noite para todos.

 

Entrevista conduzida por Arlete Piedade

 

 

 

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Nota da Redeacção: Esta entrevista foi também transmitida na Rádio Raizonline Domingo 21 de Agosto das 22 h às 24 horas no Programa Arlete Con:)vida. Uma versão sonora da mesma para download está disponível no seguinte link (carregar aqui s.f.f.)

Para ouvir directamente esta entrevista e mais carregue aqui s.f.f.