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Texto
sobre Florbela Espanca - Parte IX
FLORBELA E MARCO AURELIO
Por Daniel Teixeira
Pequena nota: Devo esclarecer que escrevi há cerca de 3 anos um conjunto de textos correspondendo a cerca de 400/500/600 páginas físicas (livro) não só sobre Florbela Espanca como sobre o saudosismo, o sebastianismo e o messianismo português.
Desses textos, sempre incompletos, tenho vindo a fazer repescagens e correcções, optando por colocar aqui aqueles que mais relacionados estão com o campo da literatura.
FLORBELA E MARCO AURELIO
(Continuação do escrito no número anterior - veja aqui)
Quanto a Marco Aurélio e Florbela teremos de nos socorrer de uma mais longa
citação vindo a incluir alguns aspectos que desvendam o tipo de relacionamento
directo e subjectivo de Florbela com seu irmão:
Começa assim a introdução à publicação póstuma do livro «As máscaras do
destino», publicado em 1932 e dedicado «A meu querido irmão, ao meu querido
morto»:
«Vários grãos de areia, destinados a ser queimados, espalharam-se sobre o mesmo
altar. Um caiu mais cedo, outro mais tarde; que lhes importa?» (Marco Aurélio)
A edição a que tivemos acesso, dos Pensamentos de Marco Aurélio, no seu Livro
IV, versículo 15 diz: «Vês aí numerosos grãos de incenso sobre o mesmo altar. Um
cai primeiro, o outro a seguir, nada disso tem importância.»
As diferenças encontradas na citação devem-se em grande parte ao facto de Marco
Aurélio ter escrito em grego sendo assim os seus textos objecto de várias
interpretações sobre a forma de traduzir. Contudo, na versão apresentada por
Florbela, cuja edição se desconhece, estão contidas algumas afirmações (que não
estando na outra versão que possuímos) nos levam a pensar que se tratou de um
tradutor conhecedor da filosofia estóica porquanto o termo «espalhados» no que
se refere aos grãos de incenso reflecte a «simpatia universal» estóica que Marco
Aurélio refere como sendo o «nó sagrado» que liga todas as coisas e, segundo o
qual, todos os seres concorrem para a harmonia do próprio mundo (o que se
subentende na ordenação temporal); a mistura total reflecte esta concertação
providencial de um mundo em que o homem é apenas uma parte.
O problema que se coloca neste texto de Marco Aurélio (e de acordo com a
filosofia estóica) não é o facto da sucessão no tempo (neste caso da queda de
cada um dos grãos de incenso) mas sim o facto de que ambos são para queimar e
são queimados, sendo portanto indiferente a dilação temporal.
É justo que façamos esta reflexão prévia ao desenvolvimento que a própria
Florbela Espanca faz sobre o texto de Marco Aurélio na medida em que nos parece
claro (neste seu primeiro livro em prosa) que a sua intenção, ainda que não
muito claramente declarada, é a de diluir essa temporalidade entre a morte
acontecida de Apeles e a sua própria morte. Contudo, e neste passo, acho que não
se aplica qualquer ideação suicida da parte de Florbela Espanca, mas sim de uma
interiorização da sua própria mortalidade.
Por isso, entremos no desenvolvimento que Florbela faz:
«Sobre uma pedra tumular ficaria bem esta sentença do mais poeta dos sábios, mas
nada de firme, nada de eterno se pode gravar nas ondas, e são elas a pedra do
seu túmulo.
O grão de incenso que, sobre o altar, caiu mais cedo, ardeu mais cedo; foi
apenas um grão de incenso entre o número infinito dos que hão-de cair e arder,
entre a imensidade doutros que já caíram, que já arderam; e o infinito desapego,
o desesperante abandono, a imensa renúncia do símbolo faz tombar num gesto de
resignação as minhas mãos crispadas, tapa-me a boca que quereria gritar,
abafa-me os soluços e as blasfémias na ansiosa expectativa do momento em que
outro grão de incenso há-de cair e arder…
«Um caiu mais cedo, outro mais tarde; que lhes importa?»
Importa aqui acrescentar mais alguns pontos que nos servem sempre para encontrar
pontos de convergência com as palavras de Florbela Espanca ditas neste caso em
particular mas espalhadas pela sua poesia e pela sua prosa, ainda que
consideremos abusiva uma interpretação reservada ou exclusiva do fogo visto
neste plano em Florbela.
O tema «fogo» não implica necessariamente suplício ou dor. Os elementos da
cosmologia (Física para os Estóicos), interligam-se com o próprio ser do humano
e dos outros seres, uma vez que se trata de uma visão palingenésica do todo
(múltiplo) e em que Deus e a Natureza se identificam à partida numa mesma
unidade.
O elemento fogo (que tem princípio activo na Física estóica tal como o ar)
participa em dois processos em que é elemento importante: num processo é
elemento perecível mas animado de uma perpétua transmutação e é (conjuntamente
com o ar) «donde provém em primeiro lugar tudo o que nasce e aquilo a que
finalmente tudo se reduz» e por outro lado produz uma conflagração global e
universal onde todas as coisas são transformadas em fogo.
Mas essa conflagração não trata da destruição do universo (do fim do mundo, pelo
menos de uma forma «finalizante», falando correntemente) mas sim da sua
regeneração onde tudo volta a ser alma e divinizado. Há, por consequência, um
eterno retorno dos seres e dos acontecimentos:
«Haverá de novo um Sócrates e um Platão (…) e esta restauração não se produzirá
apenas uma vez mas muitas; ou, para ser mais preciso, todas as coisas serão
restauradas eternamente». (Nemésios).
Parece-nos evidente que esta crença Estoica, por muito contestável que possa
ser, se aproxima em muito de muitas crenças que referem quer a reencarnação nas
suas diversas matizes quer a ressurreição.
Existe ainda um outro conceito do fogo, que é aquele fogo «perecível»,
destituído de qualidades artísticas, tal como é definido pelos estóicos, que é o
«nosso» corrente fogo de utilização corrente que com o outro fogo apenas parece
ter uma afinidade terminológica.
Aliás, o estoicismo tem sido analisado mais a fundo nos últimos tempos,
sobretudo após a rejeição que Nietzsche fez das doutrinas platónicas. Para este
filósofo a filosofia perdeu muito com a entrada de Sócrates / Platão em cena e
lamente este autor que, para além dele, muito pouco tenha ficado da cultura
pré-socrática (como se sabe existe uma dualidade socrática e pré-socrática em
Platão / Sócrates) e que, na sua ideia aquilo que ficou, em textos
quantitativamente e qualitativamente relevantes tenha sido preferencialmente o
Epicurismo e o Estoicismo que ele mesmo (Nietzsche) também rejeita.
Um dos últimos vultos relevantes do Estoicismo foi precisamente Marco Aurélio
que Florbela cita, embora Montaigne atrás referido tenha sido considerado como
tal (ou influenciado pelos estóicos) e mesmo posteriormente Pascal.
Contudo o que interessa para o caso é que a morte, sobretudo tão bem documentada
em Marco Aurélio, é vista com o distanciamento próprio de quem sabe que sendo
ela inevitável não é, por isso, relevante para o cúmulo das preocupações humanas
em busca do Supremo Bem ou da sua fusão noutra forma com a Natureza da qual faz
parte integrante assim como Deus ou os deuses.
Para o estóico a morte não é o fim de nada, porque para além desse nosso
imaginário «nada» as coisas continuam e repetem-se ao longo dos tempos. Foram
apontadas semelhanças entre o estoicismo e alguns aspectos da cultura religiosa
judaico-cristã apontando-se, para além de outras razões, o facto de o estoicismo
ter sido uma «religião» de elites enquanto que o cristianismo terá sido (e é)
uma religião para todos (por muito discutível que seja o seu elitismo selectivo
que aliás Kierkegaard analisa ao extremo na sua teoria da identidade).
A morte não é, nem esperada nem desejada, porque, para os estóicos tudo se passa
numa relação de necessidade harmoniosa: não existe fatalismo, no sentido
redutor, mas sim consciência de que ela tem de acontecer.
A familiaridade de Marco Aurélio com a morte é extrema e neste aspecto a relação
com o Epicurismo também existe ainda que de forma contraditada: para estes
trata-se de «viver o dia», carpe diem, para os estóicos a inevitabilidade da
morte nada apressa ou atrasa porque ela lhes é simplesmente indiferente.
A paixão, sempre tão presente em Florbela (será que está mesmo?!) é vista numa
perspectiva intelectualista…o homem pode ter paixões (e tem-nas) mas por
incapacidade ou impossibilidade de compreender a razão dominante que leva, ou
deve levar, à sabedoria que, por sua vez, é o topo da pirâmide da filosofia
estóica, uma ataraxia que se encontra presente em muitas religiões ditas
contemplativas (Budismo, por exemplo).