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Conto Infantil / Juvenil de Cremilde Vieira da Cruz (Avómi)

 

Qual é a coisa ?...

(Continuação do nº anterior - ver aqui inicio)

 

De certo todos os meninos que leram a primeira parte desta história, adivinharam que se tratava de Macaquinhos Barulhentos, aqueles animais que, com as suas brincadeiras e conversas, perturbavam o bem-estar do Rei da Selva.

Pois é, o Leão deu tantas voltas à imaginação que conseguiu recordar-se onde poderia encontrar amendoins. Porém, para chegar ao local teria que fazer uma longa caminhada! Mesmo assim, decidiu-se e andou quilómetros e quilómetros, durante dias e dias sempre a andar dia e noite.

Certa manhã, já sem forças, cheio de fome e sede, ia cambaleando pela floresta fora, tropeçando aqui, caindo acolá, dizendo mal à sua vida e à ideia que teve de fazer aquela caminhada com o propósito de arranjar amendoins que, pensava ele, fariam calar aqueles animais mal comportados. Já não aguentava mais, sobretudo a sede e não encontrava uma gota de água.

De vez em quando, se surgia uma clareira, via ao longe uma miragem e lambia-se todo, convencido que era água, mas andava, andava e não encontrava água nenhuma. Exasperado, convencido que morreria antes de chegar ao destino, foi-se arrastando. A dado momento ouviu um barulho que lhe pareceu água a correr, parou, encostou o ouvido ao chão e disse:

- Finalmente vou saciar a sede.

Tentou correr, mas não foi capaz, pelo que teve que fazer o percurso até ao rio, lentamente. Quando atingiu o local tão desejado, mais satisfeito ficou, pois além de saciar a sede, poderia consolar-se também com uma excelente refeição, dado que se encontravam ali muitos animais a beber água. Então disse de si para si:

- Ah, agora sim! Agora vou recompor-me! Tomarei um bom banho, beberei água e a seguir consolar-me-ei com a carninha de um daqueles animais.

Bebeu água, banhou-se e preparou-se para uma corrida na expectativa de alcançar um daqueles animais tão apetitosos. No entanto, apesar do esforço que fez não conseguiu dar um passo. Triste que fazia dó, reparou que todos os animais o olhavam sem o menor receio e uma raposa que o observava, exclamou:

- Que magro está, Senhor Leão! Se não estivesse a vê-lo de tão perto, não acreditaria que é o Rei da Selva.

Depois um Coelhito minúsculo passou-lhe a patinha pela juba e disse:

- Ao que chegou o Rei da Selva!... Pobre coitado, já nem força tem para apanhar um Coelhito. Deve estar mesmo doente!

O Leão não tugiu nem mugiu e já a vista lhe faltava.

Os outros animais estavam com vontade de lhe valer, mas não sabiam que fazer, porque ele não dizia o mal que tinha.

Nisto, passa-lhe uma Borboleta pela boca, consegue apanhá-la e engole-a sofregamente. Depois, um Ratito distraído foi também apanhado e zás, engoliu-o sem mastigar.

A Raposa que continuava a observá-lo, apercebeu-se que ele estava com fome e, como tinha de reserva na sua toca um bom naco de carne, foi buscá-lo e deu-o ao Leão que o comeu enquanto o diabo esfregou um olho. Ainda assim, não ficou satisfeito, porque a fome era de três dias, como se costuma dizer, mas começou a sentir alguma força nas pernas e conseguiu pôr-se de pé.

Logo que viram o Leão de pé, todos os animais menos a Raposa se puseram em debandada, receosos pela própria segurança. Era melhor não arriscar, porque um leão com fome...

A Raposa perguntou-lhe:

- Sente-se melhor, amigo Leão?

- Sinto - respondeu ele - Agora tenho menos fome, mas ainda comia outro tanto, para ficar satisfeito. O meu problema é não ter força para correr, por isso perdi a excelente oportunidade de encher a barriga.

- Como se deixou chegar a esse estado de fraqueza, é que eu não percebo, Senhor Leão!

- E simples explicar-lhe: Venho a andar há vários dias, para chegar a um sítio onde me disseram que há amendoins. Não pense que são para mim, amiga Raposa! São para uns animais que vivem perto da minha casa e não me deixam descansar, porque fazem um barulho infernal dia e noite. Disseram-me que eles gostam de amendoins e pode ser que uma grande quantidade deles os faça sossegar.

- Esses animais de que me fala são Macacos, não é verdade?

- Não sei, mas talvez sejam. Ah, pois devem ser! Olhe, amiga Raposa, só agora me fez nascer uma luz, pois não conseguia adivinhar que animais são aqueles. São mesmo Macacos!

Então a Raposa disse:

- Pois pode crer que se lhes der amendoins farão uma festa e o barulho dobrará.

- Não me diga isso, amiga Raposa! Fiz esta longa caminhada e tenho outro tanto para andar, para nada?!

- Pode ter a certeza, amigo Leão. Macacos são Macacos e são assim mesmo, por isso não há nada a fazer. Há que ter paciência!

- Sinto-me tão abatido que não sei se voltarei a ter forças para regressar a casa.

- Fique por aqui, amigo Leão. Aqui há muitos animais, mas são pacatos e, aqui para nós, que ninguém nos oiça, fazem-se boas caçadas. Também aparece um macaco ou outro, mas até é agradável, para quebrar a monotonia. Eles são tão engraçados!

- Parece-me que tem razão, amiga Raposa. O que eu quero é viver em paz. Talvez a sua sugestão seja a melhor coisa a fazer, pois junto daqueles Macacos, mesmo que eu conseguisse fazer a viagem de regresso, nunca descansaria.

Ficarei por cá, amiga Raposa.

 

Avómi

 

Leia também outro conto Juvenil / Infantil de Cremilde Vieira da Cruz aqui

Cremilde Vieira da Cruz poeta e Avómi (contos) foi lida
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