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O TEMPO; O ESCREVER DA POESIA; QUE QUERES? É PRIMAVERA!
O TEMPO
Quando voltará o tempo
a estender-se a nossos pés
como uma planície verdejante?
.
Que saudades das tardes imensas,
infinitas, em que brincávamos,
corríamos, descansávamos
e líamos, horas a fio,
esses romances que nos enchiam a alma
e que em nós se tornaram!
.
Durmo demais ou de menos?
Sou lenta ou, antes,
apressada em demasia?
Manhãs e tardes esfumam-se
na voragem do dia-a-dia…
.
Nervosamente antecipo o pôr-do-sol,
enquanto percorro este labirinto
feito de momentos compartimentados,
intercalados por corredores
apinhados de ânsias e temores,
que são o meu tempo de hoje.
.
Sonho com o regresso do tempo infindo,
em que o corpo voltará a correr livre,
como criança, e o espírito, ousado,
voará mais alto do que nunca!
.
Tanto desejo esse tempo!
Tanto planeio criar
nessa planície verdejante!
.
Caiam paredes!
Dilate-se o espaço!
Germinem sementes!
Estenda-se a nossos pés
a imensidão do tempo!
.
Ilona Bastos
O ESCREVER DA POESIA
Não sei se escrevo poesia
Ou se a poesia me escreve.
É presunção, decerto, julgar-me criadora,
Chamar poesia a estas palavras
Que debito, desajeitadas e frouxas,
Nas brancas páginas de um caderno.
Maior presunção, ainda,
Acreditar que meus actos desconexos,
Pensamentos e gestos perplexos,
Encerram em si a poesia, o motor
Gerador do meu viver.
E, contudo, a poesia existe em mim
E em meu redor. Sinto-a!
Encontro-a amiúde,
Em manhãs de sol radiante,
Em tardes de plúmbeo céu,
Em noites quentes de abóbada estrelada.
Nem sempre, é certo, a reconheço,
Nem sempre, é certo, me toca e aborda…
Não sei mesmo de onde vem,
Os caminhos que percorre,
Suas maneiras e manhas.
Dias há que a procuro em vão,
Nas esquinas e nas sombras,
Mesmo nas iluminadas avenidas
Que essa luz branca, esfuziante,
Torna nítidas e confusas,
Na confusão que tudo invade,
E cresce, se a poesia não está.
É-me estranha, é-me íntima a poesia!
Ténue, fugidia, forte, impressionante,
Dá sentido ao que sentido não tem,
Mas se a escrevo ou se me escreve,
Isso é que eu não sei bem…
Ilona Bastos
QUE QUERES? É PRIMAVERA!
Que queres tu? É Primavera!
Porque lhe vaticinas a morte, se o sol brilha
e nos enche a alma de alegria, e os pássaros,
rejubilando, nos iluminam o pensamento
com ideias de felicidade?
Porque insistes que esta bênção é passageira?
.
É Primavera, não compreendes?
Precisas que grite, para to explicar,
o milagre da Natureza?
É necessário que te prenda e te cale,
para que deixes de murmurar, amargamente,
sempiterno velho do Restelo,
«Ah, mas este bom tempo não vai durar»?
.
Não percebes?
.
Que precisamente por ser efémera
a Primavera é superiormente bela?
Que exactamente por este calor ameno, benfazejo,
ser transitório, é sumamente aconchegante?
Que a explosão de vida que nos faz renascer
reside na precariedade desta luz abençoada,
alagada pela chuva, açoitada pelo vento?
.
Cala-te, se não sabes apreciar
o magnífico dia que nos aguarda!
.
Que queres? Tudo passa, tudo muda,
e só por isso podemos permanecer
como somos.
Ilona Bastos
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