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Poesia de Cremilde Vieira da Cruz

INFORTUNIO; MENINA DAS LOIRAS TRANÇAS ; NO DORSO DO MAR
INFORTUNIO
Meus olhos tristes derramando multidões
Choram enclausurados neste canto escuro.
Não me chamem triste, porque aos serões
Nada mais me entristece nem é obscuro!
Cansam-me as vozes altas, as palavras duras,
Os tetos baixos, os labirintos, as confusões.
As luzes encandeiam-me. Amo o ar puro
Da montanha e o arvoredo em procissões.
Amo o mar e a doce madrugada,
O chilrear dos pássaros, a alvorada,
O brilho da lua estendida na estrada.
Amo as estrelas debruçadas na amurada,
Olhar para o céu deixa-me enfeitiçada,
Amo a natureza que desce a levada.
MENINA DAS LOIRAS TRANÇAS
Menina das loiras tranças,
Boneca, joinha linda,
Não te vejo de criança!
Volta atrás minha menina.
Ainda tens loiras tranças?
Lindas feições de menina?
Ainda tenho na lembrança,
Que há pouco eras criança.
Boneca?
Bons olhos a vejam,
Para assim lhe chamarem.
Joinha?
Só quem ama,
Assim pode pensar.
Linda?
Depende de quem a olhar.
.................
Abriram-se os olhos,
Pois estava a sonhar,
E logo fugi.
É que pus-me a pensar:
A menina das loiras tranças,
A que tenho na lembrança,
Vai deixar de ser menina,
Boneca, joinha linda!
Como irá ela ficar?
Ai, que susto me vai pregar!...
.............
A menina das loiras tranças,
Já deixou de ser menina!
E as tranças da menina,
Também deixaram de o ser!
Nem é loira,
Podem crer.
Ai, menina que ontem era,
Porque não permanecer?
Será que a pobre menina,
Coração continua a ter?
«Batem leve, levemente, como quem chama por mim...»
É ele!
É o coração da menina,
Que não deixou de bater!
Será que ainda o vais ouvir?
NO DORSO DO MAR
Estou por aqui,
Dizes-me às vezes,
Expressando tua vontade
De que te acompanhe.
Ficas enleado em pensamentos mórbidos,
Procurando no espaço que te rodeia,
O que procuras.
Martelam-te no cérebro,
Rumores de vozes que te inquietam,
Outras que te confundem,
Outras ainda que não queres deixar de ouvir.
Sabes que te quero,
Com o mesmo querer de sempre;
Que minha alma me dói,
Se sentes uma dor.
Meu amor não tem fronteiras,
Nem segredos,
Nem horas,
E sempre te acompanho.
Não tenho medo
De gritar o meu amor!
Nem quero cair no marasmo de esconder do sol,
O que os outros astros observam!
As vezes arrebatam-me ideias desastrosas,
Todavia ainda não são elas que me demovem,
Pois arde-me no peito
A chama que o sol me trouxe,
De tuas mãos aquecidas,
De teus braços que me enlaçam.
Quando meus pensamentos jorrando angústia,
Estremecem,
Como quando o vento passa,
E as folhas dos jacarandás se agitam,
Fico inerte,
Pois não existe espaço
Entre mim e ti!
Estou por aqui,
No dorso do mar,
Abraços de ti.
Cremilde Vieira da Cruz