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Maria
João Costa - Biografia e um Conto
Biografia
Nasci em Lisboa, num dia de Outono, dourado e chuvoso, como se querem
(ou desesperam) os avançados dias de Outubro. Parece que houve algazarra
nesse dia, porque a minha irmã mais velha completava 7 anos e exigia
saber onde estava a sua Mãe… e, assim, cheguei.
Enquanto estudei, muito li e mais sonhei. Licenciei-me em Direito, mas
mudei depois de direcção profissional, para a área dos Sistemas de
informação. Hoje, gosto de ler e de escrever, mas gosto, acima de tudo,
de viver.

Conto: Vida
A cidade ficou submersa. Não é a primeira vez na história do mundo. Mas,
dói. Percebo agora que a formação das montanhas e planícies, a definição
das linhas costeiras, são feitas à custa de toda e qualquer vida. A
Terra está viva, e impõe-se aos seus pequenos, ainda que impertinentes,
habitantes. Somos vassalos do chão que pisamos.
Tsunami, maremoto, hurricane… queremos que a Terra se acalme, pois o
céu, ora cinzento pesado, ora azul indiferente, não nos protege. Teremos
nós que olhar uns pelos outros. Isto, do terceiro milénio, não promete
ser pêra doce.
Helena estava no carro. Tinha estacionado à porta do centro comercial,
como combinado. Viu de longe o ex-marido, embaraçado com a quantidade de
papel que carregava. Saiu do carro e dirigiu-se a ele. Tantos mapas já
eram demais. Como sempre ele queria provar-lhe que era o maior
especialista naquele assunto, como aliás em qualquer outro. Contendo-se,
não querendo revelar nem a sua impaciência nem o seu arrependimento,
Helena mostrou-se razoável e agradecida. Queria despachar o assunto. Ele
mostrou saudades dela. Ela voltou para casa com o banco detrás do carro
cheio de mapas e prospectos coloridos sobre a Grécia.
Chegou a casa e deitou-se. Fechou os olhos. Que disparate, aquele
encontro. Nem sabia como surgira. Falara talvez na necessidade de uma
viagem. Mas não ia para a Grécia. Na verdade ia fazer um aborto. Apenas
isso. Apenas… A decisão tinha sido fria, tomada a frio. Depois de um
casamento de quatro anos, sem filhos, a última coisa que esperava, era
engravidar, no decurso da única noite que passara com alguém que, de
todo, não interessava. Uma solução conveniente para um problema
inconveniente. Já falara com a médica, estava tudo tratado para o dia
seguinte. Não queria agora pensar nas possibilidades de vida que tinha
dentro de si. Dentro de três dias tudo teria voltado ao normal. Temos
que agir como adultos, não? Tinha a sua vida, o seu dinheiro, podia
matar quem quisesse… Sentou-se na cama. Não queria ter pensado aquilo.
Ocorrera-lhe na modorra, mais nada…
Procurou o comando da televisão. Era melhor distrair-se. Encontrou o
comando e ligou o aparelho. Os canais estavam trocados, pôs-se a fazer
zapping, com displicência. Parou nas imagens que já conhecia mas cuja
dimensão nunca conseguiria assimilar : as ondas do tsunami derrubando
tudo à sua passagem, estoirando com os obstáculos, engolindo a vida,
saqueando, destruindo tudo… a vida… sentiu um nó na garganta, não era
aquela a distracção pela qual ansiava. Mas também, aquele não era o
destino pelo qual alguém tivesse ansiado. Muitas, muitas, muitas
vitimas. Não podia agora mudar de canal, como se o horror fosse apenas
ficção. Baixou apenas um pouco o som da televisão. O programa era
retrospectivo, o tsunami tinha ocorrido no último Dezembro, em lugares
de calor e de sonho. E, enquanto o mar tudo destruía, o céu permanecia
azul, sem avisos nem lágrimas …
Helena começou a chorar. Ficou assim durante um tempo indefinido, a
chorar deitada, molhando o cabelo, sem saber se chorava pela tragédia ou
pelo que ia fazer no dia seguinte. Chorou até que, exausta, adormeceu.
E sonhou. Não soube com o quê, mas guardou as palavras «fonte de vida». Não sabe de onde vieram, mas quando acorda já está a repeti-las baixinho... E é noite, o quarto está escuro e quente.
Pela primeira vez, Helena pensa em ter a criança. E, subitamente, a vontade exprime-se, definitiva, para não mais se calar «vou ter a criança!, vou ter a criança!»...
E os seus olhos começam a ver claramente, na escuridão.
Maria João Costa