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Desde 7 de Março de 2011
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Maria João Costa - Biografia e um Conto

 

Biografia

Nasci em Lisboa, num dia de Outono, dourado e chuvoso, como se querem (ou desesperam) os avançados dias de Outubro. Parece que houve algazarra nesse dia, porque a minha irmã mais velha completava 7 anos e exigia saber onde estava a sua Mãe… e, assim, cheguei.
Enquanto estudei, muito li e mais sonhei. Licenciei-me em Direito, mas mudei depois de direcção profissional, para a área dos Sistemas de informação. Hoje, gosto de ler e de escrever, mas gosto, acima de tudo, de viver.

Conto: Vida

 

A cidade ficou submersa. Não é a primeira vez na história do mundo. Mas, dói. Percebo agora que a formação das montanhas e planícies, a definição das linhas costeiras, são feitas à custa de toda e qualquer vida. A Terra está viva, e impõe-se aos seus pequenos, ainda que impertinentes, habitantes. Somos vassalos do chão que pisamos.
Tsunami, maremoto, hurricane… queremos que a Terra se acalme, pois o céu, ora cinzento pesado, ora azul indiferente, não nos protege. Teremos nós que olhar uns pelos outros. Isto, do terceiro milénio, não promete ser pêra doce.

Helena estava no carro. Tinha estacionado à porta do centro comercial, como combinado. Viu de longe o ex-marido, embaraçado com a quantidade de papel que carregava. Saiu do carro e dirigiu-se a ele. Tantos mapas já eram demais. Como sempre ele queria provar-lhe que era o maior especialista naquele assunto, como aliás em qualquer outro. Contendo-se, não querendo revelar nem a sua impaciência nem o seu arrependimento, Helena mostrou-se razoável e agradecida. Queria despachar o assunto. Ele mostrou saudades dela. Ela voltou para casa com o banco detrás do carro cheio de mapas e prospectos coloridos sobre a Grécia.

Chegou a casa e deitou-se. Fechou os olhos. Que disparate, aquele encontro. Nem sabia como surgira. Falara talvez na necessidade de uma viagem. Mas não ia para a Grécia. Na verdade ia fazer um aborto. Apenas isso. Apenas… A decisão tinha sido fria, tomada a frio. Depois de um casamento de quatro anos, sem filhos, a última coisa que esperava, era engravidar, no decurso da única noite que passara com alguém que, de todo, não interessava. Uma solução conveniente para um problema inconveniente. Já falara com a médica, estava tudo tratado para o dia seguinte. Não queria agora pensar nas possibilidades de vida que tinha dentro de si. Dentro de três dias tudo teria voltado ao normal. Temos que agir como adultos, não? Tinha a sua vida, o seu dinheiro, podia matar quem quisesse… Sentou-se na cama. Não queria ter pensado aquilo. Ocorrera-lhe na modorra, mais nada…

Procurou o comando da televisão. Era melhor distrair-se. Encontrou o comando e ligou o aparelho. Os canais estavam trocados, pôs-se a fazer zapping, com displicência. Parou nas imagens que já conhecia mas cuja dimensão nunca conseguiria assimilar : as ondas do tsunami derrubando tudo à sua passagem, estoirando com os obstáculos, engolindo a vida, saqueando, destruindo tudo… a vida… sentiu um nó na garganta, não era aquela a distracção pela qual ansiava. Mas também, aquele não era o destino pelo qual alguém tivesse ansiado. Muitas, muitas, muitas vitimas. Não podia agora mudar de canal, como se o horror fosse apenas ficção. Baixou apenas um pouco o som da televisão. O programa era retrospectivo, o tsunami tinha ocorrido no último Dezembro, em lugares de calor e de sonho. E, enquanto o mar tudo destruía, o céu permanecia azul, sem avisos nem lágrimas …

Helena começou a chorar. Ficou assim durante um tempo indefinido, a chorar deitada, molhando o cabelo, sem saber se chorava pela tragédia ou pelo que ia fazer no dia seguinte. Chorou até que, exausta, adormeceu.

E sonhou. Não soube com o quê, mas guardou as palavras «fonte de vida». Não sabe de onde vieram, mas quando acorda já está a repeti-las baixinho... E é noite, o quarto está escuro e quente.

Pela primeira vez, Helena pensa em ter a criança. E, subitamente, a vontade exprime-se, definitiva, para não mais se calar «vou ter a criança!, vou ter a criança!»...

E os seus olhos começam a ver claramente, na escuridão.

Maria João Costa

 

 

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Maria João Costa foi lida
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