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JORNADA CREPUSCULAR
POR: DR. MARIO MATTA E SILVA
UMA GERAÇÃO «A RASCA» COM NIVEL INTELECTUAL (1870)
Nesta minha jornada crepuscular deu-me o apetite de ir buscar um tempo politico remoto que se ergueu por força das incompatibilidades de um rotativismo partidário, muito confuso e cheio de peripécias, que abrange os anos de 1851 a 1870, e que culminou por uma activa participação da então designada Geração de 70.
Por certo, uma geração também, nesse tempo, à rasca, em busca de verdade, de estabilidade politica, económica e financeira e desejosa de mais intervenção a um nÃvel cultural superior. Vivia-se então numa monarquia constitucional, desastrosa, controversa e debilitada.
Diz, nos seus escritos de História, Oliveira Marques: «As revoluções francesa e espanhola que, em 1870 e 1873 respectivamente, levaram a República ao poder, tiveram papel de relevo no surto de uma consciência politica nacional oposta ao rotativismo cÃnico dos partidos e ao enriquecimento despreocupado da burguesia.»
E é neste ambiente de instabilidade e de insatisfação popular que em 1871, surgem as famosas Conferências do Casino, numa atitude de afrontamento às instituições e à ordem de uma certa burguesia que disputava sem pudor o poder, com desprezo pelas classes mais baixas. Assim é em pleno alvoroço de nefasta politiqueira, que vão irromper as primeiras greves de apreciável amplitude (1872) dinamizadas já por um operariado emergente.
A História não tem acasos mas sim factos, que se enquadram sempre num recheado de insatisfações sociais, que neste tempo bem mostravam a exaltação de gente explorada, envolta numa dinâmica nova, trazida por uma paz podre e uma agonia do poder real, ao mesmo tempo que se consagrava a apetência pela formação de mais partidos polÃticos (Partido Republicano 1873, Partido Socialista 1875… que se juntarão aos partidos Reformista e Progressista).
Curioso será então o Manifesto - Programa dessas mesmas Conferências, do qual passamos as transcrever alguns passos:
«Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação politica, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social. (…) Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo: o que todos os dias a Humanidade vai trabalhando deve também ser o assunto das nossas constantes meditações. Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e politica dos povos. (…) Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa; (…) Tal é o fim das conferências democráticas…»
Esta pequena abordagem do Manifesto - Programa das referidas conferências «democráticasâ€?»chegará para mostrar bem o que um punhado de homens, quase todos na altura universitários, ou saÃdos da Universidade de Coimbra, desejavam e ensaiavam, mesmo tendo sido suspensas e proibida a continuidade de tais conferências. Nada é gratuito nas intenções subjacentes a este propósito de tornar publicas estas pretensões.
Nota-se, por este texto e pelo movimento politico gerado à volta deste grupo de jovens intelectuais, que a situação que se vivia era explosiva e que a sociedade estava à mercê de uns tantos loucos que tinham adulterado aquilo que tinha sido o Fontismo de 1851.Sentia-se então, certamente, um esgotamento polÃtico o que viria a degenerar numa proliferação atabalhoada de partidos, e logo, consequentemente, de clientelas, de caciques de degradação que não mais se susteve, mesmo no pós 1910 republicano.
Ligados a esta Geração de 70 podemos ver então Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e outros, os quais nos deixaram também obra escrita de muita importância, seja em prosa ou em poesia, que hoje deverÃamos ler ou reler com entusiasmo.
Como se pode ver, trata-se de gente «à rasca» certamente, mas manifestando-se de forma bem diferente, vincando uma intelectualidade superior que hoje pouco se conhece no nosso meio politico presente, tão manchado, tão embrutecido e tão aviltante. Como é bom recorrermos à memória de um tempo histórico que nos deixou tantas lições, e fazer com ele esta jornada crepuscular.
20.03.2011
MMS