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Jornal Raizonline nº 118 de 2 de Maio de 2011

COLUNA UM

Daniel Teixeira

 

Portugueses de todas as idades à rasca

Muita gente fala de estar ou não estar à rasca; quase por sistema entramos todos à rasquinha dentro do mesmo saco - dos que estão à rasca - para ficarmos depois ou desde logo ainda mais à rasca porque somos apertados, comprimidos, oprimidos e respira-se mal lá dentro, posso garantir mesmo por experiência não própria nem por testemunho directo. Nos espaços muito povoados normalmente falta o ar...

O que raramente se fala é da invenção do termo «rasca» aplicado a este conjunto económico / social e dos eventos que deram origem ao seu aparecimento junto do público. O Ministério da Educação sempre foi um daqueles Ministérios com elevados índices de impopularidade e na altura era Ministra da Educação a conhecida economista Social Democrata Manuela Ferreira Leite que não primava e salvo erro nunca primou pelo sorriso fácil, espontâneo, pelo gargalhar silencioso e menos ainda pelo gargalhar aberto.

Por aquilo que conheço da senhora ex - Ministra da Educação poderia dizer-se com algum grau de acerto que piada dita em frente dela é piada morta. Não tenho nada contra, cada um ri o que quer e como quer: eu, por exemplo, farto-me de rir e o facto de estar à rasca como a larga maioria dos portugueses faz-me rir...

Pois bem, uns estudantes de uma Faculdade de que me não recordo terão feito uma mostra de traseiros devidamente pichelados à senhora o que assim dito é certamente chocante: o povo português por tradição não mostra o traseiro como forma de protesto: já nos EUA, por exemplo, a prática tem algumas raízes o que nos faz colocar uma questão que acho importante. Terão sido a influência cultural americana trazida via Net e por filmes e séries televisivas a responsável indirecta por isso? Estarão os nossos filhos estudantes (quando temos dinheiro para isso) devidamente protegidos contra essas influências?  Bem...é só um pequeno à parte...

Ora um senhor que se chama Vicente Jorge Silva, na altura director salvo erro do Semanário Expresso, sai-se com essa da «juventude rasca». Mas já por aí se falava à boca pequena de «jumentude». Os jovens, por sistema, têm um conflito de gerações duplo: de uma lado estão em conflito com os mais velhos e por sua vez são objecto do conflito dos mais velhos para com a juventude. É um sistema de quase parada e resposta que normalmente se queda de forma atenuada às portas da casa de cada um...

A coisa não é linear, quer dizer, não é absolutamente verdadeira, porque os nossos antepassados os primitivos resolviam a questão muito bem e de forma consensual: queres passar à idade adulta (?), queres-te juntar aos bons e seres um deles (?): pois bem...tens de fazer uma prova de maturidade e, se passares, entras aqui no clube, tens direito a fumar umas cachimbadas e se as coisas correrem bem entre a população feminina iniciada podes até casar, ter muitos filhos e ser feliz para sempre.

Ora isso acabou...

Hoje o que nos resta, a novos e menos novos é vivermos a tal prova por etapas camufladas com incidência nos diferentes campos. Por vezes ralha-se e em casa onde não há pão ou há pouco pão todos ralham e todos têm razão.

Vivemos de facto um período conturbado e perturbador: as incertezas são excessivas na sua relação com aquelas certezas que serviam de âncora. Os jovens estão desempregados e os pais também. Se era já raro ver filhos a ajudarem pais em dificuldades agora será cada vez mais raro também ver-se pais a poderem ajudar filhos em dificuldades.

O equilíbrio dentro deste desequilíbrio já nem preso por fios está...mas, como sempre digo e vou repetindo até para mim mesmo, há uma tendência natural para o equilíbrio: não andamos por cá há milhões de anos para sermos derrotados por uma crise financeira ou mesmo por uma centena delas: já passámos tantas que o nosso calejado pensamento global encontra soluções onde elas aparentemente não existem.

No saber quando e como é que reside o problema: não sejamos apressados no pensamento nem no timming do cumprimento das expectativas. Não deixemos também de fazer aquilo que tivermos de fazer...embora a história nos diga que nos vamos todos safar não está lá escrito nessa história que nos vamos safar sem fazer nada para isso ou nisso (no processo).

 

Daniel Teixeira

 

 

Daniel Teixeira foi lido
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