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PROSA E POEMAS DE MIRA

 

Por José Martins
Banguecoque : Bangkuntien : Tailândia

José Gomes Martins é natural de Arcozelo - Gouveia e nasceu em 26 de Janeiro de 1935. Colaborou em vários jornais e revistas e foi correspondente da Agência Lusa e da Tribuna de Macau. Funcionário público reformado do Ministério dos Negócios Estrangeiros reside na Tailândia há 30 anos.

 

   PROSA E POEMAS DE MIRA

Casimira Rodrigues (Mira) nasceu há 46 anos em Vila Nova de Foz Côa é a terceira filha de um casal que viria a ter mais um e quatro bocas para alimentar e educar. Família de parcos rendimentos e tradicionalmente, como tantos outros milhares que emigraram para o Brasil e ex-províncias, ultramarinas, portuguesas em �frica.

Num fim de uma tarde, em Lisboa, Mira e toda a família, partem de barco para Moçambique onde chegam passado 22 dias.

Os verdes anos de Mira não lhe teriam dado a oportunidade de compreender a expressão, do pincel, levada aos painéis de Almada Negreiros  para a tela o drama da emigração portuguesa, na Gare Marítima da Rocha do Conde de Obidos.

Criança como todas o são extasiou-se com o azul do Atlântico e do Indico; viu os peixes, voadores, aos cardumes, saltarem da água, golfinhos a seguirem a rota do paquete e, dentro dela a esperança de um dia voltar a Portugal, já uma senhora, com vestidos de outra fazenda e não a de chita que usou em Foz Côa.

Criou amizades na viagem, divertiu-se com o carnaval, dentro do paquete levado a efeito pela tripulação, de quando, na passagem da linha do Equador.

Do convés olhou a azáfama do cais onde a embarcação fazia escala e descarregava os barris de vinho, outras mercadorias para abastecerem, os mercados da Madeira, São Tomé, Angola e Lourenço Marques.

O destino da sua família era o Distrito de Manica e Sofala - Marromeu - e o Pai empregar-se na açucareira «Sena Sugar Estates».

Foi menina e moça feliz e hoje recorda com muitas saudades os grandes momentos e amizades que foi fazendo ao longo da sua juventude.

A canção «Kanimambo» de João Maria Tudela era trauteada e cantada por brancos e pretos quando Mira chegou a Moçambique. A multirracial sociedade da época também é mencionada por Mira, com a nostalgia, natural, dos que viveram na pérola do Indico.

Estudou no colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Pery, no planalto do Chimoio, dançou ao som do conjunto de «Oliveira Muge» e, para matar saudades da família, em Marromeu, ouvia a canção «Mãe» do Policarpo, guitarrista do melhor agrupamento musical de Moçambique.

Tinha também os discos da Natércia Barreto, do Zito e das «Irmãs Muges» de Lourenço Marques.

Banhou-se nas praias dos Pinheiros, do Macúti, do Régulo Luis e confraternizou com amigos, em merendas, nas matas do Savane, pouco mais além se quedava a savana onde o gado «cafre» bovino pastoreava, onde no lombo de cada rez havia um pássaro branco «carraceiro».

Mas a independência de Moçambique, após o 25 de Abril em Portugal, Mira e a família regressaram a Portugal

Ficavam-lhe para trás conforme o descreve:

«As paisagens, o pôr do sol que todos os dias era diferente. As praias com as águas límpidas e quentes, as areias que nos queimavam os pés, os sorvetes com frutos tropicais....incrível como havia tanta coisa boa. Havia pessoas de várias raças em perfeita harmonia».

E noutra passagem Mira nos leva ao drama da entrega de um país onde a bandeira portuguesa flutuava há mais de quatro séculos e meio e que já era de muita gente e não só do grupo a quem foi entregue:  

«Via os meus Pais desesperados, tristes e revoltados, os meus amigos partiam e nós íamos ficando....até que chegou o meu dia.

Foi horrivel... não queria sair daquela que tinha sido a minha terra, onde fiz muitos amigos, onde passei tantas fases da minha vida.

Já dentro do avião, olhava em redor com o rosto lavado em lágrimas, via tudo ficar para trás e, lá vinha eu sem saber para onde, com a nítida sensação que todos os meus sonhos tinham parado ali.

Tinha sido alertada para as grandes dificuldades económicas e então pensei: e o meu curso!...

A partir dali não sabia mais nada, só sabia que deixei o bom e certamente iria para o mau.

Chegada a Portugal, retornada e segregada Mira diz-nos:

«.......estava realmente num sitio desconhecido, muito feio, com muitas casas velhas, com muita gente velha vestida de preto olhavam como que desconfiadas, com ar de inveja, reparavam na maneira de vestir, na maneira de falar e até na higiene diária a que vinha habituada. Eu interrogava-me:

meu Deus onde estou eu?

Porque acordei?

Onde está o meu Paraíso?

Quem são estas pessoas?

Não quero cá ficar, vou fugir, mas nada fiz..isolada da civilização, sem luz, sem água, sem casa de banho, sem calor, sem os meus amigos, sem dinheiro e, até sem roupa, porque até isso os Portugueses nos tiraram.

Passamos muitos tormentos, atravessamos muitos obstáculos.. foi muito duro.

Tudo tinha desaparecido como uma nuvem.

A vida continua, mas com o sonho, sempre, presente».

O drama de Mira foi o de centenas de milhares de portugueses que regressarem a Portugal, em completa miséria depois da «hecatombe» e fatídica da tal (!!!!) exemplar descolonização que estigmatizou a memória, dos humildes que ainda vivem e que não cometeram nenhum crime, para o cumprimento da pena sofrida, além o de serem portugueses.

José Martins 


 

SONHO

Estava um dia lindo de verão.

Tentando fugir à rotina, aos pensamentos que não me deixavam relaxar, procurei o que realmente me tranquilizava e me fazia rejuvenescer  e sair do ênfase.

Dirigi-me a uma praia que me pareceu o lugar ideal.

O meu corpo estava quente e os músculos tensos.

Olhei o mar à minha frente na sua total serenidade, as ondas dispersas e suaves que deixavam, de regresso ao mar, pedaços de espuma, pela areia, rolando ao sabor da aragem que fizeram libertar-me de tudo tenso o meu ser trazia.

Entrei na água refresquei o meu corpo.

Mergulhei até ao fundo do mar onde os meus olhos vislumbraram o fascínio dos raios do sol que ao trespassarem a água produziam o efeito, das cores do arco - íris e bailando em cima da base da areia branca. 

Voltei à superfície e nadei igual a uma sereia.

Meu corpo começou a arrefecer e os músculos a quedarem-se aliviados.

Sentia-me bem, parecia-me que tudo aquilo, no meu redor me pertencia.

Deitei-me na areia e aí o meu olhar fixou-se na água onde uma gaivota, branca, flutuava em plena liberdade.

Instintivamente embalei-me na fantasia da minha visão e dentro dela há uma criatura que me despertou-me a atenção e por mais que tentasse desviar o pensamento do meu olhar não o conseguia.

De pronto ele correspondeu à fantasia da minha visão e, lentamente, caminhou  em direcção junto a mim. 

Olhos nos olhos!

 ... e ao aproximar-se  diz-me: compreendi-te e, quero dizer-te que és muito bela e, desejo agora convidar-te e juntos caminharmos até à esplanada do restaurante, um pouco acima  e marginada, pelo pinheiral para conversarmos e nos conhecermos  um pouco...

Sorri, levantei-me e fui com ele...

Acordes de música animada, davam-me  a sensação de estar no lugar certo.

Refrescamo-nos com uma bebida fresca e ele apercebeu-se que eu desejaria dançar... aproximou-se cada vez mais de mim, sentimos o contacto, electrizante, dos nossos corpos e beijou-me, carinhosamente, colando os seus lábios aos meus.

Suavemente estendeu as minhas mão e fomos, enlevadamente, dançar.

Que sensação ardente!

Os nossos corpos submissos, estreitamente ligados deram-me a deliciosa sensação que levou o meu frágil coração a pulsar com ritmo mais acelerado... ele beija-me, beija-me...ininterruptamente e foram  estes os beijos mais deliciosos que jamais havia experimentado. 

Beijos delirantes e apaixonantes!

Os da minha vida que nunca serão esquecidos.

Senti um baque forte no meu coração que estremeceu a minha mente.

Abri os olhos e acordei e tudo havido  sido um sonho.

Ainda estremunhada, olhei à minha volta e descobri um bilhetinho, em cima da minha cama, com uma mensagem que dizia:

Ele será o amor da tua vida, aquele que tanto esperaste.

Ele vai voltar, beijar-te e dizer-te que te ama muito.

Aguarda!

Mira

 

 

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José Martins - Banguecoque
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