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Desde 7 de Março de 2011
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Crónicas e ficções soltas
Alcoutim - Recordações VI

Por Daniel Teixeira
Alcoutim a crença e a realidade
Saber se Alcoutim como Concelho desaparece ou continua eis a questão.
O amigo José Varzeano na sua última introdução ao meu texto aqui publicado em número anterior (Pode ver este texto na sua versão anterior carregando aqui) tece algumas considerações sobre esse mesmo texto no seu Blogue Alcoutim Livre (Ver aqui).
Sobre essas considerações gostava de ter escrito mais e melhor mas como digo no final deste texto as coisas, todas as coisas, têm tantos desdobramentos que por vezes e por questões de economia da paciência dos leitores é melhor mantê-las em níveis de desenvolvimento que possam ser aceitáveis por essa mesma paciência dos leitores.
Pequena nota (do José Varzeano) misturada com alguns comentários meus
«Desta vez a «Pequena nota» vem no fim depois de ler atentamente as opiniões
alicerçadas em estudo do Amigo Daniel Teixeira.
Ainda que ele possa ter toda a razão do Mundo continuo a pensar não por qualquer
estudo que tenha feito ou consultado sobre o assunto, talvez por algum
conhecimento que tenha sobre as mexidas administrativas ocorridas ao longo dos
anos ou talvez por alguma sensibilidade e aqui não incluo nada de
sentimentalismos.
Enquanto por cá andar, Alcoutim continua a ser o mesmo com os seus defeitos e
virtudes.
Eu já não vou ver as alterações político-administrativas que um dia terão
lugar.»
Será preciso ter em atenção aqui que Alcoutim será sempre Alcoutim seja ou não
sede de Concelho. É evidente que existe alguma diferença (entre Freguesia e
Concelho) mas teremos que relativizar também as coisas e sobretudo procurar
saber se um dado título (ou nome) faz de uma terra uma coisa melhor ou pior do
que aquilo que ela é.
Loulé, como Cidade, por exemplo, tem 20 anos e é sede de um dos maiores
Concelhos do País e o facto de ser chamada de Vila em nada a terá afectado.
Havia mesmo quem afirmasse entre os políticos locais que preferia «ter» uma Vila
grande do que uma Cidade pequena.
Com uma população rondando a mesma de Faro (Capital do Distrito de Faro) é um
caso bastante sue generis da alegada descentralização administrativa: tem nada
menos de 11 Freguesias contra 6 de Faro e se bem me lembro uma parte substancial
delas (destas Freguesias em Loulé) foi criada para contrabalançar os poderes no
seio da Assembleia Municipal.
Como se sabe os Presidentes de Junta de Freguesia têm assento por inerência na
Assembleia Municipal e direito igual a voto como os eleitos directamente para a
mesma Assembleia Municipal.
Faro por sua vez tinha (e tem) uma Freguesia que abarcava - se estou em erro é
de aproximação - quase 50% da população farense (a Freguesia da Sé) e houve
bastante dificuldade em implantar nos últimos anos a Freguesia do Montenegro
retirando território e população à Freguesia da Sé, ainda o Aeroporto e todas a
estruturas interligadas nomeadamente os contribuintes das Rent a Car e mesmo os
da zona Industrial do Montenegro.
Por sua vez a Freguesia da Sé tem um aspecto que se aproxima daquilo que tenho
falado sobre a importância (e a perca dela) das ligações e afinidades
administrativas obtidas por via fluvial e / ou marítima.
A ilha da Culatra, situada em plena Ria Formosa, prolonga-se para o lado
esquerdo de Faro e a sua ponta esquerda fica sensivelmente em frente a Olhão.
Nesse mesmo extremo situa-se a povoação da Culatra. Há a ilha e a povoação com
esse mesmo nome chamando-se tanto a esta como às outras pontas de embarque /
desembarque de «Ilhas» quando na verdade são apenas cais de embarque /
desembarque de uma mesma ponta dunar.
Ora se a chamada «ilha do Farol», por exemplo, situada à entrada do porto de
Faro não oferece dúvidas quanto à sua pertença geográfica e afinidade com a
Cidade de Faro e a Freguesia da Sé dado que o cais e respectivas estruturas
portuárias se situam no Bom João - de Baixo, o mesmo já não acontece com a
povoação da Culatra que está em termos de afinidade e proximidade mais próxima
de Olhão e do Cais de Olhão.
Uma outra ilha, a da Armona, toda ela incorporada no Concelho de Olhão divide-se
no entanto por duas Freguesias (Quelfes e Fuzeta). O que pretendo dizer com esta
parte é que se não houvesse a necessidade de haver divisão concelhia entre Faro
e Olhão para colocação dos habitantes da Ilha da Culatra nas suas devidas
afinidades de proximidade e afectivo/ familiar o «problema» estaria resolvido
(talvez) através da distribuição das Freguesias.
Ora, qual é a ligação desta parte com Alcoutim e sua possível fusão com Castro
Marim como digo eu ou com Vila Real de Sto António como defende o José Varzeano?
É que a afinidade terrestre é duradoura enquanto que a fluvial ou marítima é
sempre fluida.
Lendo-se um pouco a história da estrutura portuária em Portugal vê-se com
bastante facilidade e sentido de coerência que ela se aproxima da linha da costa
(e dos estuários
favoráveis) ao longo dos anos (séculos mesmo) e isto seguindo em linha directa o
aumento do calado dos navios que por sua vez seguia o incremento do comércio e
das trocas inter - territoriais.
Neste aspecto concreto confirma-se uma situação de semelhança ainda que em
sentido inverso e também em forma de espelho reflectindo: enquanto que a Mina de
S. Domingos por exemplo reforçava a ligação Alcoutim / Vila Real de Sto António
dada o seu poder de atracção no caso da Ilha da Culatra o desenvolvimento maior
da povoação da Culatra (e deperecimento relativo do povoamento na ponta direita
em frente a Faro / Freguesia da Sé) faz pender a balança administrativa da Ilha
da Culatra para a Concelho de Olhão. Aliás, a Capela da Culatra tem missa
ministrada por um pároco da paróquia de Olhão e neste ponto como em muitos
outros é de boa e certeira política «seguir os padres».
A Vigararia de Tavira, que abrange os Concelhos que temos vindo a referir
(Alcoutim, Castro Marim, Vila Real de Sto António) e Tavira ela mesma tem no seu
conjunto 18 Paróquias, das quais 5 se encontram no Concelho de Alcoutim, 4 são
de Castro Marim, 7 de Tavira sendo as restantes 2 de Vila Real Sto António
(Concelho). Por ordem e se não tivéssemos em conta a dispersarão territorial e
contássemos exclusivamente com a população, teríamos em numero de
paróquias Tavira, Vila Real de Sto António, Castro Marim e Alcoutim. Se fosse
dado o mesmo rácio aproximado a Tavira (que tem já Cachopo fora da zona urbana e
semi - urbana) daria uma paróquia a Alcoutim, duas a Castro Marim, cinco a Vila
Real de Sto António e sete a Tavira se não quiséssemos arriscar «tirar-lhe»
Cachopo...
«Os políticos, desde a Reforma de Mouzinho da Silveira, têm-se limitado a um ou
outro remendo aqui e ali. Poucos têm sido os concelhos criados, mesmo depois do
25 de Abril.
O que se vê constantemente é a elevação de aldeias a vilas e de vilas a cidades.
Algumas eram boas vilas e transformaram-se em fracas cidades, mas o povo (algum)
gosta disto e os políticos vão apoiando estas acções, ficando as importantes
para trás.
E o assunto é de tal maneira que algumas cidades funcionam administrativamente
como se fossem aldeias e isto não deixa de ser caricato. Não é preciso dar
exemplos pois todos os conhecemos.»
Sobre este ponto o amigo Zé Varzeano faz uma observação que é importante: as
reformas de Mouzinho da Silveira mantêm-se desde há sensivelmente 180 anos
porque nunca se mexeu de facto na estrutura administrativa vinda da Monarquia.
Não que isto seja uma critica ou uma afirmação menos elogiosa para os
monárquicos mas talvez seja a constatação simples de que as coisas, em termos
administrativos, estavam relativamente bem feitas ou que as possibilidades de
alteração do actual satus quo têm de partir de outras premissas.
O liberalismo, através da famosa Carta Constitucional, e neste aspecto, grosso
modo, através de Mouzinho da Silveira e outros seguidores, mais não fez de
substancial do que mudar o nome às coisas, de uma forma geral, distribuindo os
poderes (isso sim) segundo uma óptica liberal : penso que seja exagerado
dizer-se apenas que lá onde havia distribuição por Províncias e Comarcas passou
a haver distribuição por Províncias, Comarcas e Concelhos mas também me parece
bastante no plano geral das definições.
Apenas a meu ver a introdução dos Concelhos (não em termos territoriais porque
já estavam desenhados em grosso de forma quase natural) mas em termos do
exercício do poder acabou por trazer algum resultado visível muitos anos depois
pois estes foram minando de baixo para cima o exercício do poder central ou
delegado. O que não impede que os actuais Concelhos se agarrem aos Foros
(régios) como Camões aos Lusíadas após o naufrágio.
Já num período posterior da reforma administrativa se tenta corrigir alguns
exageros e se procede à extinção de um grande número de concelhos mais pequenos,
sendo no seu lugar criada a freguesia como subdivisão administrativa do
concelho, chefiada por um comissário de paróquia - representante do provedor do
Concelho - assistido por uma junta de paróquia.
Ou seja, e para o que interessa aqui, a Freguesia aparece como alternativa à
desconstrução de Concelhos e não me parece que tenha sido descoberta outra
alternativa para esta agora necessidade e antes relativo erro se bem que esse
erro de enquadrasse na desmontagem da estrutura de poder da monarquia absoluta.
«Eu sei que é necessário o cumprimento de vários parâmetros para a obtenção desses títulos honoríficos e certamente que Alcoutim e mais algumas sedes de concelho do pais, se fosse hoje, nunca seriam vilas, mas a verdade é que o são de pleno direito e que não vai ser fácil a algumas deixar de o ser devido a situações muito específicas que forçosamente têm de entrar em consideração, constituindo assim excepções à regra e como o povo bem diz, não há regra sem excepção.»
Neste ponto o José Varzeano toca num aspecto que já ventilei acima, a questão
dos foros e do título honorífico: ora um Concelho com as respectivas estruturas
é um organismo político administrativo e de acordo com a sua dimensão é tanto
mais administrativo e menos político nesta linha do quanto menor for ou menor
importância económica e social tiver.
Se toda a estrutura administrativa portuguesa tivesse como problema visível
Alcoutim e a sua passagem ou não a Freguesia poderíamos ficar descansados porque
havia margem de sobra para a manutenção da situação, mesmo que por respeito
exclusivo à honra concedida (nos Forais novos de D. Manuel embora não seja
referida qualquer polémica é pelo menos estranho que o Concelho de Alcoutim
tenha visto atrasado de cerca de 20 anos a revalidação manuelina em relação com
os outros foros do Algarve).
«Por outro lado, a aldeia de Martim Longo ainda não obteve a categoria de vila
possivelmente por não possuir os parâmetros exigidos.
O que acontece é que as pequenas e pobres vilas sede de concelho espalhadas pelo
país não querem perder essa condição mas em contrapartida os concelhos ricos e
de áreas incomparavelmente inferiores não têm o mínimo de interesse em anexar
esses concelhos onde não se cria riqueza, obrigando as novas autarquias a uma
divisão dos seus rendimentos.»
É evidente que este problema se coloca mas também se coloca um outro em sentido inverso que é o do classificação das autarquias para efeitos de mandatos (com 15 mil votantes Vila Real de Sto António distribui 7 mandatos, com 6.000 votantes Castro Marim distribui 5 mandatos e com 3.000 votantes Alcoutim distribui igualmente 5 mandatos).
«Os políticos parece que começaram a mexer nas juntas de freguesia, órgãos de
uma importância relativa e que não vai influir muito na vida dos cidadãos mas
mesmo assim a divergência entre os grandes partidos e os pequenos já é notória.
Eu penso que quando os políticos forem obrigados e mexer na Administração, a
modificação tem de ser muito acentuada e possivelmente com órgãos autárquicos de
dimensões e funções diferentes das actuais, talvez próximo do que acontece em
Espanha.
Continuo convicto que se o concelho de Alcoutim vier a ser extinto e isso não me
choca, a anexação será a Vila Real de Santo António juntamente com Castro Marim.
Não fazem os três actuais concelhos parte da mesma Comarca com sede em Vila
Real?
Por outro lado, a tendência fiscal é para a concentração e a informática é uma
poderosa arma que poderá resolver as mais diferentes tarefas à distância (e já
resolve muitas). Quando saber informática na área da utilização significar o
mesmo que significou no passado o saber ler e escrever tudo muda de
figura.
Caro Daniel Teixeira é bom termos opiniões diferentes e este espaço ALCOUTIM
LIVRE foi criado mesmo para isso e está aberto a quem as quiser debater, como
nós fazemos.
Um abraço.
JV
Publicado por José Varzeano»
Deixo em branco algumas respostas que não são tentativas de polémica, diga-se
desde logo, porque esta questão e estas questões requerem bastante mais tempo e
estudo do que aquele que tenho disponível neste momento.
Quero no entanto agradecer ao José Varzeano a possibilidade que me traz de fazer
algumas dissertações, algumas não muito fundamentadas com documentação de apoio
e praticamente referidas de cabeça com acertos de confirmação nalguns pontos,
mas como já devo ter referido a minha ligação a Alcoutim e mais concretamente ao
«meu» Monte de Alcaria Alta tem estado sempre presente de várias formas.
Na verdade Alcaria Alta sentia-se, na minha opinião, mais próxima de Martinlongo
não só pela mais curta distância que separava o Monte e a Aldeia mas também pelo
facto de os meios de transporte colectivos utilizados estarem estacionados em
Martinlongo e não me parece que essa situação se tenha alterado no plano dos
sentimentos senão pelo facto de não haver em Alcaria Alta já gente.
Isto para dizer que realmente as questões são polémicas e com valores quase
ancestrais entranhados e que mexer no tecido administrativo do país é trabalho que se torna complicado: o próprio
Marcelo Caetano, que tinha incluído sumariamente o Algarve na Região Sul foi
forçado a dar a «independência» ao Algarve...