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EDIÇAO Nº105 , 5º NUMERO  DE JANEIRO DE 2011   COMENTARIOS GERAIS               

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FEEDS


 

Futebol Devoção

 

Por Abilio Pacheco

 

Política, futebol e religião não se discutem. Não se discutem!? Claro que sim. Só não é preciso brigar, tomar ar, ir as vias de fato… Mas um bom debate, por que não? Talvez sempre se diga isso desses três aspectos importantes de nossa vida social por causa do espaço que eles ocupam em nossos afetos ou por eles terem algo mais em comum.

Não consigo ver que religião abarque características do futebol ou da política, nem que política abarque rasgos próprios da religião e do futebol. Mas este sim, está cada vez mais próximo da política e mais ainda da religião. Não é à toa que termos como fiel, devoção, ídolo e outros do mesmo campo semântico costumem se apresentar em discursos do futebol. Em outro país da nossa AL, tem jogador sendo chamado de deus, existe igreja (igreja?), culto e muitos, muitos fiéis.

Uma prática comum no futebol moderno, a apresentação de um jogador recém contratado, é um dos ritos obrigatórios. Afinal, a chegada do craque faz aflorar verdadeiros e arraigados sentimentos messiânicos. Por isso, não deve ser novidade ao leitor as notícias de desfile em carro de bombeiros ou mesmo a formalização da chegada num encontro com a torcida com o jogador sendo alocado num palco montado na arquibancada em evento para 20 mil fiéis, fãs, torcedores…

Agora, dá cá esta palha!, vender tijolinho personalizado para arrecadar fundos para um centro de treinamento, isto sim, é uma novidade. Embora não seja muito distante de recursos próprios a algumas neo-pentecostais, no futebol ainda não tinha visto nada parecido. Sempre achei esse procedimento muito semelhante ao antigo caderninho de assinaturas (existe ainda?). Só que ampliado, amplificado, atribuindo ao assinante (ou comprador do tijolinho) mais benefícios devido ao valor agregado e praticamente invertendo a relação necessitado-benfeitor.

Afinal, não é o time que está precisando de você para a construção do CT ou coisa que o valha, mas você que está tendo o «privilégio» de participar do projeto (que só não é exclusivo, por estar sendo transmitido para todos os televisores ligados possíveis, mais internet) ou ainda, não é que o time (importante, não sei quantas vezes campeão) esteja precisando, ele apenas está sendo complacente com seus torcedores a ponto de oferecer esta possibilidade (por sinal um recurso de marketing bastante comum).

Não, não recrimino quem compre. Fiz apenas um pequeno exercício nesta crônica. Eu mesmo, só não vou pedir um tijolinho para mim, porque não é o meu time que está vendendo. Ora, nisso o futebol apresenta um grande diferencial: enquanto a mudança de denominação é quase uma constante no Brasil (quem sabe devido à criação de tantas novas igrejas) e a fidelidade partidária não segura político numa legenda nem à base de lei, no futebol cada um torce por seu time até morrer.

Belém, 19 de janeiro de 2011.

Abilio Pacheco, professor, escritor

 

Abilio Pacheco foi lido
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