Pagª 23 - EDIÇAO NºXXI , IIIº NUMERO DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Poemas de Laila Murad

Declaração de Amor
Eu te amo no silêncio do meu coração,
No aconchego de meu abraço,
No sussurro das minhas palavras
murmuradas com amor e ternura
ao pé do teu ouvido
No beijo suave e carinhoso
que busca resposta
nos teus doces lábios,
numa singela e cálida ventura...
Eu te amo também
quando meu corpo busca o teu,
transpirando desejo, buscando consonância
neste amor feito de sonho e irrealidade.
pois sabemos o que queremos
e que nos convém.
Eu te amo ainda
no calmo enlevo do amor saciado
buscando um beijo roubado
e uma doce carícia
suave e sempre
bem-vinda!
Amor de Rouxinol
Notívago viajante perdido nas brumas da madrugada
Que segue, calmo e audaz, a insinuação da alvorada,
Pressentida nas cores quentes que tingem o firmamento,
Com suas nuances avermelhadas, que brotam irisadas,
Nascidas do pincel de um artista caprichoso, sem igual...
Cruze o firmamento com seu voo certeiro para ver sua amada
Que, paciente, olha para cima, descortinando o imenso céu
E pressente, ansiosa, a aproximação de seu belo rouxinol.
Ela sabe que ele chega à terra com o primeiro raio de sol.
Sua estada é êfemera, trocam beijos fugazes e silentes,`
Seu amor é ardente, apaixonado, infinito
Às primeiras estrelas ele se vai...
...para voltar no próximo arrebol
Mulher (Acróstico)
MULHER
M agia sensual e feminina envolta em graça e ilusão
U niverso de beleza, doçura e terno encantamento...
L eveza nos gestos, palavras, olhar de pura emoção,
H eroína e escrava, senhora altaneira é toda afeição
E nlevo de amor , hino de esperança entoa no coração
R elicário de ternura guarda da vida, um embrião!
Amor Sensual II
Venha, meu doce e desejado amor
Beija-me com a ânsia da paixão
Prenda-me na cadeia de seus braços,
Desliza suas mãos pelo meu pescoço,
Descendo-as pelos meus ombros
E a seguir pegando meus seios
Frutas plenas de seiva, maduras
E instilando neles vai, suavemente,
O mágico mistério do desejo.
Suas mãos continuam,
Em incontáveis toques e carícias
Despertando no meu corpo de mulher
De um amor tão nosso, as delícias
Nossos corpos desfrutam as sensações
Que eclodem em nossos corações,
Num mundo tão novo, repleto de emoções.
Os graus da poesia lírica em Fernando Pessoa
Por:
Daniel Teixeira
Comentários de Daniel Teixeira baseados em Fernando Pessoa, Páginas de Estética, Teoria e Crítica Literária - Sobre a Poesia -1- Os graus da Poesia Lírica - Junho de 1930.
Para além de se saber aqui, neste texto, que não temos visto muito referido,
quais são as bases teóricas e muito subjectivas do lançamento dos heterónimos
pessoanos, cuja nota se pode ver na suas últimas frases sobre o quarto grau da
poesia lírica pessoana que referimos aqui em seguida: «O quarto grau da poesia
lírica é aquele, muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda mas
igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização.» ficamos ainda a saber
que Fernando Pessoa tinha uma ideia muito especifica sobre aquilo que era a
poesia e aquilo que poderiam ser os poetas.
O poeta como fingidor (aquele que faz seu o que os outros - e ele mesmo -
sentem) é o corolário lógico do seu pensamento sobre esta matéria, processo de
reconhecimento dos outros esse que se verifica através de uma
«despersonalização» de elevado grau, nas palavras de Pessoa, mas que tem algumas
conotações com a «viagem fora do corpo» largamente conhecida.
O poeta, como artista, passa a ser poeta e artista de teatro, que absorve de tal
forma as personagens que desempenha que acaba por se identificar com elas.
O poeta não é, pois, só um fingidor mas também um burlão (parafraseando Tirso de
Molina) porque finge conscientemente ou com consciência disso, sem que contudo
se lhe possa apontar qualquer transgressão ética: é assim e nada mais.
Este aspecto é bastante interessante para análise da personalidade de Fernando
Pessoa e para a questão dos heterónimos pessoanos que e ao que parece percorrerá
ainda mais um século, pelo menos.
O elogio de Pessoa é o elogio da diversidade, agrupada esta num dado número de
características que se encontram a nível do intelecto, ou seja, fora do campo da
sensibilidade e do campo do homem / poeta como ser natural.
Não se trata pois de ter apenas uma relação profunda consigo mesmo, mas também
de desdobrar o seu eu em vários eus que se reencontram num plano ideal onde
fazem a unidade num eu composto por vários eus.
Trata-se, por palavras diversas, de defender a unidade do eu dando-lhe uma outra
definição, ou em termos qualitativos correntes um outro patamar, pois que da
soma das partes se obtém o todo e que o todo é soma das partes e cada parte
contribui, com a sua parte, para a construção do todo.
Mesmo que se admita, como se pode muito bem admitir, que o todo construído se
eleve acima das suas partes e que em termos qualitativos dê o chamado salto ao
ponto de não mais ter relação com as suas partes constituintes ele nunca se
demonstra, neste caso, através da manifestação das partes uma vez que com elas
já não têm contacto ou que delas se separou.
Quer dizer, e esclarecendo melhor,
sobe-se esta escada (da soma das personalidades) mas não se pode descê-la, neste
processo.
Assim, a entidade resultante, o conceito, o ser uno e identificável, será uma
entidade distinta que não pode :«tender a definir para essa entidade uma
entidade fictícia que sinta sinceramente (...) a entidade ( o eu ) de outros eus»
mas será sim uma entidade que se sente como tal no seu todo, sem necessitar de
especificações outras porque se constituiu como uma entidade.
Aliás, se o fizer, ou seja, se se especificar na sua constituição está a fazer
entrar pela janela aquilo que tentou expulsar pela porta. Tão simples quanto
isso...ou é, ou não é. Por isso o fingimento continua a ser fingimento, mais
sentido, incorporado, intelectualizado, como diz Pessoa, mas é e será sempre um
fingimento, uma máscara, uma persona personificada.
As concepções de Pessoa sobre os graus da poesia e dos poetas colocariam os
poetas intimistas ou biográficos pelo facto de sentirem sinceramente,
provavelmente logo nas duas escalas mais básicas da construção Pessoana ou no
seu último e mais elevado grau da escala pessoana.
Tudo trataria e dependeria de se saber, hoje, se o poeta se incorporou como
personagem ou se se incorporou na sua poesia como entidade substancial, quer
dizer, se o poeta fez do ser poeta e da sua poesia a sua vida ou se antes fez da
sua vida a sua poesia.
Matéria esta que pode não ser nem muito pacífica nem muito (ou nada) objectivável uma vez que nem sequer os campos estão diferenciados metricamente.