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Pagª 19 - EDIÇAO NºXXI , IIIº NUMERO  DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.           



Coluna


     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Já e ainda

 

Festas Juninas

Transcorrendo o mês de festas juninas, algo dentro do meu peito caipira fica chocado. Deturparam a imagem de um caipira numa festa junina. Nas grandes cidades, pintar a cara como palhaço ou se vestir com mau gosto é sinônimo de caipirismo: Explode coração!.

Bem, ouvindo as bombinhas espocando na periferia onde moro, pude na minha imaginação, voltar ao meu tempo de infância, quando vivenciava a ansiedade com que era aguardado o mês das festas de São João, São Pedro e Santo Antonio. As noites ficavam tão bonitas que a gente tinha pena que acabasse. Muitas fogueiras eram acesas logo que a noite envolvia a Terra; sendo possível uma ou duas horas após, encontrar-se batatas, mandiocas, carás, milho verde e pinhões assados nos braseiros das fogueiras.

Alguns ainda abriam um buraco no local onde se faria a fogueira, para enterrar ali uma «moranga», abóbora de gomos, na qual fazia-se uma janela na região do caule, retiravam-se todas as sementes e lá dentro eram colocados queijos meia cura e várias rapaduras. Essa parte no entanto era reservada só para o dono da casa, que comia a iguaria com a família; longe dos olhares gulosos, no dia seguinte, quando a retirava dos borralhos da fogueira. As fogueiras eram muito grandes; tanto que acho que havia até uma certa disputa para ver quem faria uma fogueira maior. E havia um cidadão que era «tirador de terços».

Os «terços» eram rezados de casa em casa, e ao final, sob o espocar dos rojões, levantava-se uma caixinha retangular na ponta de um mastro com as figuras coloridas dos santos dos dias, com um detalhe: no buraco onde se fixava o mastro eram colocados arroz, feijão, farinha, pó de café, ovos e etc.; -era para que nunca faltassem na casa de devotos tão fervorosos. Após o levantamento do mastro, os donos das casas ofereciam bebidas de época: para os homens e rapazes quentão e anizete, às vezes uma cachaça ou um vinho quinado, para as mulheres e crianças: chocolate, chá de cravo ou café, e bolo de fubá, é claro.

Nessas festas se envolviam todos os moradores da fazenda; e muito mais os jovens que procuravam falar com as moças que acompanhavam o cortejo do terço; pois após uma casa, iam a outra, e assim por diante. E os jovens aproveitavam porque em dias comuns os matutos tinham suas filhas ao alcance dos olhos, e eram muito durões para com os possíveis pretendentes.

E haviam os costumes de enfiar-se uma faca numa bananeira na noite de São João, e no dia seguinte poder-se-ia ver as iniciais dos príncipes encantados gravados nas lâminas. E as moças casadoiras se dedicavam a isto com muita fé; ou ainda, punham-se a pingar as lágrimas de uma vela numa bacia d'água, na noite de Santo Antonio, sendo que, se houvesse fé, no dia seguinte apareceria o rosto do bem-amado refletido na água pelos pingos da vela.

Porém, uma das coisas às quais assisti e de fato não pude esquecer, foi que numa noite de São João, cinco ou seis homens descalços atravessaram o braseiro de uma fogueira sem que lhes queimassem os pés. Impressionado perguntei, naquele tempo:

- Não dói? ; ao que um senhor respondeu: - não, só faz cócegas, mas precisa de se ter muita fé, senão o fogo queima.

Não sei se o fato era que São João queria agradar aos seus ardentes fãs, ou se de fato a fé remove montanhas. Quando me pediram neste dia para que tentasse atravessar o fogo, eu não o quis.

-Ainda hoje eu não teria coragem, pois se era fé de que se precisava para que os pés não se queimassem, se eu botasse os pés nas brasas, fatalmente seria queimado; é que a minha falta de fé é um caso sério.

 

Coluna de Rosa Pena

Memória de meus putos alegrinhos

Alice conheceu-o na praia num verão em que foi para Floripa. Tinha vinte e poucos aninhos.

— Que fôlego, que corpo e que bom humor José Augusto tinha, a qualquer a hora do dia ou da noite. O inevitável que uma mulher caliente não evita (nem a Perón) aconteceu. Eu nunca disse como o Chico na canção dele que «Deus dará!»

Na dúvida ô nega, dei foi logo! Jurei na época que a Ilha era realmente da magia, pois só em delírios encontraria um Romeu que não se satisfazia jamais, pedia bis, bis, bis! Um touro. Olé! Que alegria o Guto, como ele gostava se ser chamado de dia, a noite preferia Zé, me trazia.

Quase um mês de gozo dobrado. Ai! Maldito comprimido de Arcalion que seu doutor mandou pra melhorar minha astenia física, minha perda psíquica e intelectual; tão maldito quanto o acidente com a moto do Guto ou Zé, acidente sério com direito a foto na primeira página do jornal local.

Se não fosse esse desastre eu jamais saberia de seu irmão gêmeo, o Luiz ou vice-versa. Quando olhei bem o retrato no matutino da ilha, reparei na mínima diferença da boca. Ah! Beijei muito, mais ainda, eu me acabei nas duas! Funesta ética que me fez bancar a traída e falar que não aceitava a tal sacanagem de revezamento dos dois putos.

Quanta estupidez, tanta que só tem uma maior que essa. Eu ter me casado com Orlando. Não dá no couro e pra piorar é filho único. Podia ter um irmão qualquer, unzinho perdido no mundo, mas não, sempre foi egoísta, além de ter nascido brocha, de prego curto, curtíssimo.

Olha a bula do Arcalion. É pra memória ou pra libido?

Que tesão sem solução doutor Roberto Freire!


Mulher

Cansei de ser sensata,
comedida, controlada.
Que seja só por um dia,
quero ser a personagem de um thriller!
Vontade de infringir!
Fugir!
Sentir frenesi!
Quero hoje me lançar...
Amanhã, ora amanhã!
Volto pras prendas do lar.

 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

Tivesse, o ser humano, maior consciência do tempo, haveria, certamente, de enlouquecer com mais rapidez. Na fantasia, na invenção que fazemos das coisas – tentando tornar absoluto tudo o que é relativo – tempo e espaço são perturbadores.

Há uma imagem que incomoda: a roda girando, girando e o homem, imobilizado no eixo e no centro dela, vendo tudo passar. Como se, em cada estação do ano, a vida se fosse escoando. Parece-me – mas não sei – ser de Agostinho a definição do tempo como «imagem móvel da imóvel eternidade».

O tempo passa, roda, gira diante do eterno que não se movimenta. E o homem prisioneiro disso. Essa consciência enlouquece, na revelação da nudez e da impotência humanas diante da eternidade. Ou pode pacificar, se o homem acreditar-se eterno também. Talvez, por isso, tenhamos inventado o relógio, algo para medir o tempo.

Que, na verdade, não resolveu nada. Relativizar o absoluto complica ainda mais as coisas. Um minuto pode ser uma eternidade para alguns e, ao inverso, o que pareceu ter a dimensão da eternidade não passou, para alguns, de um simples segundo. Assim, também, com o espaço: mil metros são uma longa marcha para quem caminha pé; e um suspiro, quando se está num avião.

Aconteceu conosco, dois amigos. Não nos víamos há muitos anos. Ele me disse que há 20 anos. «Já?», perguntei, espantado com o que me pareceu uma tão rápida passagem do tempo. E, então, perguntei-lhe da mulher, se continuavam após aqueles 20 anos. E ele me respondeu: «Ainda!», como se aqueles anos – que pensei tivessem passado tão rapidamente – estivessem, para ele, arrastando-se, alongando-se. «Já» e «ainda», pois, ora podem nos dizer do agora, do momento presente, como daquilo que se foi ou daquilo que poderá ser.

Diante dos anos que se passam, podemos ficar perplexos ao descobrir que «já» se foram tantas décadas. Para, logo em seguida, perceber que coisas desses tempos «ainda» continuam como eram. Descobrindo que quase nada mudou, «já» me sinto vencido pelas tantas lutas que não deram certo. Ao mesmo tempo, porém, eis que «já» me desperto em novas esperanças. Pois «já» sabendo que aquilo acabou, eis que, também, «já» sinto que tudo poderá recomeçar. E isso eu sei «já», agora. Numa única palavra – «já» – misturam-se, pois, em mim, presente, passado e futuro.

«Ainda» agora, percebo que mentiras de políticos «ainda» continuam e que «ainda» continuarão. Desde minha criancice, políticos «ainda» e «já» mentiam. E, daqui a 20 anos, se eu «ainda» estiver vivo, políticos «ainda» continuarão mentindo.

«Já» mentem, poderão mentir «ainda» mais. «Ainda» mentem, mas houve políticos que «já» mentiram mais «ainda». «Ainda» agora mentem, como «ainda» ontem mentiram, como «ainda» amanhã haverão de mentir. «Já» mentem hoje, «já» mentiram ontem e «já», amanhã, poderão voltar a mentir.

Quando se ama, o tempo é rápido com a pessoa amada: «já?» E, quando o amor se torna um fardo, o tempo é lento ao lado de quem se amou: «ainda?» Quando se quer, quer-se «já»; quando não se quer, «ainda» não. Muitas vezes, porém, «ainda» que eu queira «já», «ainda» não é possível «já» ter. E, de repente, eis que «já» se tem, «ainda» que parecesse impossível ter. Ou, então, o desconsolo ou a conformação: «já» que não posso ter, «ainda» assim esperarei.

Mas eis que – bloqueados por tempo e espaço – o desejo dos amantes é de tal forma incontrolável que a paixão se faz heróica e trágica, a busca do além: «ainda» que impossível, que o amor se realize «já.»

No desfecho trágico, contos e poesias e romances então revelam: o «já» daquele amor «ainda» era, realmente, impossível de se completar. Apenas a sabedoria, talvez, mostrasse aos amantes que, esperando, «já, amanhã», «ainda» eles «já» poderiam viver o que, «ainda» ontem, «já» lhes era negado. Amantes, porém, não são sábios. Felizmente.

O fato é que, «ainda» que as coisas continuem todas como são e como eram – e «já» que, quanto mais se mexe, mais elas continuam iguais – algo pequenino e quase simplório nos sobra de lição em relação ao tempo, ao espaço, àquilo que não conhecemos e que, quase sempre, nem sequer conseguimos ou queremos compreender: «ainda» que exista um sonho de amanhã, é preciso viver «já».

Pois, «já» que o amanhã tarda a chegar, «ainda» há o hoje para se viver.

«Ainda» existe um «já». «Ainda»...

Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.


Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim. Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.

 

DUVIDA DE MIM

 Poema de Mário Matta e Silva

 

 

 

 

Não sei prever
ao escrever
no sentir perverso
em que se derrama
sem fama
o verso.

Não sei prever
o futuro
sem que haja um brilho
no semblante duro
para descrever
sem orientação
o avanço
ou trilho
a desilusão
do que procuro
e não alcanço.

Sei lá eu até quando
se ando e desando
em tropeções…
Sei lá eu conter o comando
e o descomando
das emoções?