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Pagª 24 - EDIÇAO NºXXIII , Iº NUMERO  DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

Patricia Neme

Cotas para negros e factóides


O mal é insidioso, sorrateiro. É serpente que se esgueira nos recantos do silêncio, e se abriga em paciente espreita, até que sua vítima lhe seja alvo perfeito. O mal é voluntarioso, despido de piedade. E com fios de sagacidade tece a trama dos seus obscuros desígnios. O mal...

Não vi com agrado a criação de cotas para o ingresso de estudantes negros às universidades. No meu entender, gente é gente. Branca, negra, vermelha ou amarela, gente, é gente. Sente fome, frio, sede, alegria, medo, tristeza; é inteligente, ou menos inteligente; pode ser mais ou menos abastada... Mas é tudo igualzinha.

Essa aparente conquista de direitos me deixou matutando, a pensar que estavam dando o primeiro passo para o renascer de uma ariana hegemonia; gostei não...Mas quem sou eu, branca e loura, pra discordar do jornalista negro Cláudio Henrique Faustino, formado pela PUC, quando afirmou no Portal Mundo Negro, em 2004: O povo brasileiro precisa saber mais sobre a realidade do negro no Brasil antes de criticar as chamadas «ações afirmativas», que visam incluir os negros em universidades, empresas públicas e até em algumas particulares através do sistema de cotas.

É, talvez eu não soubesse assim tanto daquela realidade. No dia 26 de outubro, meu sistema de alarme entrou novamente em ação.

O ministro da Saúde apresentou à discussão as bases para a Política Nacional de Saúde da População Negra, no II Seminário Nacional de Saúde Integral da População Negra, realizado no Rio de Janeiro. O texto é considerado um marco no atendimento à saúde da população negra, área onde o governo federal reconhece haver racismo institucional e desigualdade étnico - racial, e através dele pretende criar e estimular valores de tolerância e solidariedade. Também é objetivada a diminuição dos índices de incidência das doenças que mais proliferam na população afro - descendente. Pra mim, estamos em mais um processo de segregação; insidioso, sorrateiro...

Com exceção de algumas poucas instituições particulares, a educação no Brasil é... Miserável? Medíocre? Caótica? Por quê lutar por cotas, quando a guerra santa deveria ser em prol da restauração de um ensino de qualidade? Quando a exigência deve ser por estabelecimentos públicos bem construídos, bem equipados, com professores preparados e valorizados? A verba para isso existe; é só abrir as malas e olhar dentro das peças íntimas do vestuário masculino (adorei essa definição da senadora Heloísa Helena).

A cota é uma afirmação explícita de que os negros são menos inteligentes, menos capazes; portanto, necessitam de um empurrãozinho. Agora, surge o manual de atendimento à saúde dos negros... Falam em aids, tuberculose, hipertensão arterial, mortalidade materna, câncer cérvico - uterino, hemoglobinopatias (doenças do sangue, anemias) e – ah!, o mal... - todas as doenças relacionadas a determinantes sociais. Sutil, não é mesmo? Porque aqui está o cerne da questão: determinantes sociais; e isto não tem nada a ver com raça.

Para justificar a incompetência de suas ações na área social, o governo federal cria um factóide, ao afirmar que a saúde da população negra necessita de atendimento diferenciado, quando os males que a afligem são os mesmos de quem vive em condições subhumanas, ou seja, um altíssimo percentual dos cidadãos brasileiros, que não tem acesso a saneamento, boa alimentação, assistência médica preventiva e curativa, educação sexual.

Negros ou brancos, mas flagelados da seca, moradores de favelas, pessoas que sobrevivem com um ínfimo salário - e mesmo assim pagam impostos, toda a população brasileira necessita de saúde (bons hospitais, profissionais competentes, medicamentos gratuitos ou de valores acessíveis, acesso a exames com tecnologia de ponta); necessita de Educação gratuita, bem planejada, padrão primeiro mundo. O brasileiro merece ser tratado com dignidade, precisa ter a sua cidadania respeitada, qualquer seja a cor da sua pele. Porque somos todos iguais: gente, é gente!

No entanto, criam cotas, políticas de saúde...Dizem os antigos que, pelo andar da carruagem, já se sabe quem vem dentro. Pois é... Pelo andar da carruagem, ainda criam uma nova política habitacional para os negros; e os enviam de volta às senzalas.

Senhor, tem piedade de nós, teus coloridos filhos!


 


FRONTEIRAS

Valdeck Almeida de Jesus 

O Brasil possui milhares de quilômetros de fronteiras com outros países latinos.

Apesar disso, e de essas fronteiras serem transponíveis, não se fala uma língua única. Além das fronteiras entre esses países e a fronteira da língua propriamente dita, há outras fronteiras internas.

Há a limitação do acesso a «outros mundos», a outras realidades. A pobreza, a cor da pele, o nível cultural, o estado de origem atuam como agentes limitadores. Os currais eleitorais nascem dessas limitações naturais ou daquelas impostas ao povo.

E, se a pobreza do norte/nordeste é um terreno fértil para o estabelecimento desses mecanismos de controle das massas, as regiões mais abastadas não ficam a dever, pois ali também há pobreza e falta de interesse público em resolver
os problemas crônicos da população.

Dessa forma, fica fácil manobrar, como também fica fácil para as castas dominantes se perpetuarem no poder, à custa de uma população surda, cega e muda.

A história se repete em ciclos previamente estabelecidos (pela esfera dominante), e as fronteiras se solidificam. Enquanto os muros vão sendo destruídos mundo afora, aqui
no Brasil eles se concretizam a cada dia.

São muros muito mais difíceis de serem derrubados ou minados, são muros autoalimentados e alicerçados no analfabetismo funcional e na cidadania de terceira categoria.

No ar paira a pergunta que não quer calar: «Até quando? Até quando o povo silente permitirá que sua própria sorte seja jogada por mãos alheias?»

 

Francis Raposo Ferreira

Francis Raposo Ferreira, é o pseudónimo de Francisco José Raposo Ferreira, nascido, há 50 anos, no distrito de Beja, mas vivendo toda a sua vida no distrito de Lisboa e desde alguns anos mesmo na freguesia do Beato desta cidade.

Francis Raposo Ferreira, embora sempre tenha sentido uma grande atracção pelas letras, leitura e escrita, foi só após a morte de seu pai que se começou a interessar por passar para o papel tudo o que lhe ia na alma.

Ligado ao ensino há mais de vinte anos, Francis Raposo Ferreira decidiu licenciar-se em Ciências da Educação, foi uma luta terrível para conseguir conciliar estas duas grandes paixões, escrita e educação, além da vida familiar, mas foi, curiosamente, nesta fase de universitário que o seu envolvimento no mundo das letras começou a ganhar peso, pois foi nesta altura que escreveu o romance «A Força do Amor», cujo lançamento editorial, a cargo da editora «Edium» está previsto para Outubro de 2009.

Francis Raposo Ferreira gosta de escrever todos os géneros, mas a poesia é a sua preferida e, talvez por influência de sua esposa, Isabel Ferreira, professora de História, vai ganhando o bichinho do conto histórico.

Tem escritas algumas centenas de poesias, sobretudo sonetos, dezenas de histórias infantis, vários romances e muitas histórias de Natal.