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Pagª 40 - EDIÇAO NºXXIII, Iº NUMERO  DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

O MAR NA TUA TERNURA

Mário Matta e Silva

 

 

 

 

 

 

1
Que sensações
deste mar
que me sussurra baixinho
num jeito de me embalar
em gostoso torvelinho.

2
Que magias
trás o mar
ao meu corpo desejoso
numa ânsia de chegar
ao teu doce alvoroço.

3
Que cânticos
vêm do mar
em ondas de branda altura
onde espraias o olhar
onde agitas a ternura.

 

PARTIDA

Patricia Neme 

Já me desfiz de todos os guardados
e das lembranças que abrigava em mim.
Joguei ao vento, sonhos tão sonhados...
Tristeza, anseios... Tudo teve fim.

Albuns com fotos dos meu bem amados...
E as conchas brancas, qual flor de jasmim.
Agora vou juntando meus trocados...
Já nada resta, nada mais... Enfim!

E desnudada de qualquer lembrança,
tendo nos versos a melhor herança,
outros caminhos eu irei trilhar.

A solidão? Ah, essa vai comigo,
pois nela sempre tive meu abrigo...
Pois ela sempre me soube embalar.

 

Continuação de Metodologia do Ensino do Português - Por Arlete Deretti Fernandes. Ver Inicio

O conceito é uma determinada forma de pensar, mas o que não quer dizer que já tenha chegado a um conteúdo final. Ao atingir esta fase significa operar com metacognição, que é uma operação consciente dirigida aos processos de pensamento (reflexão). Na área da linguagem chama-se metalinguagem.

Nossa forma de pensar e nosso sistema de conceitos é imposto pelo meio sócio-cultural em que vivemos. Para Vygotsky aí se incluem nossos sentimentos, nossa vida afetiva. Conceitos e afetos interagem e são de certa forma efeitos do meio sócio-histórico.

Terzi, em 1995, refletindo sobre a aprendizagem segundo Vygotsky, mostra a existência de um componente afetivo capaz de interferir na interação, dando ênfase ao respeito mútuo dos participantes.

A confiança mútua pressupõe o respeito mútuo: respeito do professor para com o aluno como ser humano e respeito do aluno para com o professor.

Vygotsky conclui que as formas superiores de comportamento aparecem duas vezes em cena durante o desenvolvimento da criança:

primeiro em uma forma coletiva (interpsicológica), ou seja, cria-se um vínculo entre a criança e os que a rodeiam. Depois, a criança transpõe a forma coletiva de comportamento para si mesma, (intrapsicológica).

A linguagem é um meio de compreensão dos outros e do resto do mundo, um meio de compreender a si mesmo, então o sujeito enquanto constrói o seu conhecimento também se constrói.

Vygotsky estabeleceu dois tipos de conceitos: os cotidianos e os científicos.

Os primeiros, correspondem ao nível mais alto de generalização, a partir de situações práticas no dia a dia, se estabelecem do concreto para o abstrato e são espontâneos.

Os conceitos científicos podem ser chamados de generalizações de pensamentos e o caminho percorrido vai do abstrato ao concreto.

A  relação entre estes dois tipos de conceitos no desenvolvimento da criança passa a ser um desafio educacional, na medida em que se pressupõe mediações específicas para atingir o nível dos conceitos científicos.

 

GOSTAR

Liliana Josué

Gosto de te ter por perto
Ainda mais do teu sorriso
Bem desperto
Meu paraíso
Preenchendo este deserto
De paixão e amor sem siso
Encoberto
E sem aviso
Que por ti foi descoberto
No araque de improviso
Em acto esperto
Bem preciso
Não tendo errado ou certo
Ignorando o impreciso
Dom secreto
Nada indeciso.

 

 

Vibrações

 

Poema de Mário Matta e Silva 

Este poema «Vibrações» utiliza o Mote recolhido do poema «O Espírito» da autoria de Natália Correia (quatro versos), e foi declamado por Carmen Dolores, quando do lançamento do livro «com eles NOUTRA ATITUDE» de Mário Matta e Silva em 26 de Novembro de 2008

mote:

Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas:
(...)
«O Espirito»

Natalía Correia

Gostava de correr convosco pelos campos fora
Gozando aí, das imensas matas floridas
Aromas das suas vestes harmoniosas, garridas
Que respiramos em tí, em cada ano e hora.
Filhos de �frica, do teu regaço despontando...
Nada a fazer, amor, eu sou do bando

Do bando das nostalgias feitas miragem
Dos ventos mornos soprados sobre os ribeiros...
Sou do bando de imbecis, esses últimos aventureiros;
Oh! Fim da saga colonial! Loucos da infernal viagem
Vibração dos marimbeiros! Suor das marrabentas
Impermanente das aves friorentas;

Ali, um elefante, uma vivaz impala no seu cortejar
Além, cresce um coqueiro, perto duma mangueira;
Virasse eu folha ondulando em branda clareira
Ou então vela enfunada por esse bravo mar!
Mas prá vos salvar, crianças, sobre o �ndico me vi chorando
E nos galhos dos anos desbotando

Vibrei de raiva – cuspindo sangue – para voltar
À terra que me deu o ser e me deu o pranto;
Foi a dança mais macabra, sem nenhum encanto
Que a humilhação fez em mim assim gritar!
Agora, sem rogos nem saudades do voo das tormentas
Já as folhas me ofuscam macilentas;

Mário Matta

«com eles NOUTRA ATITUDE»


Crónica a Bocage

JORNADA CREPUSCULAR



Só nas memórias te encontro Bocage

Vem de veludo vestido o crepúsculo que desce sobre nós em traços de ouro fino, em ondas de volúpia, e vai escurecendo tão lentamente que o sol se apressa a esconder atrás de uma nuvem mais aveludada ainda e mais macia.

Parado, à porta de um café conhecido de Lisboa, imobilizo ali comigo a memória, que arrasta tempos, datas, pessoas, que o passado devorou, sem comiseração dos nossos semblantes pesados e das rugas insistentes, que se cruzam na pele que o tempo crestou.

Tinha acabado de ver de novo a estátua imponente de Bocage, ali dentro do Nicola, e este imortal poeta de Lisboa desventrada e crua, traça-me caminhos percorridos, com a gravação a ouro velho do seu nome, que em tertúlias poéticas, lança o brilho dos seus cristalinos desabafos, em poesia, e sempre, sempre aquele murro no estômago feito de polémicas, que em sua memória sabem a liberdade.

O vento sopra fino e áspero nas minhas faces enquanto se dá a jornada crepuscular que me leva até a esse poeta de olhos doces, gingão mas altamente arrojado.

Muitos dizem que o conhecem, mas vão-lhe buscar apenas a primeira faceta, a de gingão, esquecendo-se que foi dos primeiros, que, arrojadamente, em pleno Despotismo (Absolutismo) arrancou gritos de apelo à liberdade, à igualdade, à fraternidade.

O nosso Vate Sadino, como não se esquece de lembrar a amiga Maria América Miranda, trás em uníssono aqueles que conhecem bem o Bocage dessa estirpe de homens que antes quebrar que torcer…

Ouve-se um trovão, aclara-se o fim de tarde com um relâmpago breve mas respeitável, e chove miudinho, em pleno tombar da bruma crepuscular… então ocorre-me a tertúlia no átrio do Teatro D. Maria II, as discussões que dela saiam, os poemas que se diziam a meio das tardes, sempre na euforia dos enaltecidos rompantes bocageanos.

Rio-me ao puxar pela memória, pois nela registei também os espectáculos, em nome e homenagem a Bocage, e organizados por essa mesma tertúlia, no padrão dos descobrimentos, que traziam o Vate Sadino pelos caminhos da decência, enquanto, pelas livrarias e bibliotecas continuava a ver coisas horrorosas sobre pouco mais do que as anedota do mesmo Poeta (diga-se até que algumas lhe foram convenientemente atribuídas).

Velhacarias, penso eu, de quem só sabe ver o lado escuro dos sobejados dias que caem, que nem morfeus, nos braços tépidos das diáfanas crepusculares de Setembro (mês em que Barbosa du Bocage nasceu).

Passaram anos, tempos que nos separam ou aproximam, em grupos de debate, tertúlias de poesia, várias e animadas, e voltamos de quando em vez a esse romântico, arremessado à devassa pela maldade, dos que fazem dessa figura delgada e pálida, exaltado e corajoso, metido a ferros, por apelo às liberdades, as piores acusações.

Ainda não há muitos meses uma série televisiva dava, sobre a vida de Bocage, o golpe de misericórdia, não só nesse exemplar poeta, mas até numa sociedade inteira, dos finais do Século XVIII, mostrando só depravação, imoralidade, ruelas de entulho, de bêbados, de prostitutas, de devassos etc… como se fossemos crivados por um certo fado feito de «orgulho» balofo, enfiado na imundice de Lisboa.

Que foi dos primeiros arautos do romantismo e das liberdades não se falou, e nem se enalteceu o motivo mais próximo que esteve na base das acusações que lhe foram feitas por Pina Manique, até o encarcerarem no Limoeiro.

Só nestas memórias te encontro Bocage, num abraço fraterno, orgulhoso de ti! O crepúsculo, esse, visto também pelo seu lado menos risonho, é um manto aveludado mas escuro que nos engole…e a maldição dos homens também!