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Sultão - Meu cão bandido

Sandra Fayad

 

Criança normalmente tem uma quedinha especial por pequenos animais. A preferência costuma recair sobre cães e gatos. Mas há os passarinhos, papagaios, peixes, hamsters, sem contar os grilos, cigarras, lagartixas, que normalmente são sacrificados pela curiosidade e manuseio inadequado.

A criançada da minha família já curtiu um pouco de tudo. A relação de amor com os bichinhos sempre começa e termina do mesmo jeito. Quando querem ter um em casa, já chegam de mansinho para pedir autorização aos pais.

Diante das primeiras negativas categóricas, insistem, imploram, agradam e vão convencendo aos poucos os adultos mais durões, que acabam cedendo até mesmo para se verem livres da «mendicância».

- Mas preste atenção no que vou dizer! Você vai ter que cuidar. Tem que dar comida, água, limpar toda a sujeira. Você promete que vai fazer tudo isso?

- Prometo. Juro. Pode acreditar. Vou cuidar direitinho.

- Se não cumprir, nunca mais peça para ter animal em casa, arrematam os pais cansados de saber que estão entrando no rol dos «me engana que eu gosto». O mais interessante é que, na maioria das vezes, vão eles mesmos buscar o novo membro da família, compram todos os apetrechos, ajudam a escolher o nome e ainda repassam as instruções aos pequenos sobre os cuidados de rotina necessários.

- Oba! Oba! Minha mãe e meu pai deixaram, comemoram os filhotes felizes com os amigos.
Vi esse trecho da história dezenas de vezes e nele já fui atriz, algoz, coadjuvante, platéia e vítima dos caprichos infantis.

Os irmãos Mary e Thygo acabaram conseguindo levar para casa mais um cãozinho recém nascido, mestiço de cocker com fila, ao qual deram o nome de Sultão. Passada a primeira semana de lua-de-mel, começou o «barraco».

Um dizia ao outro:
- Cuida você! Estou estudando...

- Engraçado! Ontem fui eu. Hoje é você quem tem que cuidar.

- Que saco! Eu não posso. É você quem tá à toa.

E a discussão vai longe, até que a mãe vem e cobra o compromisso, que ora é cumprido a contra gosto, ora não é. Chega o pai, houve reclamações da mãe, chama as crianças à responsabilidade. Vai daqui, vai dali, pouco tempo depois o brinquedinho acaba se transformando em um peso, do qual todos querem se livrar.

Não foi diferente com o Sultão. Assim que completou quatro meses, deram-lhe a última vacina da série de imunização e o levaram para a minha chácara no fim de semana, com um pouquinho de ração.      - Vovó, olha como ele está grande! Você não vai ter trabalho nenhum.
Conformada com a minha condição de coadjuvante, respondi:
- É, estou mesmo precisando de um novo cachorro aqui (fazer o quê, não é?).

Quase pude ouvir um «Ufa! Ficamos livres do problema para sempre». Sultão era um cão forte, estatura mediana, pelo curto amarelado tendendo para o marrom, carinhoso, mas de espírito aventureiro. Corria para lá e para cá em toda a extensão dos duzentos e cinqüenta metros do terreno, que estava parte murado e parte cercado com «coroa de Cristo» e arame farpado.

Em meia dúzia de ocasiões, fui chamada às pressas para levá-lo ao veterinário, porque havia se cortado no arame ou nos espinhos, durante as investidas para sair. Depois de algum tempo, aprendeu a cavar um buraco no chão sob a cerca e a rastejar como cobra até a chácara vizinha, que era aberta para as ruas laterais e transversais. Desaparecia por dois ou três dias.

Voltava imundo, machucado e magro. Era confinado no canil por algum tempo, mas tão logo estava recuperado, acabava sendo solto para cumprir a sua função de guarda. Nesse meio tempo, fazíamos os consertos nos pontos vulneráveis das cercas, na esperança de que ele não mais conseguisse escapar.

Mas bastava haver uma cadela no cio nas proximidades para que o furacão existente dentro dele saísse arrebentando tudo e se arrebentando, para chegar até o seu novo ninho de amor. Tudo se repetia dois ou três dias depois da fuga espetacular e lá ia eu levá-lo ao veterinário. Um dia, houve uma festança na associação dos produtores e um dos vizinhos veio conversar comigo.
- Então é você a dona do Garanhão do Lago Oeste?
- Eu o quê?
- Não é seu aquele cachorro mestiço que copula com todas as cadelas da redondeza?
Ele já deve ter pra mais de cem filhotes por aí.

- É o Sultão, patroa – informou o caseiro que estava ao meu lado. O apelido dele agora é Garanhão do Lago Oeste. E tem gente dizendo que vai dar um tiro nele qualquer hora dessas, porque ele sai arrebentando tudo pra encontrar as cadelas no cio. Ninguém segura a fera.

Voltei para a chácara preocupada. Resolvi então fazer uma pequena pressão sobre o caseiro.
- Valdir, eu quero que de agora em diante você mantenha o Sultão preso o tempo todo. Tranque-o no canil durante o dia. À noite, estique um arame de um ao outro lado do portão principal e deixe-o acorrentado lá, de forma que só se mova no espaço do arame.

Como eu ficava na cidade durante a semana, ainda ameacei:
- Se eu chegar aqui e tiver que levar esse cachorro ao veterinário outra vez, vou descontar a despesa do seu salário.
Ele não fez cara boa, mas fingiu acatar as novas ordens. Retornei ao meu apartamento ao final da tarde daquele domingo.

Cinco dias depois, recebi um telefonema do Valdir.
- A senhora vai vir aqui hoje?
- Não pretendo. Mas, o que houve?
- É que aconteceu um negócio aqui com o Sultão, mas ele já está bem.
- Fugiu outra vez – gritei!
- Mais ou menos. Quando a senhora chegar aqui, a senhora vê se precisa levar ele ao médico.

Fui lá. Ao entrar, deparei-me com o Sultão solto, triste, andando vagarosamente.
- Afinal, o que houve com ele?
- É que teve um assalto aqui perto, de domingo para segunda. Aí, deixei ele solto à noite e ele acabou fugindo. Quando apareceu, eu vi que estavam faltando as duas bolas...

Pegou então o cachorro e o virou de pernas para cima, para que eu pudesse ver melhor. Fiquei arrepiada. O ferimento estava literalmente cauterizado.
- Mas, o que foi isto? Terá sido um ritual de magia negra?
- Eu não sei não senhora.
- Vamos para o veterinário.

Chegando lá, após o exame, o veredicto:
- Foi castrado. Impressionante o serviço que fizeram nele. Parece coisa de cirurgião experiente, arrematou o veterinário.
Comentei:
- Dos males, o menor. Pelo menos está vivo e agora fica quieto dentro da chácara.

Como já havia planejado, algum tempo depois substituímos a cerca de arames por tijolos. Tudo parecia tranqüilo. Mas doce ilusão a minha! Sultão voltara a fugir. Agora escalava o muro de dois metros e meio de altura como se fosse lagartixa e desaparecia. Ao indagar por ele na vizinhança, ficávamos sabendo que fora visto a quilômetros de distância, junto com outros cães, caçando.

-  Caçando? Caçando o quê?
- Pequenos animais do cerrado, lá para os lados do Parque Nacional.
Reaparecia por uns dias e desaparecia novamente. Ninguém, nem nada o detinha mais.

No fim de semana, o caseiro comentou:
- Dessa vez, capaz que ele achou alguma coisa boa por aí ou deram cabo dele, porque já tem é dias que sumiu e ninguém dá notícia. De manhã, comprei o jornal e li a reportagem da primeira página:

IBAMA sacrifica bando de cães no Lago Oeste.

Logo abaixo havia a foto de uma grande vala com centenas de cães amontoados mortos.

Em seguida o texto, com a explicação do representante do IBAMA: trata-se de cães domésticos fugitivos das chácaras, que se agrupavam em bandos, transformavam-se em cães selvagens e invadiam o Parque Nacional de Brasília, dizimando a fauna da área de preservação ambiental.

Meu coração ficou apertado e a sensação de luto percorreu-me o corpo, enquanto procurava na foto algum detalhe que identificasse meu cão bandido.

Como nunca mais tivemos notícias do Sultão, persiste até hoje a dúvida sobre se ele teria sido um dos cães sacrificados em uma daquelas diligências do IBAMA.

 

 

Quadros que a Natureza pinta.


 

Arlete Deretti Fernandes


Dias muito especiais foram aqueles em que vivi com minha família, no terceiro piso, em frente ao mar.

Mudamo-nos para lá no dia 31 de dezembro de 1998 e já festejamos o Ano Novo que chegava, apreciando os fogos que o saudavam, reunidos no terraço.

Com o suceder dos dias de verão, a beleza do mar vista lá de cima era indescritível. A cada dia o oceano apresentava novas nuances e formas. Suas cores variavam do verde turquesa ao azul. Apresentava ondas retas e outras enviesadas.

Do terraço via-se esta beleza. No meio do azul algumas vezes apareciam sombras escuras. Eram os cardumes de peixes que se movimentavam de um lado para outro.

Bandos de pássaros passavam em revoada e pousavam nos matos de alguns terrenos baldios para comer as sementes das plantas. Eram os chamados «Bicos de Lacre». Seus bicos eram vermelhos, muito graciosos.

Um gavião imponente, com as asas de grande envergadura, passeava na região todas as tardes. Sobre o telhado, canarinhos soltavam lindos trinados. Em um orifício do poste de concreto que fazia a iluminação pública, bem defronte à sacada, apreciávamos a entrada de canários fazendo seus ninhos.

Nas travessas de sustentação do transformador de alta tensão, o construtor da floresta, «João de Barro,» com vários companheiros, construíram suas casas. E, segundo a sabedoria popular estes pássaros constroem suas casas com a única porta de entrada sempre virada para o lado contrário de onde os ventos irão predominar naquele ano.

Este pássaro, pelo amor que tem pela companheira, não admite infidelidade. Algumas casas deles que foram encontradas com a entrada lacrada, quando quebradas pela mão do homem, lá dentro encontravam o esqueleto da fêmea. Ao sentir-se traído, o pássaro aproveita o repouso da sua amada e obstrui a saída.

Outro fator de mudança deste construtor, é pela invasão de sua residência por pássaros preguiçosos, como chupins e pardais que invadem e se estabelecem.

Arquitetos já pesquisaram sobre a resistência desta obra natural e ao fazer a análise do material constataram que a substância que dá a liga é proveniente do organismo do próprio passarinho.

Informaram-me que também uma espécie de pombos quando traídos cometem suicídio, voam a uma grande altura e com as asas fechadas impactam-se ao solo, tendo morte instantânea.

Outro fato curioso que também me contaram foi sobre uma raça de ovelhas que o macho traído dá cabeçadas violentas contra árvores resistentes até morrer.

Voltando da digressão, à noitinha, quase à hora do crepúsculo, garças brancas passavam em revoada, formando desenhos geométricos, quando se recolhiam aos seus ninhais para passar a noite.

Chegado o tempo, as baleias apareciam, procurando águas menos frias e davam verdadeiros espetáculos. Apreciei, por horas seguidas, uma enorme baleia a brincar com seu filhote. Era um bailado muito gracioso.

Todos estes quadros perfeitos e ainda as duas ilhas, a Sant’Ana de Dentro e a Sant’Ana de Fora, faziam-me sentir irmã da Natureza. Estas ilhas, em épocas remotas soltaram-se da Serra do Mar, que costeia o litoral.

Nos dias de carnaval, víamos de manhã cedo os foliões passarem na praia, pois havia um palco enorme onde um conjunto tocava suas músicas, até amanhecer.

Partidas de futebol amador, de volei e de surf nacional e internacional eram realizadas alí. Um de meus filhos formava times para participar do futebol, tal era o seu gosto pelo esporte.

Em outra parte da praia, meninos soltavam pipas coloridas.

Dentro de casa, a samambaia de metro recebia o sol da manhã que saia do mar com toda a sua imponência. Ela caía viçosa pela escada em caracol.

Nas noites de lua cheia a beleza era deslumbrante. Aquela bola gigante surgia do meio das duas ilhas, e seus raios iluminavam as ondas do mar e brilhavam nas águas do oceano com toda a imponência.

Fazíamos nossas refeições com aquele quadro paisagístico fascinante, ao alcance de nossas vistas.

Nossos filhos, nesta época estavam mais próximos de nós. Compartilhamos expectativas e alegrias. Quando chegava a hora do almoço eu tinha um assobio e ia ao terraço de trás da casa e apitava. Meu filho mais novo sabia que estava na hora de vir almoçar.

Eu me sentia próxima da Criação e de seus movimentos. Uma tarde apreciei uma corrida de cachorros na praia. Para mim aquilo era uma novidade porque os animais organizavam-se sozinhos e corriam um ao lado do outro para o sul e para o norte.

Foram dois anos das mais belas sensações.

O primeiro inverno que lá passamos chegou cedo, em abril. Amanheceu um vento sul gelado que assobiava na cumieira da casa. Em compensação, o sol despejava seus raios generosamente por todos os lados do apartamento, desde a hora que surgia até ir-se embora.

Do próprio quarto de dormir, minha filha via de manhã cedo se as ondas estavam boas para surf. Mesmo no inverno, vestia o macacão de surf e ia para o mar. Chegava em casa com os pés arrocheados do frio, mas amava curtir as grandes ondas, desde criança havia feito uma bela amizade com o oceano. Conhecia-o bem, e por isto o amava e respeitava sem nenhum temor.

Os meninos também deliciavam-se com toda aquela liberdade. Mesmo assim todos eram disciplinados com os estudos. Um deles fazia o cursinho pré vestibular. E para a alegria de toda a família ele conseguiu passar para o Centro Agro Veterinário em Lages, na Universidade Estadual.

Sonhei, numa das noites, que ondas gigantes invadiam as janelas de minha casa. Em outra, que eu nadava em um mar muito extenso, mas conseguia sair na outra margem. Só depois de algum tempo compreendi que estes sonhos preparavam-me para outra realidade, que num futuro próximo eu teria que viver.

Todos estes momentos gravaram-se indelevelmente em minha alma. Pecotche ensinou-me que «recordar é dar de volta ao coração». E é isto que estou a fazer agora.

 

amigos poetas, a poesia tem destas coisas, bem ou mal vem ao pensamento escreve-se...para uns esta certo, para outros, dizem não e nada disso...
minhas desculpas... o Armando não sabe melhor...Abraços e bom fim de semana
Armando

Pai aventureiro, venceu o adamastor, o medo e o mar
Batalhou o mar de goelas tenebrosas, o céu, estrelas e anil
Sem saber, foi a outras gentes, levar Cristo e abraçar
Entranhas do mar se abriram, para o mundo nasceu Brasil.

Pai vestiu aquela riqueza de terra, mediu-a e a baptizou
Dando a cada pedaço de nome uma cruz e uma capitania
Retirou riquezas, transformando em estradas, terra amada
Mesma língua às tribos para viverem com paz e alegria.

Um dia o rei foi ameaçado, fugiu para os irmãos amados
Lhes disse; vos sois filhos, mas tendes vossa vida a viver
Meus soldados estão sendo pelos vizinhos desarmados
Nação!... Beleza vossa pátria amiga; nela eu quero morrer.

Aqui se ergueram igrejas; conhecereis a palavra saudade
Sabereis sentir, repartir amor nos risos, abraços e beijos
Aqui cultivais pão do dia, haverá reza ao toque da trindade
Esta terra será abundante, povo alegre, fazei meus desejos.

Deixai as bandeiras da liberdade flutuar no vosso anil céu
Filho maior, gente de garra: sem vos envergonhar do Pai
Brasileiros, sereis meus bons irmãos que Portugal me deu
Sol e Anil, fará a mulher brasileira amor, que da terra sai.

Por: Armando C. Sousa

 

 

 



Pagª 9 - EDIÇAO NºXXIII , Iº NUMERO  DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS

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