Pagª 18 - EDIÇAO NºXXIII , Iº NUMERO DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
SUBTILEZAS
Conto

Liliana Josué
O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro.
Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .
Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.
Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.
Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.
Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.
Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».
Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa.
Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.
Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.
A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.
A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o
fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um
tanto assustador.
A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.
A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa.
Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.
Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.
Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.
A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.
Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.
Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.
Coluna de Rosa Pena

Mr.Woody Allen
Não sou crítica, nem comentarista de cinema. Sou apenas viciada, vício herdado de meu pai. Cresci querendo fazer cinema e até já me arrisquei entre amigos.
Tento na net através de imagem e som dar um ar de fita aos meus
escritos. «Almodovar» meus textos!!!! Que pretensão! Não vou muito
longe, aliás pelo contrário, os «intelectuais» de plantão consideram
inaceitável sonorizar literatura. Outro dia mesmo dei meu grito de
protesto:
- Tira o som se não gosta!
Match Point o filme de Woody Allen tem como trilha sonora ópera, no
lugar do jazz que Allen geralmente nos brinda, aliás ele todo é sempre
um brinde. Tampem os ouvidos os que não apreciam, pois o roteiro desse
filme é literatura profunda, é meditação, é filosofia ao som de ópera.
Partiu da premissa grega pré-socrática, das tragédias. Referiu-se à
Sófocles: a nossa vida é tragédia. Quem retoma o tema posteriormente é
Nietzche e agora ele de forma maravilhosamente contemporânea.

O cenário não é Nova York como é costume do Woody, que por sinal nos
extasia. Manhattan é ele ou ele é Manhattan? Ele? É o próprio êxtase na
escrita, na interpretação, no trompete, na neurose, na lúcida loucura!
Ponto final é passado em Londres e tem o cheiro maravilhoso de Shakespeare. O roteiro partiu para o drama, talvez como conseqüência da anterior reflexão de Allen em Melinda & Melinda onde ele avalia drama e comédia.
Allen andou sendo crucificado pela crítica que cismou em ficar parada em «Noivo Neurótico, Noiva Nervosa» esperando talvez a parte dois. Noivo gay, noiva sapata? Woody é muito gênio pra fazer qualquer seqüência, parte dois, três, quatro...
Faz um novinho em folha e deixa pros roteiristas dos Desejos de Matar (eu fico com desejos que morram logo), cabeças Duras de morrer que não conseguem ver nada que não seja bilheteria.
Mr. Excelência provou que em qualquer gênero, quem nasceu para Woody vai
sempre Allen, ops, vai sempre além de toda e qualquer expectativa. Um
filme filosófico, um filme bonito, um filme novíssimo a moda antiga, um
filme inspiradíssimo do piradíssimo sabe-tudo Mr.Woody Allen.
De acordo com a idéia central do filme o que me faltou foi sorte! Sim!
Total falta de sorte em não ter nascido uma Mia Farrow e não ser «A Rosa
Púrpura do Cairo».
Eu amo esse cara e PONTO FINAL.
Em tempo: Tem uma transa na chuva que vale um novo Oscar. Oscar Tesão
2006!
Título no Brasil: Ponto Final - Match Point
Título Original: Match Point
País de Origem: Reino Unido / EUA / Luxemburgo
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 124 minutos
Ano de Lançamento: 2005
Direção: Woody Allen
Que coisa linda!
Coisa gostosa
é sopro na orelha
palavra maliciosa
lobo na pele de ovelha.
Coisa maluca
é língua no umbigo
quanto mais cutuca
maior o perigo.
Coisa sem par
é o olhar
mesmo sem luar
escolhe o seu lugar.
Coisa linda
é dizer:
-Te amo ainda.
Sem pesar
apesar.
Caso que não finda.