Pagª 5 - EDIÇAO NºXXVII , Vº NUMERO DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Três Poemas
Por
Denise Severgnini
ALMA OUTONAL
As árvores despem-se de suas folhas
No raiar do outono.
Tiritam de frio e emoção...
Sento junto à varanda
A contemplar a serra
Descortinada no horizonte.
Matizes esverdeados desenham formas
Dão ares da natureza a festejar
Os sentimentos nascentes,
Em meu ser, neste momento...
Contemplo um amplo mundo
Que encerra beleza, perfeição...
Assim como as árvores,
Tenho a minha caducidade
Ficou a desnudar a alma...
Falo de mim...
Penso em mim...
Tento ser melhor...
Quero buscar, na força da natureza,
A energia necessária
Para fazer os que eu amo felizes...
Para compreender os que me maldizem...
Desnudo a alma,
Deixo-a livre de preconceitos
Imaculada e pura
Como oxigênio proveniente
Das folhas que caem das árvores
Na estação outonal.
Quero ser melhor
Bem melhor do que fui
Até hoje!
AMOR, DEIXA O TEMPO PASSAR
Quem me dera o tempo se fosse a vagar
Perdido entre eras, passasse devagar
E em ti, eu ficaria indefinido, num eterno amar
Atado em teus braços, enrodilhado no teu carinho
Seria teu amante, como pássara e pássaro
Em seu doce ninho...amor de momento total!
Como feroz animal eu te possuiria, e tu
Ninfa das águas calmas, abrandaria a meu furor
com beijos e mais beijos, depois a posse...
mas o tempo é cruel, passa rapidinho...
quero buscar-te nessa imensidão de nós dois
Ah, o tempo! Vamos amar-nos !Deixa o tempo
Para bem mais depois!
FELIZ ANIVERSARIO, AMOR
Deito minhas saudades às malhas do esquecimento
Buscando atingir aos píncaros da doce (in) sanidade
Quero deixar de querer, libertar-me do atroz tormento
Que foi tua partida, conduzindo contigo a felicidade
Nesta data de recuerdos doridos, lágrimas e lamento,
Acendo uma vela que queima um amor de tal verdade
Não aliviando em mim, o real e o desejável intento
De transmutar a dor da ausência em feliz docilidade
Feliz aniversário , amor, onde quer que estejas agora
Remôo os dissabores largados na tua partida cruel
Hoje, equilibro-me na tua lembrança, a qualquer hora
Sejas feliz em terras distantes, o quero ser também
Deste-me o mel. Provei, depois deixaste sabor de fel
Aniversaria a saudade de ti...Olvidarei um dia! Amém!
Dedicatória Especial
Por
Cristina Ubaldo
Temos todos nós, às vezes a presunção da perpetuidade, tecemos planos, projetos de vida, envaidecemo-nos com a satisfação de ambições, orgulhamo-nos com a obtenção de vitórias, quando em pequeno espaço de tempo, começam a partir pessoas que tanto amamos deixando bem demarcada uma nesga de luz a ser perseguida por nós.
Seguem um caminho inexorável, trilhando alguma senda inidentificável racionalmente. Na tristeza da separação marcamos passo entre a saudade e a lembrança, entendemos então que no mundo só há dois fenômenos incontroversos: nascimento e morte.
Recordo hoje em especial uma pessoa maravilhosa que há tempo não mais esta aqui para compartilhar minhas vitórias, alegrias, lutas e até mesmo minhas tristezas e frustrações; minha mãezinha, uma criatura afetuosa, generosa, quase inconsciente do poder que tinha nas mãos, no olhar, no sorriso, acudindo a todos sempre em segredo, como se temesse que o mundo deformasse a pureza de suas intenções.
Quero lembrá-la aqui, dentro da imensidão do amor que devotava à vida e por tudo que me transmitiram no decorrer do tempo em que tive a felicidade de tê-la junto a mim, no sorriso amigo, nas tantas palavras de carinho que ficaram gravadas em meu coração, na lição de vida que me deixou.
Em algum lugar no universo, quero crer, continua sorrindo, ensinando-nos a suportar as adversidades com paciência e serenidade. Estaremos agora e sempre juntos, unidos pelo amor que a fez ser tão especial hoje, ainda mais feliz, orgulhosa das minhas perseveranças e vitórias diante dos atropelos da vida.
Com meu pensamento fixado nisso, sigo o caminho que você me apontou, não como imposição, mas como suposição na certeza que somente eu saberia em qual esquina deveria me separar de seus conselhos e seguir meu próprio caminho.
Foi isto que aprendi : ser dona de minhas vontades e responder por elas. Aprendi também que liberdade não é fazer tudo que quero ou que gosto, mas acima de tudo é ter serenidade ao pensar e sabedoria ao escolher.
É a você minha eterna amiga que dedico tudo de bom que a vida me deu até agora da mesma forma que é a você que agradeço por ter sobrevivido a todas as provações que a vida me impôs.
Sigo meu caminho com a certeza de que sempre será a minha estrela guia.
Amor é Isto
Andar Imobilizado
Manter viva esperança morta
Ouvir o silencio clamar
Revoltado pela constante palpitação!
Isto é o amor!
Imaginar cheiro
Sentir e apalpar o vazio
Ter a certeza que existes
Olhar-te e sentir-te perto, estando longe!
João Furtado
Histórias da Vida Real
Crónicas por Martim Afonso Fernandes
BIFE DE PEIXE PORCO
Não, não era bife de peixe porco, era bife de porco, com sabor de peixe.
O Porto de Imbituba é o único no Brasil com barra livre, sem problemas para o navio atracar e desatracar. Imbituba teve o privilégio de possuir uma ótima praia, na qual o porto foi construído.
Chama-se Praia de Baixo ou Praia do Porto. Ali é um local de residências de
trabalhadores da Companhia Docas, da Indústria Cerâmica e tem vários ranchos de
pescadores com suas canoas de pesca, comércio e profissão.
É um belo mar, manso, com mínimas ondas que quebram bem próximas à praia.
Em determinada época, muitos moradores criavam porcos, tinham os currais, mas
também os soltavam. Porco gosta muito de peixe. Onde as ondas terminam começa o
habitat das tatuíras ou tatuí, como são chamadas, elas tem o tamanho e a forma
de um micro tatu.
Estas, têm sua época de desova e são colhidas para fazer sopa ou aperitivos,
quando fritas.
Como é de natureza do porco fuçar, e bem perto das águas do mar ele sente o
cheiro, vai fuçando e comendo as tatuíras. Assim, passavam horas e horas a comer
estes pequenos moluscos que também são frutos do mar.
Acontece que, com o decorrer dos meses o porco absorve o gosto de peixe na
carne.Quando abatido para refeições, seja frito, assado ou ensopado, prevalece o
gosto de peixe.
Para tirar o gosto de peixe, é preciso que os porcos fiquem no mínimo dois meses
longe da praia, presos e sendo alimentados com milho e lavagem. As famílias que
os criavam também tinham uma fonte de renda a mais.
Quando ia algum visitante conhecer a praia e ver os navios que ficavam fundeados
ao largo, bem próximos, não sabiam que porcos gostavam de peixes tanto quanto os
gambás gostam de galinhas. Alguns até chegavam a pensar que os porcos vinham do
mar.
Na região sabia-se que Imbituba tinha uma grande criação de suínos, e muitos
comerciantes iam para lá, a fim de comprá-los.
Um restaurante próximo à rodovia, na cidade de Paulo Lopes, era parada dos
ônibus que iam e vinham de Imbituba para Florianópolis e vice-versa. Ali eram
servidos café e demais refeições. O estabelecimento era conhecido pelo sabor e
pelo bom atendimento.
Um ex-prefeito de Laguna, que era médico e também atendia em Imbituba, teve que
ir a Florianópolis com mais dois amigos. Pararam para almoçar neste restaurante.
O almoço era conhecido como caseiro e gostoso.
No meio da variedade de carnes veio um bife de bom tamanho, de carne suína. Um
dos companheiros falou para o prefeito:
-Doutor, este bife está com gosto de peixe. O prefeito experimentou e não deu
outra.
Muito amigo que era do dono do restaurante e freguês assíduo, falou logo:
-Eu não sabia que tu serves filé de peixe porco aqui.
O proprietário retrucou:
-Não é peixe porco, prefeito, é bife de porco.
O prefeito deu uma risada e completou:
-Este porco que serviste a carne foi comprado em Imbituba, lá na Praia, não foi?
O proprietário disse:
- Sim, como é que tu sabes?
O prefeito falou:
- É só tu provares o bife, que vais sentir o gosto de peixe. E, porco na nossa
região com este gosto, só vem de Imbituba!
Não lugar
Por
Valdeck Almeida de Jesus
Parodiando a canção «The Blood that Moves the Body» (O Sangue que Move o Corpo),
do grupo norueguês A-ha, que foi sucesso em 1988, criei a frase «O dinheiro que
move o mundo».
Vivemos num mundo capitalista, onde o maior interesse, o maior valor, é o monetário, o econômico. Com exceção de um ou outro país socialista, o mundo, antes de priorizar o homem, sua cultura, sentimentos e ideais, está interessado em saber quanto um indivíduo pode gerar em riquezas, enquanto produtor e consumidor de bens (coisas).
E' a globalização e sua face negra, como quase nunca a vemos. E sua principal característica é a falta de fronteiras para o capital estrangeiro, que circula livremente entre os países, sem pedir autorização. O dinheiro é aplicado nas mais diversas nações, ao bel prazer do investidor e, quando menos se espera, um investimento pode ser cancelado ou adiado, para aportar em outros locais com lucros mais atraentes.
E o turismo não escapou da insanidade e fome de dividendos dos proprietários do capital internacionalizado (ou globalizado), como veremos adiante. O importante é sempre o lucro imediato, que dê retorno ao investidor. A cultura e o sentimento da população nativa, residente no local escolhido para os empreendimentos globais, não têm importância.
Com a força do dinheiro é possível obstruir até mesmo o andamento da justiça, que incentiva os indivíduos a migrarem para áreas onde o interesse comercial não tenha chegado ainda.
Em busca deste lucro, o turismo predatório (como poderíamos chamar este tipo de investimento), apodera-se da cultura, da música, dos costumes, do estilo de vida local, da comida e de tudo o que possa ser considerado exótico, novo, que chame a atenção do turista. Coloca-se um invólucro em todos esses bens e cria-se um «pacote», que será vendido a preços exorbitantes.
Ao habitante local nada fica de lucrativo, resta a ele contentar-se com a leva de estranhos, que entram e saem de sua comunidade, sem sequer pedir licença. Afinal, tudo é, supostamente, para o bem de todos, e a receita é vender o desejo de ser conhecido, de fazer parte de um mundo sem fronteiras, o «quente» é estar antenado.
Neste processo de verdadeira invasão de privacidade, o que é do dia-a-dia, a vida trivial, as relações interpessoais passam para um segundo plano, quando não são esquecidas, ou mesmo rejeitadas.
E assim uma vila pacata passa a ser roteiro de ônibus, vans ou microônibus, que levam e trazem gente para ver, comprar, fotografar; gente esta que não se mistura à população local, não experimenta a simplicidade do cotidiano, não interage nem aprende, também não ensina nada, não troca experiências com quem ali habita.
E neste complexo processo o lugar vai se transformando em não - lugar, perdendo suas características de lugar social, de local de convivência, perdendo sua história e sua identidade. Vai alienando os residentes, já que os visitantes estão alienados, dado que não mais reagem como deveriam, já que não se emocionam quando presenciam cenas mais humanas.
Afinal, há muito tempo estão «passando» por lugares, «fotografando» e enquadrando as paisagens, sem outra preocupação que não seja o simples prazer de ver. São como voyeurs...
Cidades inteiras são resumidas, assim, a um único símbolo, a uma torre, a uma estátua... Tudo mais, sua história, suas dificuldades, a má distribuição da sua riqueza, sua trajetória, vocação, peculiaridades, nada importa... Tudo se resume a um tour pela cidade, de charrete, de cavalo, de ônibus ou mesmo a pé, sob a tutela de um guia que, muitas vezes, só sabe repetir a mesma história memorizada há muitos anos...
O turista, neste processo, também se transforma em uma coisa, sendo levada, trazida, hospedada, alimentada, etc. Ele é nada mais nada menos do que mais uma peça dessa engenhosa estrutura que tem por finalidade abocanhar essa fatia do mercado, que dá dinheiro e lucro.
Mas, felizmente, há ainda um outro tipo de turista. São aqueles que param, perguntam, viajam sozinhos e descobrem a cidade caminhando e agindo/interagindo com a comunidade local...
Então, o não - lugar retorna à sua origem e se transforma em lugar, num lugar que já não atende mais aos interesses do turismo, que vai criar outros atrativos, na mesma cidade ou em outra, novos ambientes, novos roteiros, a fim de não perder o nicho de mercado.
E novas cidades, vilas, praias, países vão sendo explorados em benefício do lucro...
O que pode reverter todo este processo é a conscientização do profissional do turismo, no sentido de que ele não deve apenas vender o «pacote» ao turista, e sim passar informações que o façam refletir, que o oriente na obtenção de dados em relação aos locais, que o integre com a comunidade, trocando experiências, adotando novas atitudes, levando e trazendo cultura, num intercâmbio que poderá ser proveitoso para ambos os lados.