Pagª 18 - EDIÇAO NºXXVII , Vº NUMERO DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Coluna de Liliana Josué

HARPEJOS DE FELICIDADE
Naquele dia, apetecia correr despidos em direcção ao vento.
Escorregar num raio de sol até ao mar, tão transparente como olhares
serenos.
O escuro dos desgostos, crueldades e traições ficaram pendurados nas
portas dos quartos abafados.
Dançava no ar a esperança da renovação; o reencontro com a vida.
Bocas sorriam no vermelho das suas cores: Cerejas doces e cravos de
Primavera.
Todas as mãos eram asas batidas de pássaros felizes, dando-se como
ninhos macios.
Os corpos, nuvens brancas e suaves, deslizavam no sonho efémero do céu
libertador.
O paraíso abria-se generoso.
Perfumes raros desprendiam-se dos cabelos, apaziguando outros odores.
Como era lindo o mundo, naquele dia.
Mas foi só naquele dia...
Porquê só naquele dia... ?
TRIUNFO DA REVOLTA
Há-de chegar o dia das manhãs serenas
bucólicas
amenas
em que a raiva já não rasgue
meu peito
na revolta que se segue
à injustiça sofrida e sem jeito.
Não quero amarras sombrias
correntes frias
crias
duma gestação programada
pela revolta do ontem, do hoje
e, quem sabe, do amanhã .
Revolta que sai fria, destilada
de toda a esperança que foge
enjeitada
abocanhada
no mundo do nada.
Há-de chegar o dia das manhãs serenas
onde andorinhas voarão
jamais em vão,
isso não.
Em que a existência de mim mesma
não me faça cativa
dum gesto que existiu
floriu
sorriu
e mentiu.
Não quero uma vida fria
enredada por abismos
que meu suor construiu
num remoer de existência
em teimosa imprudência
que o mundo me consentiu.
Há-de chegar o dia das manhãs serenas
onde as flores serão tantas
e as cores tão vigorosas
pendentes dum frágil caule,
que essas doçuras pequenas
transformarão
meu rasgão
de solidão
em atitudes e vontades vigorosas
onde esta inércia imbecil
fará parte dum passado estrangulado
por mãos protectoras de alguém
sem rosto
e sem dimensão
mas cantando-me por gosto.
Há-de chegar o dia das manhãs serenas
onde por inteiro, escorraçarei minhas penas.
Coluna de Rosa Pena

Tanto faz como tanto fez
Eu não sei se hoje você vem. Tanto faz como tanto fez. Na dúvida, coloco a mesa
para dois. Pratos de porcelana e copos de cristal, jamais pratos de plástico ou
copos de requeijão. Você odeia! A água ferve e a massa vai ter que esperar, ela
também não sabe se você vem, mas para ela não vale tanto faz como tanto fez.
Você gosta do talharim recém-saído do fogo! Separo o alho e o manjericão, jamais
tomate. Você odeia! Escolho duas xícaras para o café do depois. Coloco água na
chaleira, tiro o velho bule da prateleira, escondo o Nescafé. Você odeia café
solúvel! Destranco a fechadura e deixo a porta apenas batida. Você odeia portas
trancadas! Eu juro que não vou tentar ouvir seus passos no corredor, mas na
dúvida coloco um som. Você adora o Caetano!
Será que algo mudou?
De sua vida agora pouco sei. Não tenho quase vez no seu presente, não vejo mais
seus sorrisos incrédulos nos comerciais da TV, não ouço seu ronco insuportável,
não mais me afogo nos pêlos do seu peito, nem adivinho as surpresas do seu
olhar. Não sei quem faz sua comida, muito menos quem ganha a velocidade de sua
língua.
Quinze para meia-noite. Guardo a louça, tranco a porta. Cala essa boca Veloso!
Não tenho fome, apenas uma vontade imensa de tomar café com uma bolacha banhada
nele. A água esquentou há um bom tempo, bem que assobiou avisando da fervura,
mas eu não quis ver nem ouvir. Desliguei sem dar bola. Agora esfriou. Não se faz
café com água fria. O jeito é arrumar outro quente. Eu adoro bebida pelando!
O rapaz do oitavo andar (que você odeia!) tem aparência de instantâneo. Um
Nescafé bem feito é quase igual a um expresso. Quem sabe não é o da meia-noite?
Ele tem cara de quem também aprecia molhar o biscoito.
Qualquer dia eu lhe conto o que ele tanto faz que você não fez.
No Voy Apagar
Deixo acesa a luz.
Ela não sacia minha sede
do toque dos seus lábios
nem do seu perfume
fator maior dos meus queixumes.
Apenas me faz menos carente
do seu corpo ausente.
As sombras que ela produz
faz com que eu invente
você presente.
FOME E SEDE
Liliana Josué
Deus deixa-me sonhar
mas só às vezes
porque na brusquidão
das suas insondáveis decisões
dá o que tira
e tira o que dá...
ou é erro meu de interpretação
por não ser eu de cá ?
Imagine-se ter a veleidade
de pensar que sou feliz
(mas há quem acredite e o diz).
Nos novelos farpados da minha vida
iludo com bolachas
de água e sal
o meu vazio.
E com restos de «comida»
deixada por outros
alimento minha força.
A sede sacio-a nos pingos
das minhas lágrimas
(mesmo sabendo a sal).
Que tenho eu afinal?
Apenas dignidade postiça?
Porque aceito tanta injustiça?
Eu sei que sou animal
mas racional.