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Pagª 17 - EDIÇAO NºXXVII , Vº NUMERO  DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   



PASSEIO PELO BOSQUE

Conto Infantil 
Por Ilona Barros

Agora o tempo passa a correr, pois não mais acontecem as longas perseguições dos cães, nem as frias chuvas do Inverno. Todos os dias o passarinho vai visitar a coelhinha Magui, que com o tempo já aprendeu a andar, a falar e… a fazer traquinices, o que causa alguma preocupação aos seus pais.

No dia em que a Magui completa dois meses, os pais resolvem levá-la a dar um passeio pelo bosque. Querem que a filhinha conheça alguns dos seus amigos, e desejam também que possa apreciar a beleza do arvoredo em pleno Verão.

Começam por apresentá-la às duas irmãs coelhinhas Castanha e Avelã, mais conhecidas por Nana e Lalã. Juntas, brincam com entusiasmo, e as duas manas ensinam à pequenina muitos jogos e brincadeiras. Depressa Magui se deixa encantar pela alegria de Nana e Lalã, de quem se torna amiga, e quando os pais vêm avisá-la de que está na hora de continuarem o seu passeio, a coelhinha fica muito triste, pois não quer separar-se das amigas.

- Para a próxima vez brincas mais – diz a mãe para a consolar, enquanto se despedem daquela simpática família.

Pelo caminho, Magui não se afasta dos pais, e por vezes assusta-se quando um animal desconhecido surge de um carreiro ou por detrás de uma árvore. O pai explica-lhe quem é cada animal, quais são os amigos, e quais devem ser evitados.

Ao virarem uma moita, encontram-se em frente à casa do senhor mocho Alberto, que por ter sido avisado da visita se manteve acordado.
- Bom dia a todos! – saúda ele, com uma voz um pouco sonolenta. – Como têm passado?

- Bem, muito obrigado – responde Francisco, o pai coelho. – Viemos mostrar-lhe a nossa Magui.

- Oh! Sim senhor! Como cresceu desde a última vez que a vi… - diz o senhor mocho, amável e vagarosamente. – Sim senhor!

Ao ouvir isto, Magui solta uma alegre gargalhada:

- Ah! O senhor mocho … é a primeira vez que me vê… Ah! Ah!

- Chiu ! Magui… - repreendem o pai e a mãe ao mesmo tempo, enquanto o senhor mocho Alberto, muito atrapalhado, se desculpa:

- Oh! Na verdade… sim. Naturalmente, eu ainda não a tinha visto, mas tinham-me contado que…

- Senhor mocho, não se preocupe que a Magui estava a brincar… - diz o pai coelho.

- Na verdade... sim… sim! – consegue o senhor mocho gaguejar.

- Bom, agora temos que continuar as nossas visitas – despede-se a mãe coelha - Até à próxima!.

Ao vê-los afastarem-se, o senhor mocho suspira fundo, aliviado com a inesperada partida.

Quanto ao senhor coelho Francisco, envergonhado com o comportamento da filha, repreende-a:

- Magui, acho melhor que na próxima visita não te portes mal, e que não faças comentários pouco educados.

- Sim, papá... – responde a coelhinha, muito triste. – Eu disse aquilo só porque era verdade e …

- Está bem, mas agora silêncio, porque estamos a chegar a casa da dona tartaruga. – recomenda a mãe, ao mesmo tempo que levanta a pata e bate à porta de uma casinha branca com telhado vermelho.

- Toc! Toc! Toc!

De dentro de casa ouve-se o arrastar de patas, o abrir dos ferrolhos e, por fim, a porta entreabre-se.

A cara da tartaruga aparece e uma voz roufenha grita:

- Quem é? Não são ladrões?!...

A senhora coelha Marina e o senhor coelho Francisco entreolham-se, sorrindo, e respondem:

- Não, não somos ladrões. Somos a Marina e o Francisco!

Então, a porta abre-se completamente e a dona tartaruga cumprimenta os visitantes.

- Desculpem a desconfiança, mas todos os cuidados são poucos. Cá no bosque há muitos gatunos, muitos! Sabem lá o que me aconteceu no outro dia…

E conta uma história de polícias e ladrões, que é na verdade o seu assunto favorito, o único que realmente a entusiasma.

A dona tartaruga vive no bosque há muito, muito tempo, e tem tantos anos que já se perdeu a conta à sua idade. Ela própria deixou de festejar o aniversário desde que completou os cem anos. Ah, e isso já aconteceu há alguns Invernos atrás!

Apesar do seu comportamento um pouco excêntrico, a dona tartaruga tem um bom coração e gosta de ser amável com todos… excepto com os ladrões, naturalmente. Decerto desmaiaria de vergonha se reparasse que não tinha convidado a entrar na sua casa a família coelho. Mas não reparou, e , por isso, durante quase uma hora, Magui e os pais ouvem, sem uma única interrupção, aquela formidável história sobre o roubo do seu chapéu de palha com a fita azul.

Quando a história termina, eles apressam-se a despedir-se, antes que a boa da tartaruga avance para outra emocionante aventura.

- São já sete horas! – exclama a mãe, olhando para o seu relógio, com espanto. – Não temos tempo de visitar mais ninguém hoje. O melhor é voltarmos para casa.

O pai concorda imediatamente, e a Magui fica satisfeita, a pensar nas deliciosas cenouras que a mãe vai estufar para o jantar.

Assim, a família Coelho regressa a casa, cumprimentando, pelo caminho, os animais amigos que vão passando.

Ao deitar-se, Magui sente-se muito cansada, mas satisfeita, e certamente vai sonhar durante toda a noite com o seu belo passeio pelo bosque.

 

A Menina do dragãozinho que fazia magia

Por Maria Petronilho

 

 

 

Em meio ao silêncio, soaram uma leves pancadinhas na porta...
Tão suaves eram, que pensei serem engano dos meus ouvidos.
Levantei a cabeça do caderno em que escrevia, e :
«Toc-toc-toc» – de novo!

Levantei-me e fui ver, espreitando pelo olho de vidro da porta: Nada!
«Toc-toc-toc» – As pancadinhas soavam baixinho, mesmo do outro lado da madeira, que coisa!
Abri a porta, curiosa.

Vi uma menina, de vestidinho cor-de-rosa, fora de moda, como os da minha infância:
Franzido na cintura, manguinhas curtas de balão, um grande laço atrás. Cabelo cortado a direito, olhinhos castanhos enormes, líquidos de inteligência e vivacidade.  Sorri.

Ela sorriu também e foi como se se tivesse derramado entre nós um perfume de alfazema!
Sem ter de lhe perguntar, já ela ia respondendo num gesto: estendeu os braços, segurando nas mãos ambas um cesto de vime redondo, com tampa.

- Dás-me um Euro se te mostrar o que tem dentro? - Murmurou.
- Claro que dou, disse eu! E uma fatia de bolo!
- E uma laranja fresquinha, tens?
- Tenho sim! Posso arranjar um lanchezinho e arrumá-lo no teu cesto.

- Não! Não podes!
- Porque não posso?
- O cesto está ocupado, não te disse antes? Só o abro se me deres um Euro!
- Pronto, pronto! – Disse eu. E ia voltando costas, a caminho da cozinha...
- Ei! – Disse a menina, antes que eu sumisse – E o Euro?

- Já te dou; vou à cozinha. Entra, se quiseres!
- Não quero. Quero um Euro e uma laranja fresquinha.
Depois, muito baixinho:
- E a fatia de bolo. Cheira tão bem! Fizeste-o agora mesmo, não foi?

- Foi! Tirei-o agora mesmo do forno.
- Então dás-me duas fatias?
- Tens muita fome? Queres um copo de leite?
- Não! Leite com laranja azeda, não sabes? Só quero o que combinámos.
- Ai, ai, que teimosa me saíste! Vou procurar a moeda. Primeiro a moeda ou o lanche?
- Primeiro a moeda! – Afirmou, quase arrogante.
- Porquê primeiro a moeda?
- Porque estraga mais depressa.

- Estraga-se mais depressa do que a laranja e o bolo? – Estranhei. Como me explicas tu isso?
- Ah, eu explico: É que daqui a pouco já quase nada se compra com um Euro!
- E que vais tu comprar com o Euro?
- Não sei. Vou dá-lo à minha mãe, que está sempre a dizer isto ao meu pai.

E o meu pai discute com a minha mãe. Por isso tenho pressa. Preciso muito do Euro! Dei-lhe a moeda. Abriu o cestinho. Dentro, um dragãozinho de plástico verde e amarelo.
Arregalei os olhos pasmados.

Ela levantou o brinquedo e juntou a nova moeda a outras que estavam no fundo.
Fechou cuidadosamente o cesto e disse séria:
- Sabes? Assim o meu dragãozinho faz magia.
- Pois faz! – concordei. Se pedires um Euro a cada pessoa...

- Vês, como percebes? Já não era sem tempo... ufa!
- E porquê a laranjinha fresca?
- Para a minha mãe, que espera um bebé e precisa de vitamina.
... Fui para a cozinha, estendi um pano na bancada, assentei um prato no meio e arrumei nele bolo, fruta, pacotinhos de sumo. Atei as pontas em cruz, como vira tantas vezes a minha mãe fazer, que nunca deixava um pobre sem um prato de comida.

Tinha-me esquecido da força da solidariedade silenciosa, no deserto de cimento onde berram de todos os lados: Compre! Compre! Compre!
E nos agridem a cada instante com preços, com cotações, promoções, anúncios de bens supérfluos. Nos assustam e envenenam com apelos ao consumo desenfreado.

No oposto, a suavidade de um «toc-toc-toc» na porta.
Uma menina com vestido cor-de-rosa e um dragãozinho de plástico que faz magia pelo modesto preço de um Euro. A inteligência ensinando a todos o modo sublime de contribuir para a paz.