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Pagª 21 - EDIÇAO NºXXVI , IVº NUMERO  DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

 O PARNASIANISMO DE FLORBELA ESPANCA

 (Continuação - ver Início)

De acordo com tais cânones, Bilac tornou-se o cinzelador dos sonetos talvez mais perfeitos da língua, na tradição de Bocage, com decassílabos rigorosos, imagens sóbrias, riqueza métrica, de suma elegância e sonoridade, que conquistam o leitor sobretudo por se aliarem a um sensualismo ardente, óbvia impregnação das teorias realistas.

Olavo Bilac

Língua Portuguesa

Ultima flor do Lácio, inculta e bela,

Es, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela... (...)

Este poema de Olavo Bilac poderia muito bem ser emparelhado a alguns de Bocage, pelo que achamos útil fazer aqui algumas referências a Manuel Maria Barbosa Du Bocage, socorrendo-nos em primeira fonte de António José Saraiva e Oscar Lopes:

«(…) A arte versificatória (de Bocage) sobretudo o soneto, tem tido muitos admiradores, entre os quais se destaca o parnasiano brasileiro Olavo Bilac. (…) O que o distingue melhor é a matéria psicológica que traz pela primeira vez à poesia portuguesa: o sentimento agudo da personalidade, o horror do aniquilamento na morte. (…)»

De reparar aqui, a este tema voltaremos as vezes que tal se torne necessário, que existe já neste iniciar de corrente psicológica, uma negação ainda que ténue do regresso à terra (feitura em pó difundido pela religião) e a referência a um desejo de imortalidade, que atravessa todos os séculos mas que aqui se reveste de características muito específicas.

Não se aceita a ressurreição pura e simples do cristianismo imperante, mas sim uma continuidade imediata da vida ainda que sob forma não física.

O medo da morte só existe se ela não representar algo que continua de forma imediata para além dela, ou seja, um renascimento ainda que o processo implique uma redução transitória ao nada. E esta problemática encontra-se expressa um pouco em toda a escrita de Florbela Espanca ( especialmente nas suas referências à Fénix ).

Continuando com Bocage…«(…)Tal egotismo percebe-se ainda na maneira abstracta e retórica com que, em nome da Razão, se revolta contra a humilhação da dependência e contra o despotismo; no gosto do fúnebre e do nocturno, e nos clamores não menos retóricos de ciúme, de blasfémia ou contrição…) Esse gosto tão romântico do funéreo e tenebroso percorre grande parte da poesia de Bocage.(…) Não se sabe em que medida isto é simples saborear de uma estética (dantesca, shakespeariana, e, então, romântica) do locus horrendus que vira do avesso o locus amoenos do pastoralismo clássico; em que medida o poeta é efectivamente presa de uma obsessão irracional incontrolável, uma espécie de pavor sagrado à procura de imagens; ou em que medida isso traduz uma ânsia, ao mesmo tempo inextinguível e medrosa, de abarcar numa consciência humana todos os medos e dores que ela, espontaneamente, evita, que ela mal enfrenta sem se desagregar. (…) O egocentrismo de Bocage, manifestado em constantes vocativos a Elmano, ao Desgraçado, em constantes pronomes na primeira pessoa, na sua confiança em renome póstumo, no próprio auto-retrato do famoso soneto «magro, de olhos azuis, carão moreno» e de outras poesias (…)»

Fazemos aqui referência a um aspecto igualmente recorrente numa parte substancial dos poetas e autores desta corrente psicológica: O renome póstumo.

Este aparece talvez como a última forma possível de continuidade para além da morte, mas seria demasiado fácil aceitar-se que o objectivo profundo de tal reclamação seja exclusivamente ou só isso mesmo.

Vendo o Diário de Florbela do dia 24 de Janeiro de 1930 encontramos esta referência:

«(…)O Diário de Maria Bashkirtseff é qualquer coisa de profundamente triste, de tragicamente humano. Só não compreendo naquela grande alma o medo da morte. O espectro da morte, a ideia da morte, apavora-a, espanta-a, indigna-a. É a sua única fraqueza :«Il faudra donc mourir, misérable. Mourir ? J’en ai très peur…Et je ne veut pas…Je veux vivre, moi, quand même et malgré tout…Mon corps pleure et crie mais quelquer chose qui est au-dessus de moi, se réjouit de vivre, quand même… »

Mas que imensa alma ! Queria o amor, queria a glória, o poder, a riqueza, queria a felicidade, queria tudo. E morreu com pouco mais de vinte anos, gritando até ao fim que não queria morrer.

Como não compreendeu ela que o único remate possível à cúpula do seu maravilhoso palácio de quimeras, de ambições, de amor, de glória, poderia apenas ser realizado por essas linhas serenas, puríssimas, indecifráveis, que só a morte sabe esculpir?

Os seus vinte anos não chegaram a compreender o alto e supremo símbolo das mãos que se cruzam, vazias dessa maré de sonhos que a vida, amargo fluxo e refluxo, leva e traz constantemente.

Princezinha exilada, porque não soubeste tu murmurar, encolhendo os ombros, o teu doce e sereno «nitechevo» de eslava?"(…)»

Contudo, o que se assiste aqui é a uma interpretação (provavelmente motivada por edições pouco fiéis do Diário de Maria Bashkirtseff que só nos anos 60 deste século foram devidamente depuradas) que realçam a chamada fase da recusa da mesma artista confrontada com a tuberculose incurável na época, desvanecida esta ideia por afirmações posteriores da mesma onde se nota, não propriamente um elogio da morte (ou do estado de morte) como o faz Florbela, mas sim a uma aceitação da inevitabilidade e o desejo de ficar conhecida (para além da morte) quanto mais não seja através das afirmações contidas no seu diário. De qualquer forma não deixa de ser sintomático que a observações de Florbela se debrucem preferencialmente (com edição menos clara ou não dos Diários de Maria Bashkirtseff) sobre este plano que lhe é tão caro, a morte familiar, a morte familiarizada, a morte companheira.

«(…) Em Agosto de 1928, cerca de um ano depois da morte do irmão, Florbela Espanca tenta suicidar-se. Segue-se uma segunda tentativa de suicídio em Novembro de 1930. No dia 8 de Dezembro desse mesmo ano, no dia do seu aniversário (já o seu casamento se havia realizado nesse mesmo dia) foi encontrada morta num quarto em Matosinhos. Debaixo do colchão foram encontrados dois frascos de Veranol, ou seja do farmáco que tomava para conseguir dormir (…)».

Florbela fez assim duas tentativas conhecidas de suicídio e acabou por falecer cerca de um mês depois da sua segunda tentativa de suicídio. Nos tempos modernos a ideação suicida e a patologia que lhe estava agregada teria sido detectada por qualquer médico ou psiquiatra.

Contudo também para Maria Bashkirtseff a morte não será nunca o nada…poderá sim ser o pouco uma vez que ela nunca saberá que foi precisamente a publicação do seu diário que a tornou conhecida muito para além da sua obra como artista.

(…)«Je meurs, c'est logique, mais horrible. Il y a tant de choses intéressantes dans la vie!»

«À quoi bon mentir ou poser? C'est évident que j'ai le désir sinon l'espoir de rester sur cette terre par quelque moyen que ce soit. Si je ne meurs pas jeune, j'espère rester une grande artiste, mais si je meurs jeune, je vais permettre de publier mon Journal qui ne peut être moins qu'intéressant». (…) In Diário de Maria Bashkirtseff .

Contudo, e regressando a Olavo Bilac, o espírito e o cuidado da poética que fundamenta o espírito e a prática do parnasianismo são declaradamente expressos neste clássico a que sugestivamente é dado o nome de Profissão de Fé:

Profissão de Fé

Le poète est ciseleur,

Le ciseleur est poète.

Victor Hugo.



Não quero o Zeus Capitolino
Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
Com o camartelo.

Que outro – não eu! - a pedra corte
Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte
Descomunal. (...)

Ora, o parnasianismo, com o seu cinzelado formal e aparecendo como reacção ao romantismo é, desde logo, uma estética de elite para elites, donde se destaca desde logo também da poética de Bocage acusada, apesar do seu hermetismo formal e temático, de se afastar o suficiente do elitismo formal ( caindo por vezes na rua, que é, nesta época, o Romantismo ).

Florbela Espanca, não tão aprimorada como Bilac é, de facto uma cultora da forma. Urbano Tavares Rodrigues aponta-lhe algumas rimas forçadas...mas os seus versos, por exemplo, são todos decassilábicos o que não quer dizer muito mas serve como exemplo da existência de algum rigor formal na sua escrita e serve mesmo de informação sobre o facto de Florbela não sofrer de uma Depressão bipolar ( vulgo maníaca - depressiva ). O rigor da forma é incompatível com esta patologia...

Aliás, Nuno Júdice, referindo-se a este facto, ao formalismo Florbeliano, diz: « Florbela adopta um modo de expressão, o soneto decassilábico, consagrado por um uso que vai de Camões até Antero de Quental – o que torna tanto mais excepcional o seu caso, uma vez que ela consegue, de facto, revitalizar esse género poético.»(…)

Contudo, torna-se para mim evidente que Florbela sendo Parnasiana pela forma, nada um muito pouco tem de facto com a envolvência psicológica dos parnasianos.

 

 

 


    
VER E SENTIR


                  
Cristina Maia Caetano
   (XXVI)

É sabido, que a natureza tem a sua própria regra, linguagem e código. Mas, é a cada um de nós, que cabe interpretar as inter-linhas dessa «dádiva divina», aproveitando com sabedoria e inteligência a sua «delicada essência». As flores são bem o exemplo disso. Num jardim exterior, em vasos dentro de casa, devem ser sempre cuidadosamente tratadas e mimadas. Qualquer que seja a sua cor, no Feng Shui, considera-se que plantas e flores devem ser colocadas de acordo com as áreas da vida que cada um deseja revitalizar, dado serem extremamente benéficas, encorajando abundâncias energéticas de Chi.

Assim, se em dada habitação, os ocupantes desejam proteger os membros da família de acidentes e mantê-los com boa saúde, os dentes de leão são as ideias para esses fins, que para além disso ainda podem favorecer a mesma família com um bom dinheiro. Se o objectivo for com dinheiro relacionado, o azevinho serve com perfeição tal melindrosa incumbência. Se antes, a família quiser uns filhos sempre saudáveis, a escolha deverá então recair para as begónias. E como a amizade e o afecto são factores indispensáveis na boa harmonia familiar, o jasmim, é sem dúvida uma mais valia em qualquer relvado ajardinado de uma qualquer casa.

Aliando a «espécie» à cor, é também possível depreender vários e distintos significados. Se os gerânios vermelhos atraem a prosperidade, já os gerânios brancos garantem paz de espírito, encorajando ainda sonhos agradáveis. Na senda da espiritualidade, também o narciso amarelo tem as suas qualificações que permitem o encorajamento da abertura de espírito, a generosidade e a comunicação.

Se, agora, olharmos para a enorme variedade de rosas, verificamos que cabe às rosas brancas verem o essencial de uma situação, às amarelas desinibirem discussões intelectuais e aprendizagens e, às vermelhas simbolizarem a beleza. Quanto à verdadeira ex-líbris do amor não é a tão «apregoada rosa cor-de-rosa», mas de facto, a bonita e elegante tulipa vermelha. Já a malva-rosa, é por si só um bom símbolo de fertilidade. Se antes, se pretender estabelecer e manter o equilíbrio entre as mais variadas relações, as eleitas serão indiscutivelmente as centáureas azuis.

Continuando a percorrer este magnífico «mundo florido», verificamos que aqui tal como em outras áreas da vida, há sempre o preferido, principal ou essencial. Nessa perspectiva, o pódio vai para a peónia (sobretudo quando floresce), com o seu simbolismo intenso impregnando riqueza, honra, amor e grande fortuna.

Em segundo lugar, representando a felicidade e o riso, vêm os crisântemos, sendo frequentemente espalhados pela casa para simbolizarem e reforçarem uma vida de conforto e de facilidade. Em terceiro lugar e a par, as magnólias brancas e as orquídeas que simbolizam doçura, bom gosto e feminilidade.

Ainda no lote das favoritas, está ainda, a que é a minha «menina dos olhos». Ela é nada mais, nada menos do que a flor sagrada dos budistas: o lótus. Simboliza pureza e para tal compreendermos, basta lembrarmo-nos que esta doce plantinha surgida em águas lamacentas, permanece na superfície, triunfante e esplendorosa. Espalhado pela casa, estimula a paz, tranquilidade, criatividade e crescimento espiritual.

Como vêem, pois, e na boa verdade, tudo tem mesmo um conteúdo e mensagem muito própria e específica…

Lembrem-se pois, de pensarem carinhosamente no assunto e de terem a certeza que o melhor, é mesmo não se fazerem julgamentos...

 

 

A Distância entre nós

Sandra Fayad

Há uma distância entre tu e eu
Que não se mede em quilômetros
Ou horas que o carro percorreu.
Tão pouco é medida em centímetros
Ou segundos que o atleta venceu.

Entre nós a distância é de valores
Limitada por barreiras invisíveis.
Tem diferentes formas de amores
Palavras há tempos inconcebíveis
Com sons ruidosos e novas cores.

Para ti distante é o tempo futuro.
Meu presente faz parte do passado.
Entre ambos ergueste um muro,
E segues apenas de um lado
Mais veloz, porém menos seguro.

Nos auto-serviços vais com afã.
Queres bigs, fanta MAIS quarteirões.
Tua linguagem me parece anã,
Mas sigo à risca tuas orientações
E da janela caem tortas de maçã.

Ainda com o carro em movimento
Desembrulhas tudo com facilidade.
Abocanhas pão sovado, regas condimento,
Enquanto percorremos a cidade,
Comes fritas e refri vais sorvendo.

Fascinada com tudo na verdade,
Percebo como é difícil alcançar-te,
Mas mantenho a pose típica da minha idade
E decido ainda aconselhar-te:
-Coma devagar, para melhor digestibilidade.

(Diplomada pela classificação com louvores, na Categoria «Consagrados», na III Olimpíada Cultural -500 anos da Língua Portuguesa no Brasil, 1º semestre de 2006).

 

Cláustros de silêncios

Maria Petronilho

há claustros nas minha horas
em que vagueio silêncios
aqueles onde me escuto
e em nitidez me vejo
e em maior clareza penso
meus escuros olhos remoço
vivo no tempo absoluto
onde me acho e me amo.
o meu tímido sorriso
dulcifica-me o rosto
todas as tristezas esqueço
ao vaguear, no meu claustro