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Pagª 18 - EDIÇAO NºXXVI , IVº NUMERO  DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

 Coluna de Liliana Josué  

HARPEJOS DE FELICIDADE

Naquele dia, apetecia correr despidos em direcção ao vento.

Escorregar num raio de sol até ao mar, tão transparente como olhares serenos.

O escuro dos desgostos, crueldades e traições ficaram pendurados nas portas dos quartos abafados.

Dançava no ar a esperança da renovação; o reencontro com a vida.

Bocas sorriam no vermelho das suas cores: Cerejas doces e cravos de Primavera.

Todas as mãos eram asas batidas de pássaros felizes, dando-se como ninhos macios.

Os corpos, nuvens brancas e suaves, deslizavam no sonho efémero do céu libertador.

O paraíso abria-se generoso.

Perfumes raros desprendiam-se dos cabelos, apaziguando outros odores.

Como era lindo o mundo, naquele dia.


Mas foi só naquele dia...
Porquê só naquele dia... ?


TRIUNFO DA REVOLTA

Há-de chegar o dia das manhãs serenas

bucólicas
amenas
em que a raiva já não rasgue
meu peito
na revolta que se segue
à injustiça sofrida e sem jeito.
Não quero amarras sombrias
correntes frias
crias
duma gestação programada
pela revolta do ontem, do hoje
e, quem sabe, do amanhã .
Revolta que sai fria, destilada
de toda a esperança que foge
enjeitada
abocanhada
no mundo do nada.

Há-de chegar o dia das manhãs serenas

onde andorinhas voarão
jamais em vão,
isso não.
Em que a existência de mim mesma
não me faça cativa
dum gesto que existiu
floriu
sorriu
e mentiu.
Não quero uma vida fria
enredada por abismos
que meu suor construiu
num remoer de existência
em teimosa imprudência
que o mundo me consentiu.

Há-de chegar o dia das manhãs serenas

onde as flores serão tantas
e as cores tão vigorosas
pendentes dum frágil caule,
que essas doçuras pequenas
transformarão
meu rasgão
de solidão
em atitudes e vontades vigorosas
onde esta inércia imbecil
fará parte dum passado estrangulado
por mãos protectoras de alguém
sem rosto
e sem dimensão
mas cantando-me por gosto.

Há-de chegar o dia das manhãs serenas
onde por inteiro, escorraçarei minhas penas.

 

 

Coluna de Rosa Pena

Vida Vagabunda

O filho casado e morando nos States. Será que ele já conseguiu ver algum dos integrantes dos Bee Gees por lá? Achou que com a partida do filho a despesa diminuiria e finalmente Arlindo compraria um DVD. Mas nada de nada, a vida continuou apertada. Pela manhã Ana Maria Braga, o louro José e a maldita faxina que não se acaba, Arlindo não admite um pó. Vontade de matar o louro.

A tarde vale a pena ver de novo velho, a roupa amarelada precisa de sanitária. Arlindo quer o branco total. Os Bee Gees se separaram em 2001, até irmãos se separam, mas para isso é preciso coragem, não a dos Irmãos Coragem, mas a valentia de se resolver só.

Ao anoitecer banho tomado na correria, nem sabe porque tanta pressa.
Televisão bem alta e panela na chapa.
A coroa gostosa deitou com o amante de olhos verdes; é hora de baixar o fogo.
O poderoso pede um vinho de safra; porque a batata não assa?
Explosão da lancha do galã num mar tão azul; o botijão já deu o que tinha que dar.
A gêmea má compra outra roupa nova; carne de segunda sempre fica dura.

Intervalo comercial.

Arlindo chega raivoso como sempre, vai logo levantando a tampa. Dá uma cheirada, faz cara de quem peidou aqui e reclama mais alto que a TV.
—Por que não coloca mais pimenta e aumenta o fogo dessa maldita gororoba?
—Por que não tenta uma vaga com Gilberto Braga?
—Como sempre delirando com novelas. Qual é o nome dessa mais inútil que você?
—Vida vagabunda.
Desliga o aparelho sem pena. É necessário economizar a energia da casa, do coração deixa pra lá. Acho que funciona a pilha, quando acaba a gente vai para o beleléu, sem direito a viver de novo na Globo.

Cenas dos próximos capítulos:

Televisão muda e bule na chapa.
Só um café simples para quem se deu ao trabalho de vir velar o corpo de Arlindo, que morreu subitamente do coração. Andy dos Bee Gees morreu aos trinta, o marido aos sessenta. Vida injusta. Um cafezinho pequeno, assim perto das oito horas a galera se vai, de preferência na hora do Jornal Nacional que é igual ao de ontem ou de amanhã.

Será que a prostituta Bebel volta pro calçadão no capítulo de hoje?
Já não importa mais. Com o dinheiro do seguro poderá comprar um DVD e quem sabe até um telão.

Sábado finalmente terá algum embalo!


Amo Você!

Montei um esquema.
De Pitágoras,
decorei o teorema.
O quadrado da hipotenusa
=
a soma dos catetos?
Elevados a dois, ora pois.

O resultado
deu uma intrusa.
Novamente
fiquei para depois.

Tentei então
traçar sonetos.
Continuei exclusa.

Faço agora este poema
de versos
dispersos
sem rima.

Atina!

Do alfabeto
não necessito de A a Z.
Só quero escrever:
- Amo você!!!

 

CARTA PARA FERNANDO

Sandra Fayad

Fernando,

Li pausadamente teu texto sobre a Bienal do Livro.
Namorei tuas palavras e fotos.
Ri, chorei, emocionei-me, lamentei...
Como lamentei não ter ido até lá!
Desde que soube da tua vinda, pensei:
Ah, valeria a pena por tudo.
Valeria a pena por mim principalmente
Especialmente pelo abraço carinhoso
Que eu ia te dar.
Pelo beijo com sabor de fã,
com cor de amiga,
com cheiro de mulher,
com dom de poetisa
que nunca vai te ouvidar
que, tal como uma compota saborosa,
conserva seus desejos
de contigo um dia estar.