Pagª 4 - EDIÇAO NºXXIV, IIº NUMERO DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Parcelas Coloridas
Exposição de Pintura
Inauguração dia 22 de Maio

A exposição estará patente até dia 5 de Junho de 2009, todos os dias no Jardim
de Inverno do Hospital da Luz
Av. Lusíada 1500 Lisboa - 217 104 400
pensamentos do autor (Pedro Charters d'Azevedo)
Para mim na feitura de uma pintura o que domina é, sobretudo, o processo de escrita a escolha da forma que evite não só a banalidade como erros de estilo.
A dor e o júbilo na criação da obra existem mas em tempos diferentes, a dor no momento da criação e o júbilo no fim da obra completa quando me apercebo que o quadro resultou, e funciona.

O que determina o que vai ser o objecto de arte a que me dedico é aquele momento em que ponho na tela os primeiros traços de tinta, a imagem, o ambiente ou o motivo que determina o seu desenvolvimento.
Klee dizia que a pintura não restitui o visível, torna-o visível, Matisse nunca pintava as coisas mas as relações entre elas, dizia ele. Um e outro, tudo somado, definem, quanto a mim, aquilo a que posso chamar o limite sublime da arte.

O que interessa na pintura não é só criar um objecto por si mesmo desligado do autor, é ao contrário, o Eu está sempre presente na imagem produzida, há sempre um pouco de mim, mesmo quando o quadro nasce, como não pode deixar de ser, de circunstâncias de uma memória pessoal. É em certa medida um filho meu.
As tintas a colocar numa tela tem, sempre, o lugar concreto que é o seu, nos tubos e frascos. Mas numa tela os tons, as cores, a sua frequência, a sua cadência o seu lugar no espaço da tela, a orientação o estilo e a forma que elas proporcionam integra-se no resultado de um efeito de memória, cadência e ritmo que toda a obra transporta: por instantes para quem observa parece que se perde o sentido próprio, e está «livre» para receber qualquer outro sentido.
A obra de arte transporta esse efeito: é o apreciador ou comprador de arte, que nas sucessivas «leituras» do mesmo quadro, pode fazer isso. Por isso um quadro nunca se esgota num sentido, ou numa interpretação.
Num quadro nunca é a redução do Eu mas um alargamento para os outros do que, a princípio pode nascer apenas de um. Assim uma obra deve integrar a expressão afectiva num enquadramento reflexivo, ou num espaço de meditação que anule a simples efusão sentimental.

Sónia Tavares, Amália Hoje - A Gaivota
Projecto de Nuno Gonçalves (The Gift) e Fernando Ribeiro (Moonspell).
(...)
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
(...)
nuno gonçalves
Havia um objectivo... Ao início fomos de alguma forma intimidados pelo peso do Fado. As canções que Amália cantou. Era fado. Ela simbolizava o Fado. Mas Hoje, ao olhar atrás, ouvindo os discos, analisando tudo o que a Amália fez «conseguimos» perceber que Amália era muito mais que Fado.
Era muito mais que um estilo pontuado e apoiado por duas guitarras e um vestido negro. Amália... O que era para mim Amália... Amália foi a primeira e talvez única artista Pop que Portugal teve. Porque ser Pop é não ter fronteiras. Ser Pop é respirar aquilo que se canta.
Hoje consegui perceber que as canções eram obras históricas de cultura pop.
Cultura Pop. Amália era a capa dura que cantava. Amália era a voz. Mas atrás das
letras, do tom triste e melancólico haviam melodias, harmonias que queriam mais
espaço que umas tristes duas guitarras. As canções que Amália cantava tinham
cor. O resto era estética. Na sua essência Amália era Pop. E foi assim que
decidimos criar os Hoje.
Mais que Fado. Muito mais que Fado. Hoje é um País novo. Hoje é dizer ao mundo
que Amália era Pop. Se ninguém ainda tinha pensado nisto... Ao escutar as
canções que escreveram para Amália desde logo imaginei texturas pop. Um elogio à
canção cantada em Português. Hoje é um marco. Poderá fazer história mas na sua
essência as canções sempre estiveram aqui. Hoje é um olhar adulto sobre aquilo
que de melhor Amália tinha, cor.
Sei de cor as canções. Elas, as canções, Hoje são vida, esperança e a eterna
saudade que hoje se escreve de todas as cores. Se Portugal é só Fado então o Pop
é a preto e branco. Hoje Portugal tem vozes que conseguem dizer que Amália era
mais que fado.
Amália Hoje é um disco. Reúne três vozes distintas. Fernando Ribeiro dos
Moonspell, Paulo Praça de mil e um projectos e Sónia Tavares dos The Gift. São
produzidos, idealizados e arranjados por mim que antes de ser dos The Gift
sempre fui Português.
Amália Hoje é um disco. Canções que vivem para alem dos vestidos pretos e das
guitarras Portuguesas. Hoje é um grito. Hoje é um dizer basta. Amália é muito
mais que fado. Amália é pop e este disco será a prova que Fado é redutor para a
voz que brindou o mundo e ainda mais redutor para os compositores que imaginaram
as melhores canções pop de sempre da história da música portuguesa. Hoje é um
veiculo pop sem fronteiras nem barreiras, sem concepções nem travões. Hoje é
aquilo que quisemos que Amália hoje fosse.
Hoje somos todos aqueles que acham que Portugal é muito mais que aquilo que se
mostra. Hoje é história. Hoje somos todos nós.