Pagª 12 - EDIÇAO NºXXIV , IIº NUMERO DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Transporte Intermunicipal - II
Susto não mata e morto não fala.

As estradas não tinham pavimentação, eram de leito natural. Isto, mais ou menos em 1947 ou 1948.
Semana de chuva. Caputera era um lugarejo que pertencia ao
municÃpio de Laguna, banhado pela Lagoa de ImaruÃ, vila de
pescadores, assim como outro lugarejo próximo, chamado Perrixil.
Como não era surpresa, no transporte de passageiros carregava-se
no bagageiro externo do teto do ônibus, cercado de grades e uma
escada de acesso para subir, cargas e objetos incomuns.
Um cidadão, morador de Caputera, estava a aguardar o horário de
ônibus que saÃa de Laguna para Imbituba, pois Caputera e
Perrixil eram lugarejos ao longo da estrada, entre os dois
municÃpios. Um dos passageiros, perguntou a meu pai:
- Seu Ângelo, posso levar um caixão de defunto para enterrar o
meu pai amanhã?
Meu progenitor, sabendo que havia falecido um cidadão da
Caputera, deu permissão.
O ataúde foi confeccionado em Laguna e tinha aquela
caracterÃstica horrorosa. Mesmo que o falecido fosse bem
afeiçoado, dentro daquele caixão coberto de preto com faixas
amarelas, não tinha defunto que ficasse bonito. A sinistra
bagagem foi colocada na parte externa superior, no bagageiro.

À hora da saÃda, com o ônibus lotado, estava a garoar. Na
estrada, um passageiro deu sinal para o ônibus parar, mas foi
avisado de que não havia mais lugar, a não ser no bagageiro, lá
em cima. Devido à intensa garoa, o passageiro meteu-se dentro do
caixão, já que o mesmo estava vazio.
Como naquele tempo não existiam paradas oficiais para ônibus,
mais um passageiro à beira da estrada deu sinal e o veÃculo
parou. O motorista avisou:
- Está lotado, só há lugar no bagageiro, e lá em cima tem um
caixão de defunto.
A altura dos ônibus antigos era bem menor que os de hoje. As
estradas tinham muretas de areia ou saibro, com altura de
oitenta centÃmetros a um metro, com rasgos para a drenagem das
águas.
Assim que o passageiro subiu, deu sinal de que o ônibus podia
seguir. Já percorridos uns 50 metros, o passageiro protegido da
chuva pelo caixão, levantou a tampa e perguntou para o outro:
- Ainda chove?
O passageiro que ouviu a pergunta, aproveitou que o ônibus
estava em baixa velocidade, e que a altura do veÃculo era pouca
e não contou tempo; saiu correndo e gritando.
Meu pai, perguntou:
- O que foi que aconteceu? E o passageiro respondeu:
- O defunto está vivo.
Meu pai parou o ônibus para ver o que acontecia. Perguntou ao
que tinha sido protegido pelo caixão:
- O que está a acontecer? E ele respondeu:
- Eu perguntei se ainda chovia...
A muito custo o passageiro assustado voltou, depois de ter sido
avisado e garantido de que não tinha morto nenhum dentro do
caixão.
Com sorriso amarelo e os olhos arregalados, ele disse:
- Ainda bem que susto não mata e que morto não fala!
O Dono da Bola
Por: Denise Poenise Severgnini
A gurizada jogava bola num campinho improvisado próximo as suas casas. Era a diversão favorita dos moleques. Todos eles eram oriundos de famÃlias carentes.
A bola, coitada, já estava muito desgastada, mas ainda
representava a felicidade dos meninos. Nos pés de cada um deles,
ela concebia um sonho de futuro melhor ou quem sabe o surgimento
de um novo Ronaldinho Gaúcho...Quando a falta de dinheiro
rondava um lar, o sonho do menino ser jogador de futebol famoso
aumentava.
Nas semanas subseqüentes ao Natal , uma nova famÃlia mudou-se
para as redondezas. Johnny, filho único do casal que acabara de
chegar , procurara logo a turma do campinho.
Ele ganhara de Santa Claus uma bola oficial de marca famosa. Era esta a oportunidade de usar o presente, já que vivera sempre em apartamento.
A meninada ficara deslumbrada com a beleza da bola apresentada pelo novo amigo. Largaram a pelota antiga num canto e foram formar as equipes para o jogo de futebol.
Todos eram amigos e bons jogadores. Acontece que Johnny era um «perna de pau», o que no jargão futebolÃstico significava um péssimo jogador. Os meninos tiveram paciência de explicar a ele algumas jogadas, mas o garoto também possuÃa o péssimo costume da arrogância e não aceitava auxilio.
Numa determinada jogada, ofendera verbalmente Pedrinho, o garoto mais talentosos do time. Formara-se uma confusão...todos contra Johnny...
O garoto mimado colocara a esfera embaixo do braço e dissera aos
demais:
_ Eu sou o dono da bola! Ou jogam como eu quero ou levo-a
embora!
Os demais meninos olharam-se. Pedrinho pegara a velha pelota
colocara no centro do campinho. Recomeçara o jogo.
Johnny ficara ali parado e sozinho com a sua linda bola nas
mãos...
A triste realidade de uma mãe - solteira em Moçambique

Com a devida vénia ao Jornal Noticias e ao Zambézia Online
Ser mãe solteira ou viúva não deve representar fracasso, muito menos motivo para
discriminação como alguns sectores da nossa sociedade tentam fazer, olhando para
este grupo como factor perturbador da estabilidade social, segundo lamenta a
presidente da Associação de Mães Solteiras e Viúvas de Beleluane, provÃncia do
Maputo, Adélia Banze. Ela apela à sociedade por forma a considerá-las parte
integrante da sociedade e como quem luta para educar seus filhos e pelo
desenvolvimento do paÃs.
O facto é que a sociedade moçambicana, e não só, considera haver algo de errado
quando uma mulher continua a viver na condição de solteira depois dos 30 anos,
ignorando que no mundo moderno ser solteira pode representar uma opção.
Em entrevista ao Noticias, aquela presidente da Associação de Mães Solteiras e
Viúvas, explicou que ser mãe-solteira e viúva nem sempre é sinónimo de fracasso
e avisa que toda mulher casada está exposta a esta dura realidade.
«Nós não escolhemos esta condição, cada uma de nós tem a sua história de luta
pela manutenção do seu casamento. As viúvas têm também a sua história de luta
para salvar a vida dos seus maridos, mas nem sempre as coisas acontecem como nós
esperamos», lamentou.
Falando da sua própria experiência, Adélia Banze disse que nunca foi sua vontade
estar separada do pai dos seus filhos, homem com quem fez boa parte da sua vida,
até ao momento em que os problemas a obrigaram a tomar aquela decisão.
«Eu havia apostado muito no casamento, o lar era tudo para mim, fiz muito para
assegurar aquela relação, porque estava consciente de que a separação
significava recomeçar tudo de novo», disse.
Apesar de ter deixado muita coisa no seu casamento, esta mulher afirma-se feliz
porque conseguiu erguer a cabeça e recomeçar a vida, com sucesso. «Estou
separada há 10 anos e neste espaço de tempo consegui construir duas casas do
tipo 3. Nunca me prostitui para alimentar e educar a minha filha, estou na
associação e cuido dos meus negócios», explicou, salientando que é filha de um
contabilista e neta de um camponês, indivÃduos que lhe ensinaram a vida.
Falando em nome das colegas da associação, Adélia Banze assegura que elas vivem
do seu suor, do trabalho digno e honesto.
Respondendo a uma pergunta sobre como é o seu dia-a-dia, sobretudo no
relacionamento com as suas vizinhas, a fonte disse ser muito difÃcil. «São as
vizinhas que não se sentem bem connosco, porque pensam que lhes vamos arrancar
os seus parceiros e por outro lado os seus maridos que nos olham como mulheres
de má vida, que a qualquer momento podem se envolver connosco. É uma situação
complicada que requer muita coragem».
Segundo Adélia Banze, a discriminação ainda existe e a sociedade equipara este
grupo social a prostitutas, deitando abaixo todo o esforço que elas fazem para a
sua sobrevivência e a das suas famÃlias, uma vez que tudo o que elas conseguem é
associado à má vida.
Adélia Banze é mãe de três filhos dois rapazes e uma menina. Os rapazes, de 13 e
11 anos, estão com o pai e a menina, com 9 anos está com ela. Depois da
separação, em 2000, Adélia com 39 anos de idade, nunca mais quis voltar a casar.
«Não estou sozinha por falta de oportunidade, mas acho que estou bem assim».
A Associação é a nossa sobrevivência
Adélia Banze é presidente de uma associação de mães solteiras e viúvas que se
ergueu graças ao apoio material e financeiro disponibilizado pela Associação
MOZAL. O primeiro impulso foram as poedeiras e ração, negócio que desenvolve sem
sobressaltos.
Segundo a nossa entrevistada, o negócio ganha maior velocidade entre os meses de
Novembro e Dezembro, em que são vendidos 600 a 800 ovos por dia, enquanto que ao
longo do ano são vendidos cerca de 400 ovos por dia.
Satisfeita com os resultados da venda dos ovos, a Associação Mozal voltou a
patrocinar o fabrico de redes mosquiteiras. «Mas porque precisávamos de crescer
mais, introduzimos corte e costura e o fabrico de bijuteria», explicou.
Banze disse que o grande comprador das redes mosqueiras é a própria MOZAL,
enquanto que as roupas e bijuterias são vendidas em diferentes esquinas da
cidade e provÃncia do Maputo.
Graças a este negócio a sua organização comprou o ano passado duas máquinas
industriais, substituindo as primeiras oferecidas pela MOZAL e o sonho do grupo
é aumentar as máquinas industriais e construir uma casa para o produção de
bijuteria, uma vez que o actual espaço é apertado para a confecção de redes
mosquiteiras, roupa e bijuteria.
A compra das duas máquinas custou 150 mil meticais, dinheiro que resultou
essencialmente da venda das redes e roupa. «O ano de 2007 foi de muito
sacrifÃcio para as associadas, porque custe que custar tÃnhamos que ter 150 mil
meticais para a compra de duas máquinas industriais e outros materiais. Isso
custou-nos meses sem subsÃdios».
Já em 2008 o sacrifÃcio foi menor e conseguimos organizar as nossas vidas no que
respeita aos sonhos de cada associada.
Explicou que para reforçar o subsÃdio que vem do seu próprio trabalho as
associadas promovem «xitique», enquanto que a outra parte dos rendimentos é
depositada no banco.
Para a nossa interlocutora, é possÃvel viver deste negócio. «Tudo na vida tem um
preço e o nosso preço é o trabalho, para dizer que com um trabalho aturado é
possÃvel viver sem recorrer à prostituição», afirmou.
COMO ENTRAM NA BIJUTERIA
Bijuteria é outra área desenvolvida pela associação das mães solteiras e viúvas.
Elas adquiriram os conhecimentos através da troca de experiências com uma
associação feminina sul-africana, de nome Zamampulua, em Durban. As moçambicanas
aprenderam na terra do rand, durante 30 dias, mais uma vez com o financiamento
da MOZAL, a produzir variedades de bijuteria. A ideia é voltar ainda este ano
para a consolidação dos conhecimentos.
Explicou que bijuteria parece uma coisa insignificante, mas uma área com muito
dinheiro, sobretudo na Ã?frica do Sul. «Aqui no paÃs as pessoas ainda associam as
missangas com algo tradicional ligado ao curandeirismo. Esse tipo de missangas
ainda não conquistou bem o mercado, mas há quem compre, sobretudo os
estrangeiros».