Pagª 33 - EDIÇAO NºXXVIII, Iº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes
O JOVEM VOADOR
Icaro Passos de Araújo, era o nome de um rapazola de mais
ou menos seus treze anos. Gostava muito de aventuras e mais ainda de fazer
diabruras.
Não perdia filmes que pudessem lhe sugerir algo de importante e curioso.
Certa ocasião sonhou que estava a voar. E resolveu começar um projeto
voador!
Em primeiro lugar saltou de cima de uma casa com um guarda-chuva aberto, que
deu-lhe alguns segundos de prazer, deslocou-se uns cinqüenta metros, mas a
armadura metálica do sombreiro não resistiu e virou ao contrário.
Depois, a continuar suas experiências, pegou um pato, ave caseira, e começou
a jogar para cima e a observar os movimentos das asas. A abrir e a fechar.
Com uma cartolina, resolveu desenhar modelos de asas e passou para a
construção. Preparou uma armação de bambu e cobriu-a com tecido. Colocou o
aparato sobre suas costas e os braços dentro dos suportes para acionar os
movimentos de bater as asas.
Chegou o dia do teste. Chamou os colegas para ajudá-lo a fixar aquela
armação móvel, que estava bem comentada na cidade e na escola onde estudava.
Sua residência situava-se numa rua de declive bem acentuado. Tudo pronto. O
Icaro sonhador partiu para a realização de seu grande projeto.
Ao se projetar do telhado de sua casa, a euforia e os
aplausos dos presentes foram grandes, mas duraram pouco tempo. Faltou
energia para que seus braços pudessem deslocar o ar e galgar uma distância e
uma altura para completar o percurso de seu desejo.
Por proteção de anjos, não chegou a quebrar-se muito, sua aterrissagem fé-lo
cair de pé e sair a rolar pelo mato rasteiro que por ali existia.
Ao completar maior idade, Icaro foi prestar serviço militar na Força Aérea
Brasileira, podendo assim realizar uma parte de seu sonho. Não voou com asas
próprias, mas com asas metálicas, com aviões a propulsão, motorizados ou
turbinados.
Este jovem passou para a história. Dava seus longos passos no ar, cortando
os ares que na sua infância tanto sonhara atravessar. Mais uma vez o homem
sonhou voar. E realizou seu grande sonho.
Seria seu nome e seus sobrenomes que o incentivaram a
querer subir às alturas?
Aqui no Brasil chamamos aos tripulantes de navios de marujos, por andarem no
mar. E, para completar, não ficaria nada mal chamar de araújo a quem anda
pelos ares.
Ã?caro, após terminar seu tempo de prestação ao serviço militar, retornou Ã
vida civil. Há muitos anos passados, reencontrei um amigo nosso de infância
e ao perguntar-lhe sobre alguns companheiros de nosso tempo, lembramo-nos
entre outros das diabruras que fazÃamos e do rumo profissional que cada um
tomou. O nome do rapazola que acabou voando veio-nos à mente. Daà o nosso
papo:
-Que rumo tomou o Ã?caro? Meu amigo respondeu:
-Aquele encapetado trabalha numa fábrica de industrialização de carne de
siri para exportação, numa cidade vizinha daqui.
AÃ interroguei meu colega:
-Ele formou-se em quÃmica?
-Não, disse meu colega. Hoje ele é operador de caldeira para geração de
vapor do sistema industrial. E o mais engraçado é que foi usada uma
locomotiva antiga a vapor servindo para decoração da indústria que ele
trabalha.
Ao ouvir esta resposta, dei aquela minha gargalhada que ecoa aos pés da
montanha.
Meu amigo assustou-se com o troar do barulho e me interrogou: -Por que
tamanha gargalhada, homem?
Ao que respondi: - Se Icaro ainda tiver aquela vontade doida de voar e
fechar todas as válvulas de segurança da caldeira, com a pressão alta da
mesma, ela explodirá e leva tudo para o espaço sideral!!!
Os homens também choram!
Conto
Por Arlete Piedade
Eram apenas sete horas da manhã, naquele dia do inÃcio de Março, mas o calor já se adivinhava insuportável. O carro estava parado na fila do meio na auto-estrada , como em todas as manhãs dos últimos cinco anos e Manuel tentava conter a ansiedade como sempre em todos os outros dias em que se dirigia para o trabalho.
Ligou o rádio num gesto entre impaciente e resignado. Já sabia o que ia
ouvir:
- Senhores ouvintes, a temperatura prevista para hoje em Lisboa, situa-se
entre os 35º graus de máxima e 25º de mÃnima. Alerta laranja activado em dez
distritos do continente. Alerta vermelho na zona da grande Lisboa e grande
Porto. Não se esqueçam de levar consigo as garrafas de água para manter a
hidratação! Não expor a pele directamente ao sol! Crianças e velhos devem
manter-se em casa!
– E prosseguia o locutor:
- Trânsito congestionado nas principais vias de acesso á capita! Também no
grande Porto e na Via de Circunvalação trânsito com demora acentuada! – mas
Manuel já nem ouvia o locutor, era sempre assim todas as manhãs. Tocou no
comando instalado no volante, para procurar uma outra estação de rádio, que
lhe desse música relaxante e calma!
Mas só encontrava os sucessos barulhentos do momento....Irritado desligou o rádio. Olhou pela janela e reparou na ocupante do carro ao lado. Ela sorriu-lhe e ele retribuiu o sorriso fazendo um gesto de resignação que pretendia abarcar as filas e o trânsito e o mundo em geral.
Ela retribui com um encolher de ombros e ele não pode deixar de reparar naqueles ombros morenos, que estavam desnudados pelo vestido. Não conseguia ver bem, mas aparentemente ela usava um vestido ou blusa sem ombros, apenas cingido no busto por aquelas filas de franzidos que estavam na moda.
Os seios pareciam ser grandes e os olhos escondidos atrás dos enormes óculos escuros, apenas se podiam adivinhar. Como seriam os olhos dela?
Os cabelos eram curtos e louros, com uma franjinha caÃda para a testa ampla. O trânsito na fila ao lado avançou e a mulher arrancou devagar. O carro dele não saiu do mesmo local entretanto, mas Manuel não se irritou. Sabia que dentro em pouco se voltariam a cruzar mais á frente noutra fila.
Agora era a sua vez de arrancar. Seguiu em frente devagar, quase automaticamente, e voltou a ligar o rádio. Agora passava uma música antiga de Elton John. Ficou a ouvir e a recordação da esposa voltou com maior força agora. Era sempre assim. Em qualquer circunstância do dia a dia, inesperadamente, lá voltava o fantasma do passado para o atormentar.
De repente viu-a á sua frente, como naquele dia em que ela lhe tinha pedido
o divórcio. Escutou as suas palavras agressivas de novo:
- Vai-te embora de vez! Deixa-me em paz! Nunca me amaste! Vai para as tuas
amantes! Para que me hei-de esforçar para te dar esse filho? – Para ficar no
mundo mais uma criança sem pai?
Ela não o compreendia, nunca tinha compreendido a sua necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu nome, para lhe fazer companhia e brincar com ele. Como sonhava com esse filho!
Imaginava que iriam passear ao parque, que dariam grandes caminhadas, que iriam jogar á bola, imaginava que ensinaria ao filho tudo que tinha guardado dentro de si, fruto de longas horas silenciosas de reflexões, as descobertas sobre o coração humano, as tentativas inglórias de compreender aquela mulher que era sua desde a infância comum passada na aldeia!
Ela sempre tinha sido sua, continuava a ser sua, mas como lhe fazer entender isso? – Agora era tarde, pensou pela milésima vez. O divórcio tinha sido decretado na semana anterior, era um facto irrevogável que no entanto não sabia se iria aceitar alguma vez.