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Pagª 5 - EDIÇAO NºXXVIII , Iº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   



Três Poemas

Por  Denise Severgnini

 



 

 

ALMA OUTONAL

As árvores despem-se de suas folhas
No raiar do outono.
Tiritam de frio e emoção...

Sento junto à varanda
A contemplar a serra
Descortinada no horizonte.

Matizes esverdeados desenham formas
Dão ares da natureza a festejar
Os sentimentos nascentes,
Em meu ser, neste momento...

Contemplo um amplo mundo
Que encerra beleza, perfeição...

Assim como as árvores,
Tenho a minha caducidade
Ficou a desnudar a alma...

Falo de mim...
Penso em mim...
Tento ser melhor...

Quero buscar, na força da natureza,
A energia necessária
Para fazer os que eu amo felizes...
Para compreender os que me maldizem...

Desnudo a alma,
Deixo-a livre de preconceitos
Imaculada e pura
Como oxigênio proveniente
Das folhas que caem das árvores
Na estação outonal.

Quero ser melhor
Bem melhor do que fui
Até hoje!


AMOR, DEIXA O TEMPO PASSAR

Quem me dera o tempo se fosse a vagar
Perdido entre eras, passasse devagar
E em ti, eu ficaria indefinido, num eterno amar
Atado em teus braços, enrodilhado no teu carinho
Seria teu amante, como pássara e pássaro
Em seu doce ninho...amor de momento total!

Como feroz animal eu te possuiria, e tu
Ninfa das águas calmas, abrandaria a meu furor
com beijos e mais beijos, depois a posse...
mas o tempo é cruel, passa rapidinho...
quero buscar-te nessa imensidão de nós dois
Ah, o tempo! Vamos amar-nos !Deixa o tempo
Para bem mais depois!


FELIZ ANIVERSARIO, AMOR

Deito minhas saudades às malhas do esquecimento
Buscando atingir aos píncaros da doce (in) sanidade
Quero deixar de querer, libertar-me do atroz tormento
Que foi tua partida, conduzindo contigo a felicidade

Nesta data de recuerdos doridos, lágrimas e lamento,
Acendo uma vela que queima um amor de tal verdade
Não aliviando em mim, o real e o desejável intento
De transmutar a dor da ausência em feliz docilidade

Feliz aniversário , amor, onde quer que estejas agora
Remôo os dissabores largados na tua partida cruel
Hoje, equilibro-me na tua lembrança, a qualquer hora

Sejas feliz em terras distantes, o quero ser também
Deste-me o mel. Provei, depois deixaste sabor de fel
Aniversaria a saudade de ti...Olvidarei um dia! Amém!

 

Dedicatória Especial

Por Cristina Ubaldo

 

Temos todos nós, às vezes a presunção da perpetuidade, tecemos planos, projetos de vida, envaidecemo-nos com a satisfação de ambições, orgulhamo-nos com a obtenção de vitórias, quando em pequeno espaço de tempo, começam a partir pessoas que tanto amamos deixando bem demarcada uma nesga de luz a ser perseguida por nós.

Seguem um caminho inexorável, trilhando alguma senda inidentificável racionalmente. Na tristeza da separação marcamos passo entre a saudade e a lembrança, entendemos então que no mundo só há dois fenômenos incontroversos: nascimento e morte.

Recordo hoje em especial uma pessoa maravilhosa que há tempo não mais esta aqui para compartilhar minhas vitórias, alegrias, lutas e até mesmo minhas tristezas e frustrações; minha mãezinha, uma criatura afetuosa, generosa, quase inconsciente do poder que tinha nas mãos, no olhar, no sorriso, acudindo a todos sempre em segredo, como se temesse que o mundo deformasse a pureza de suas intenções.

Quero lembrá-la aqui, dentro da imensidão do amor que devotava à vida e por tudo que me transmitiram no decorrer do tempo em que tive a felicidade de tê-la junto a mim, no sorriso amigo, nas tantas palavras de carinho que ficaram gravadas em meu coração, na lição de vida que me deixou.

Em algum lugar no universo, quero crer, continua sorrindo, ensinando-nos a suportar as adversidades com paciência e serenidade. Estaremos agora e sempre juntos, unidos pelo amor que a fez ser tão especial hoje, ainda mais feliz, orgulhosa das minhas perseveranças e vitórias diante dos atropelos da vida.

Com meu pensamento fixado nisso, sigo o caminho que você me apontou, não como imposição, mas como suposição na certeza que somente eu saberia em qual esquina deveria me separar de seus conselhos e seguir meu próprio caminho.

Foi isto que aprendi : ser dona de minhas vontades e responder por elas. Aprendi também que liberdade não é fazer tudo que quero ou que gosto, mas acima de tudo é ter serenidade ao pensar e sabedoria ao escolher.

É a você minha eterna amiga que dedico tudo de bom que a vida me deu até agora da mesma forma que é a você que agradeço por ter sobrevivido a todas as provações que a vida me impôs.

Sigo meu caminho com a certeza de que sempre será a minha estrela guia.

 

Amor é Isto

Andar Imobilizado
Manter viva esperança morta
Ouvir o silencio clamar
Revoltado pela constante palpitação!

Isto é o amor!

Imaginar cheiro
Sentir e apalpar o vazio
Ter a certeza que existes
Olhar-te e sentir-te perto, estando longe!


João Furtado

 

 

 

 

Histórias da Vida Real

 

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

 

A Cadeia Pública

Em minha cidade natal tive vários amigos mais velhos, ou melhor, «com mais tempo de casa neste planeta!». Há amizades que conservo até hoje.

Alguns já mudaram-se para o piso de cima. É muito bom recordar!

A cadeia pública ficava próxima da usina de geração de energia, da lagoa de alimentação e circulação do sistema energético. O acesso à cadeia era pela rua principal, onde localizavam-se estabelecimentos comerciais e residências.

Como os moradores eram ordeiros, se o carcereiro dependesse do dinheiro da carceragem para viver, morreria de fome.

A cadeia já servia de moradia para o policial responsável.

O movimento do Porto era ininterrupto. De vez em quando algum marinheiro tomava umas graspas fora da conta e aparecia fazendo algazarra.

A polícia logo fazia o convite e o levava para curtir o porre e «ver o sol nascer quadrado». A ordem de descanso era de doze horas.

Quando era alguém de Imbituba, conhecido do delegado ou do policial, que desse algum apronto, era recolhido para que servisse de lição.

A cela tinha grade de madeira e era fechada por fora. Só o nome «cadeia» já impunha respeito ou medo.

Geralmente depois do preso completar umas duas horas de estágio, o policial chamava o detento e dizia:

-Vou dar uma volta. Lá naquele canto tem uma taboa solta. Levanta e sai pelo buraco, mas coloca a taboa no lugar. Some, porque se eu te pegar por aí, vais passar uma semana toda dentro do cubículo.

O detento atendia a ordem do policial, e para se ver livre, corria direto para casa. Como a saída da cadeia era pela rua principal, geralmente deduzia-se que aquele tinha sido preso. O pior era no dia seguinte agüentar as piadas e gozações dos amigos.

Porque sempre tinha alguém para perguntar:
-Fulano, pagaste a diária do hotel do delegado? Que tal, a cama era boa? E o café da manhã?

Velhos e bons tempos, que não voltam mais.

Imbituba era uma cidade tão tranqüila, que quando o delegado queria falar com alguém que cometia algum deslize ou que descumprisse alguma lei, mandava um recado por um amigo ou pelo vizinho, para que o dito cujo comparecesse à delegacia.

Aconselhava-o paternalmente e prometia-lhe que se reincidisse na falta, da próxima vez a pena seria de uma semana no xadrez.

Assim a tranqüila Imbituba ia levando seus dias de paz e ordem.

O progresso veio lentamente, a imigração foi aumentando, a população crescendo.

Felizmente, o índice de criminalidade e o tráfico de drogas é mínimo para a expansão demográfica desta bela cidade de avenidas bem traçadas e de praias, ilhas e lagoas espelhados pelas águas límpidas e azuis do Atlântico.

 

Não lugar

Por Valdeck Almeida de Jesus



Parodiando a canção «The Blood that Moves the Body» (O Sangue que Move o Corpo), do grupo norueguês A-ha, que foi sucesso em 1988, criei a frase «O dinheiro que move o mundo».

Vivemos num mundo capitalista, onde o maior interesse, o maior valor, é o monetário, o econômico. Com exceção de um ou outro país socialista, o mundo, antes de priorizar o homem, sua cultura, sentimentos e ideais, está interessado em saber quanto um indivíduo pode gerar em riquezas, enquanto produtor e consumidor de bens (coisas).

E' a globalização e sua face negra, como quase nunca a vemos. E sua principal característica é a falta de fronteiras para o capital estrangeiro, que circula livremente entre os países, sem pedir autorização.

O dinheiro é aplicado nas mais diversas nações, ao bel prazer do investidor e, quando menos se espera, um investimento pode ser cancelado ou adiado, para aportar em outros locais com lucros mais atraentes.

E o turismo não escapou da insanidade e fome de dividendos dos proprietários do capital internacionalizado (ou globalizado), como veremos adiante.

O importante é sempre o lucro imediato, que dê retorno ao investidor. A cultura e o sentimento da população nativa, residente no local escolhido para os empreendimentos globais, não têm importância.

Com a força do dinheiro é possível obstruir até mesmo o andamento da justiça, que incentiva os indivíduos a migrarem para áreas onde o interesse comercial não tenha chegado ainda.

Em busca deste lucro, o turismo predatório (como poderíamos chamar este tipo de investimento), apodera-se da cultura, da música, dos costumes, do estilo de vida local, da comida e de tudo o que possa ser considerado exótico, novo, que chame a atenção do turista. Coloca-se um invólucro em todos esses bens e cria-se um «pacote», que será vendido a preços exorbitantes.

Ao habitante local nada fica de lucrativo, resta a ele contentar-se com a leva de estranhos, que entram e saem de sua comunidade, sem sequer pedir licença.

Afinal, tudo é, supostamente, para o bem de todos, e a receita é vender o desejo de ser conhecido, de fazer parte de um mundo sem fronteiras, o «quente» é estar antenado.

Neste processo de verdadeira invasão de privacidade, o que é do dia-a-dia, a vida trivial, as relações interpessoais passam para um segundo plano, quando não são esquecidas, ou mesmo rejeitadas.

E assim uma vila pacata passa a ser roteiro de ônibus, vans ou microônibus, que levam e trazem gente para ver, comprar, fotografar; gente esta que não se mistura à população local, não experimenta a simplicidade do cotidiano, não interage nem aprende, também não ensina nada, não troca experiências com quem ali habita.

E neste complexo processo o lugar vai se transformando em não - lugar, perdendo suas características de lugar social, de local de convivência, perdendo sua história e sua identidade.

Vai alienando os residentes, já que os visitantes estão alienados, dado que não mais reagem como deveriam, já que não se emocionam quando presenciam cenas mais humanas.

Afinal, há muito tempo estão «passando» por lugares, «fotografando» e enquadrando as paisagens, sem outra preocupação que não seja o simples prazer de ver. São como voyeurs...

Cidades inteiras são resumidas, assim, a um único símbolo, a uma torre, a uma estátua... Tudo mais, sua história, suas dificuldades, a má distribuição da sua riqueza, sua trajetória, vocação, peculiaridades, nada importa...

Tudo se resume a um tour pela cidade, de charrete, de cavalo, de ônibus ou mesmo a pé, sob a tutela de um guia que, muitas vezes, só sabe repetir a mesma história memorizada há muitos anos...

O turista, neste processo, também se transforma em uma coisa, sendo levada, trazida, hospedada, alimentada, etc. Ele é nada mais nada menos do que mais uma peça dessa engenhosa estrutura que tem por finalidade abocanhar essa fatia do mercado, que dá dinheiro e lucro.

Mas, felizmente, há ainda um outro tipo de turista. São aqueles que param, perguntam, viajam sozinhos e descobrem a cidade caminhando e agindo/interagindo com a comunidade local...

Então, o não - lugar retorna à sua origem e se transforma em lugar, num lugar que já não atende mais aos interesses do turismo, que vai criar outros atrativos, na mesma cidade ou em outra, novos ambientes, novos roteiros, a fim de não perder o nicho de mercado.

E novas cidades, vilas, praias, países vão sendo explorados em benefício do lucro...

O que pode reverter todo este processo é a conscientização do profissional do turismo, no sentido de que ele não deve apenas vender o «pacote» ao turista, e sim passar informações que o façam refletir, que o oriente na obtenção de dados em relação aos locais, que o integre com a comunidade, trocando experiências, adotando novas atitudes, levando e trazendo cultura, num intercâmbio que poderá ser proveitoso para ambos os lados.