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Arménio Vieira vence Prémio Camões 2009

A escolha foi inesperada: o cabo-verdiano Arménio Vieira foi distinguido com o Prémio Camões 2009, anunciado hoje.

Arménio Vieira é o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões. Nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1941, e além de escritor é jornalista.

O vencedor do Prémio Camões/2009, o escritor e poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, disse que, a título pessoal, já esperava «ganhar» mas sublinhou que era ainda cedo para um autor de Cabo Verde ser distinguido.

«A título pessoal, eu esperava o prémio. Mas por causa de ser Cabo Verde, admiti que fosse ainda um bocado cedo. É pequeno em relação à imensidão do Brasil, que tem centenas de escritores óptimos. E Portugal também. Seria muito difícil Cabo Verde apanhar o prémio», disse visivelmente emocionado.

«É uma honra pessoal. Eu é que sou o autor dos livros que ganharam o prémio, porque é atribuído à obra e não à pessoa. Acho que é uma honra para Cabo Verde. Histórico. Cabo Verde nunca tinha ganho. Desta vez lembraram-se do nosso pequeno país», acrescentou Arménio Vieira.

O escritor cabo-verdiano Germano de Almeida congratulou-se hoje com a atribuição do Prémio Camões/2009 ao seu compatriota e poeta Arménio Vieira, sublinhando que a distinção é «inesperada» mas «bem entregue».

Germano de Almeida considerou que Arménio Vieira é «um grande poeta» e que a opção do júri do prémio por um autor de Cabo Verde, «apesar de vir tarde», é o reconhecimento «não só da obra do vencedor como também de todo o Arquipélago».

«O prémio é inesperado mas está bem entregue. Arménio Vieira é um grande poeta e o que interessa agora, para todos nós, escritores e poetas, é que Cabo Verde já tem um galardoado com o Prémio Camões. Era mais do que altura», afirmou Germano de Almeida, que era um dos nomes apontados como possível vencedor.

A poesia e a escrita do escritor cabo-verdiano Arménio Vieira «engrandece a Língua Portuguesa», afirmou hoje à Agência Lusa o ministro da Cultura de Cabo Verde, ao comentar a atribuição do Prémio Camões.

«Um escritor/poeta de ruptura, que saiu da tradicional ladainha da terra de Cabo Verde e abriu-se ao mundo. Arménio Vieira faz uma literatura de dissidência saudável. Rompeu com a tradição e abriu-se ao mundo. Aliás, o mundo é pequeno para ele», afirmou Manuel Veiga, que considera «O Eleito do Sol» a melhor obra do autor.

Sobre o facto de, pela primeira vez, Cabo Verde ter sido distinguido com o Prémio Camões, Manuel Veiga considerou que «já era mais que tempo», lamentando, porém, que Manuel Lopes, um dos maiores autores cabo-verdiano, já falecido, nunca tenha sido galardoado com um prémio «mais que merecido».


Arménio Vieira

Quiproquó

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicídio de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

 

Filme sobre música de Cabo Verde exibido em Espanha

O documentário «Kontinuasom», que retrata a cultura cabo-verdiana, foi um dos filmes apresentados no Festival Cines del Sur, em Granada.

A obra, da autoria do cineasta espanhol Óscar Martíne, conta com participação de artistas cabo-verdianos como a bailarina Beti do grupo Raiz de Polón, e o músico Princesito.

Os músicos Cesária Évora, Tcheka e Mayra Andrade foram outros artistas crioulos de renome internacional que também tiveram participação nesse filme.

No enredo retratado no «Kontinuasom», Beti assume o papel de uma bailarina que contracena com o artista Princesito, iniciando uma viagem para reunir os músicos mais tradicionais de Cabo Verde.

O cineasta Óscar Martine também relata no filme um dilema muito comum entre os ilhéus: «Os que saíram (emigraram) querem voltar e os que vivem no país querem partir».

O filme, realizado num ano e cuja duração é de 80 minutos, trata-se de uma combinação de um documentário e ficção, em que os protagonistas espelham a dança, o teatro, a gente, o folclore e a música do arquipélago.

As músicas apresentadas foram gravadas ao vivo.

O realizador da obra afirma que a música é um elemento de união muito forte para a identidade e raízes da sociedade cabo-verdiana.

«Sempre que se reúnem fazem música e existe uma variedade de géneros superior ao que se encontra em Cuba», disse.

«Kontinuasom» foi financiado pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID) e foi um projecto desenvolvido pela ONG Associação Solidária Andaluza de Desenvolvimento, pela companhia de teatro de Granada, Animasur, e pela produtora cinematográfica Utopi.

 

Cansaço

Prosa Poética por Humberto Teixeira

Sinto que o percurso é curto e enredado entre os meus e os teus dedos, percorridas que são céleres as distâncias enquanto os nossos corpos permanecem estendidos, deitados como corpos de outros que não nós colados em silêncio que é ao mesmo tempo grito vindo de dentro de nós como o fogo ardendo que não queima.

Seja tudo suor ou lágrimas (nunca se sabe) os nossos desejos antes tão desejados foram agora cumpridos como num relógio, e, consumidos deles nada mais resta.

No silêncio dos corpos as argolas de fumo envolvem-se no ar enquanto na tua fonte escorre o líquido que te molha e me enerva. É chuva entre ervas que se dilui como eu me diluo nesta vontade de partir para o laranja tardio que aparece atrás do monte e das árvores entrando pela janela aberta onde balouçam as cortinas que não fizeste.

Calmo estou, mesmo assim, calmos estamos (tu estás sempre calma - ou será apática?) e os teus dedos percorrem o percurso do meu corpo. Pudera, não tens outra coisa que fazer senão entreteres-te, brincar, como brincas sempre.

Inebriam-te as sereias cantando à passagem na viela escura em que se tornou o quarto em noite já cansada de navegar e eu vejo-me em rosto inocente, imaginando de novo a vitrine baça da loja, com roupas, cestos e cordas e sinais em fogo de luzes e fumo na neblina em que nos reencontrámos.

Ainda sou o mesmo, ainda me sinto o mesmo. Mas tu já não és...eras livre, filha da rebeldia que o sangue derramado sagrou em mãe forte, senhora da floresta e do deserto. Eu ainda sou, ainda sou, na noite incerta que vibra ainda aos passos dos assassinos da tua vontade de seres.

Cubro-me no meu mundo, tenho medo do teu, mas da sombra escaldante desce sempre o movimento curvo das tuas asas. Estás aí, estás aqui, quisera que não estivesses.

Passado tempo, todo o tempo em que ainda tenho de ficar não querendo, uso o manto nocturno mas não sei se o sonho constante nas horas perdidas em ti me volta ao corpo ou se o teu e o meu desejo renascendo vencem a castidade da minha ausência.

Vou descobrindo de novo que estás pronta sem o saber, nunca sabes, e fazemos novamente um todo das nossas duas metades quase como se fosse destino, obrigação, dever ou qualquer coisa assim.

Sem falso pudor fazes o jogo do costume (como eu gostava que fosse a sério!) e arredas-me com a ponta do lenço que te escondeu e tão concreta como a recusa falas da vida e de outra coisa qualquer.

Sou já pedra cinzenta quando teu corpo desce em asas e o teu rosto beija a terra enquanto a brisa afaga os teus cabelos alisados. Sempre tiveste a mania que esse penteado te ficava bem.

Reparo então que a falta que me fazes te faz os olhos um pouco belos. «Valha-me isso», digo para mim mesmo em voz que se não ouve: sempre se reduz o peso do sacrifício.

 

Mulheres e homens

Clara S. Tinoco

A humanidade tem percorrido - e vai continuar a percorrer se as coisas não saírem definitivamente dos eixos - um longo processo, isto visto numa perspectiva de milénios. A menorização da mulher - no contexto social e familiar, levou alguns antropólogos a procurarem durante anos (séculos) soluções históricas que agora se podem achar interessantes mas que têm o seu quê de repetitivo em relação a outras situações de menorização de género, de orientação sexual, de cor, etc.

Defendeu-se, no Sec. XIX, a existência do matriarcado, e apontou-se este como sendo a prova provada de que a mulher, em termos de capacidade intelectual, de comando ou de gerência familiar, já tinha tido e tinha a função atribuída ao patriarca e por aquilo que era dado saber nada disso tinha sido nem era um desastre, antes pelo contrário, a coisa tinha andado ela por ela, e depressa se descobriram (na altura) primitivos actuais, felicíssimos da vida por viverem em sociedades matriarcais.

Por outro lado, e no mesmo campo das pesquisas antropológicas, houve quem fizesse referências ao que chamaram de «shemale» que eram , conforme o nome indica (para quem sabe) pessoas com características comuns ou artificialmente comuns aos dois sexos. Ainda não há muitos anos (talvez 50) a própria medicina, dotada de meios menos sofisticados do que aqueles que tem agora, pouco se sentia motivada para analisar o estatuto real de uma dado nascido com retardo na formação dos órgãos genitais à nascença e dizia entre si: «em caso de dúvida fá-lo mulher».

É claro que os tempos avançaram e aquilo que era antes apenas uma questão prática (fazer homem ou fazer mulher) segundo o percentual evidente de órgãos genitais, e durante séculos, ( até mesmo entre os curandeiros de tribo, esta posição resolvia o problema) não deixava ela contudo de ter as suas consequências futuras em termos físicos e psicológicos aos quais ninguém dava muita importância senão os próprios quando disso tivessem consciência ou quando a sociedade envolvente começasse a notar as disparidades entre o género atribuído e o género então manifestado.

As / os shemales nas sociedades primitivas, sendo seres hibridos (ou hibridados se preferirmos) eram relegadas/os para funções à margem do desenvolvimento normal da sua tribo ou clã: nas sociedades mais modernas eram motivo de vergonha familiar logo que a puberdade realçava a sua verdadeira e contraditória característica.

As relações de parentesco, tiveram também o seu tempo de pesquisa, e as irmandades tribais que se formavam, tendo por função separar do casamento possíveis parentes de sangue, numa sociedade em que o registo civil era apenas memorial, apareceram nos trabalhos dos antropólogos, ou pelo menos daqueles que se consideravam como tal e que na sua grande parte nem sequer saiam dos barcos, das tabernas dos portos ou mesmo dos anexos de um proprietário que os acolhia, levando os indígenas ao seu «escritório» e questionando-os de chapa através do uso de interpretes cujo conhecimento da importância das perguntas é legítimo questionar e cuja riqueza de tradução também.

Sem colocar em causa os conhecimentos assim adquiridos podemos sempre dizer que eles estavam tão próximos da verdade quanto possível e tão longe dela quanto as mesmas condições materiais e humanas obrigavam. O que já se tem de estranhar é que sabidas agora essas condicionantes, inclusive através de alguns antropólogos que confessaram até as suas próprias e conscientes aldrabices, construindo verdadeiras ficções sob a capa da Ciência, que todas estas constatações de nada tenham servido para que se encare de forma diferente esta questão de se ser homem ou se ser mulher e do relacionamento entre ambos e dos seus posicionamentos socais.

As teses fundamentais mantêm-se praticamente inalteradas e os maus costumes académicos ou não estão pois de pedra e cal, agora mais de cal do que pedra pelo que se evita a discussão do problema não vá a história e filosofia do sistema esboroar-se. Ou seja, o que faz falta não é continuar a estudar a mulher, o homem, a sociedade à luz da continuada conceptualização (do multi - cliché) que leva sempre ao mesmo resultado, bastante conveniente para os «estáveis» sistemas que tremem como varas verdes ao mínimo sinal de mudança nas perspectivas de análise.

A história real dos povos não se compagina actualmente com ficções porque toda ela é realidade mesmo que tenho sido ficção primitiva.

 



Pagª 9 - EDIÇAO NºXXVIII , Iº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

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