Pagª 13 - EDIÇAO NºXXVIII , Iº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Drama branco
Por Michel C.
Calculei que se avançasse mais uns centÃmetros era certo que acabava por cair no
precipÃcio pelo que não avancei, atitude que considero lógica, isto tendo em
conta que o precipÃcio era mesmo um precipÃcio, daqueles para onde a gente grita
e faz um eco que se repercute durante uma data de tempo e não um precipiciozinho
daqueles que se ultrapassam com um salto de pé coxinho como aqueles que eu
conheço quando há chuvadas na minha terra e as ruas ficam alagadas e os canos
entupidos e os homens da Câmara fazem jus ao facto terem sido eleitos e
trabalham finalmente para as eleições que se avizinham quase sempre a seguir a
uma chuvada, pegando em pás e picaretas e metendo botas de borracha, normalmente
amarelas para condizer com as capas de plástico grosso que também são amarelas,
daquele amarelo vivo, tipo canário, excelentes para camuflagem porque têm um
gorro atado com atilhos que lhes tapa a cara e a gente nunca sabe se é o
Presidente que está lá dentro e pensa que sim, que é mesmo o gajo e vamos a
fugir votar nele quando acaba a chuvada.
Pois bem, este precipÃcio de que falo e que era grande, e ainda deve ser, não
tenho passado por lá nos últimos tempos mas tudo leva a crer que ele não tenha
mexido nem no tamanho nem na profundidade, esse precipÃcio era o precipÃcio por
onde se deveria passar caso eu quisesse comprar a baixo preço uma lata de tinta
branca e o preço era tão baixo tão baixo que havia gente que pulava o precipÃcio
e alguns que se estatelavam lá no fundo nunca mais se ouvindo falar deles mas
isso não era importante porque o pessoal que passava por ali e saltava o
precipÃcio, ou não saltava como eu fiz porque me estive borrifando para isso e
para além disso mesmo havia ainda o facto de não ser assim tão importante
comprar uma lata de tinta branca uma vez que a minha casa até era ocre jaune - é
preciso saber estas cores como deve ser - pois dizia eu e ainda digo que apesar
do perigo os vendedores de tinta branca a baixo preço, mesmo baixo, nunca tinham
falta de clientela e fabricavam tinta a dar com um pau aqueles sacanitas de
algibeira que tinham descoberto uma mina com aquela ideia de venderem tinta
branca a baixo preço.
É claro que a tinta branca a baixo preço era daquelas que caÃa das paredes Ã
primeira chuvada pelo que o pessoal, que não era parvo de todo, ia comprar a
tinta aà pelo final do Outono, pintavam as casas a fugir, a fugir mesmo, aquilo
era um ver se te avias e depois ficavam ali especados a olhar para as paredes
até que chegasse o Inverno altura em que eles começavam então a refilar contra o
São Pedro, que não tinha culpa nenhuma como é evidente, afinal o Santo apenas
abre as portas do Céu e só o faz, penso eu, quando as coisas estão complicadas
lá por cima e os depósitos, lá de cima, já não aguentam mais e quando o cimento
está prestes a estalar.
Pois bem, conforme já disse a minha casa está pintada de ocre jaune, que é assim
um amarelo cal, daqueles amarelos tradicionais nalgumas regiões, mas eu tinha
pensado e acabei por não concretizar como já disse acima, comprar uma lata de
tinta branca a baixo preço para pintar assim como que uma bordadura à volta dos
arcos das portas e das janelas, achei que deveria ficar giro mas penso que fiz
bem em não arriscar a minha vida por causa disso porque a casa afinal está mais
ou menos e para minha grande alegria eu sou dos poucos que não refila com o São
Pedro na altura própria e até para chatear os meus vizinhos costumo pôr um
guarda sol, daqueles de praia, na rua quando chove e fico ali a olhar para a
minha casinha - pobrezinha, diga-se para quem não sabe - com a pintura a
aguentar valentemente a intempérie enquanto a pintura dos meus vizinhos se esvai
com a água e entra nos tais canos que o Presidente da Câmara vem desentupir de
vez em quando embora eu não acredite que seja ele que faz isso de desentupir os
canos com picareta pois deve ter um assessor para essas coisas porque o pessoal
das Câmaras é gente muito fina e tem assessores para tudo.
É claro que tenho problemas com as telhas e de quando em vez chove-me dentro de
casa mas eu subo ao telhado e arranjo as telhas ou não arranjo, depende porque
às vezes basta dar um toquezinho assim para o lado ou para afastar ou ainda
arranco à força de braço algumas ervas que durante a Primavera e o Verão foram
crescendo no telhado, porque os telhados são assim, recebem o pó das estradas e
das terras, isso junta-se e faz montinhos e as ervas normalmente daninhas
aproveitam o espaço que a natureza lhes dá e vá de crescerem até à altura em que
acabam por reter a água da chuva e fazerem com que ela em vez de correr pelas
telhas abaixo fique ali parada em remoinho e acabe por descobrir um buraco que
lhe dê entrada em minha casa sem convite.
Isso chateia-me, chateia-me bravamente até, porque é perigoso andar em cima dos
telhados sobretudo quando está a chover e as telhas estão escorregadias e um
gajo tem de fazer um esforço enorme para não se estampar em escorrega
involuntário e vir plantar-se todo partido no pátio ou mesmo junto á janela da
cozinha, o que seria uma pena e logo para mim que me recusei a fazer a bordadura
a branco na casa porque achei que era perigoso saltar o tal precipÃcio para ir
comprar uma lata de tinta branca a baixo preço.
Acho que seria o cúmulo eu partir-me todo quando estou a arranjar o telhado
quando fiz todos os possÃveis para não me partir todo para comprar uma lata de
tinta branca a baixo preço.
O que me tem trazido curioso, e se calhar sou capaz de ir lá um dia destes,
mesmo arriscando a vida e saltando o precipÃcio como alguns conseguem fazer fora
os outros que caem e nunca mais se ouve falar deles, o que me tem trazido
curioso, para quem se tenha perdido nas linhas acima, é saber como é que eles
conseguem fazer a tinta branca a tão baixo preço.
Vocês nem calculam, porque não devem ser da minha terra e só na minha terra é
que há tinta branca a este baixo preço, o tão barato que é esta tinta branca. É
uma pechincha, uma pechincha autêntica. Como será que eles conseguem fazer esse
tão baixo preço?
Eleições Europeias: Abstenção nas comunidades foi de 97,12 por cento
Portugal voltou a registar nas eleições europeias uma taxa de participação (cerca de 36,5 por cento) inferior à média comunitária (43,4 por cento), mesmo perante um novo recorde de abstenção na União Europeia, segundo dados provisórios.
Apurados os resultados das Eleições Europeias nos 71 consulados de Portugal no
estrangeiro, confirmou-se o que se previa. A semelhança do cenário eleitoral em
Portugal, foi elevada a abstenção junto das comunidades portuguesas. Foram 97,12
por cento os portugueses residentes no estrangeiro que não compareceram às urnas
entre 5 e 7 de Junho. Na França, onde reside a maior comunidade portuguesa na
Europa, o número de eleitores que se deslocaram aos consulados não chegou a um
por cento...
Os resultados não foram desanimadores apenas em França. Noutros paÃses onde
residem importantes e numerosas comunidades portuguesas, o percentual não chegou
sequer aos dez pontos.
Na Alemanha votaram 3,69 por cento dos portugueses inscritos nos cadernos eleitorais – ou seja, 425 eleitores de um universo de 11.520.
Ainda na Europa, no Luxemburgo o número ficou-se nos 5,1 por cento, No Reino Unido votaram 3,4 por cento dos eleitores, enquanto na SuÃça, os resultados registaram 5,36 de votantes e em Andorra, 5.99 por cento.
A Bélgica, com 15,51 por cento de votantes e a
Dinamarca, com 25,3 por cento registaram os maiores percentuais. Falamos de comunidades com 2.430 e 166 eleitores inscritos, respectivamente.
No continente americano, foi na Argentina que se registou o maior número de votantes, 11,56 por cento – num universo de 1.254 eleitores, votaram 145. O Brasil, onde se regista o maior número de eleitores portugueses daquele continente – 53.295 – votaram 1.094.
Amazónia em rota errada
Estratégia de desenvolvimento na Amazónia é inadequada - Revista Science publicou estudo de investigadora portuguesa
Amazónia é reconhecida pelo seu valor para a biodiversidade. Um novo estudo,
publicado ontem na revista Science, concluiu que a estratégia de desenvolvimento
para a Amazónia é inadequada, já que não parece resultar numa melhoria
sustentada da qualidade de vida das populações.
A pesquisa, que integrou Ana Rodrigues, do Centro de Estudos em Inovação,
Tecnologia e PolÃticas de Desenvolvimento do Departamento de Engenharia
Mecânica,
do Instituto Superior Técnico, investigou a variação nos nÃveis de educação,
esperança de vida e rendimento económico entre populações de regiões com
floresta intacta, regiões em plena fronteira de desflorestação, e regiões já
desflorestadas.
De acordo com os resultados obtidos, e agora publicado na revista cientÃfica, a
qualidade de vida aumenta rapidamente com a chegada da fronteira, mas esta
melhoria é transitória. Na prática, os indivÃduos nas zonas já desflorestadas
têm uma qualidade de vida tão baixa como aqueles que vivem em zonas remotas no
centro da Amazónia.
Feito em colaboração com a Universidade de Cambridge (em Inglaterra), e o
Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazónia (no Brasil), este estudo põe em
causa o modelo de desenvolvimento que tem sido seguido na Amazónia. Esta região
é mundialmente reconhecida pelo seu enorme valor para a biodiversidade e como
reservatório de carbono, mas uma área maior que a da França foi já
desflorestada.
É também uma das zonas mais pobres do Brasil. «É geralmente assumido que a
substituição das florestas por pastagens e terrenos agrÃcolas é o preço a pagar
pelo desenvolvimento económico» explica Ana Rodrigues «mas os nossos resultados
indicam que uma coisa não leva necessariamente à outra».
A investigadora portuguesa acrescenta que «o desafio agora é encontrar um modelo
de desenvolvimento que resulte numa melhoria real da qualidade de vida das
populações, mas sem sacrificar o valiosÃssimo património natural da Amazónia».
A oportunidade para esse novo modelo está a ser criada por novas polÃticas e
incentivos económicos, tanto no Brasil como a nÃvel mundial. Entre estes,
destaca - se um mecanismo financeiro de redução de emissões de carbono causadas
por desflorestação, actualmente em discussão no âmbito das negociações
pós-Quioto.
Agora que os governos do mundo estão conscientes dos riscos associados à s
mudanças climáticas, talvez seja reconhecido que a floresta Amazónica vale mais
quando está viva do que quando é arrasada.
�rea florestal usada para agricultura e pastagens para gado Desflorestação
A floresta Amazónica em território brasileiro alberga 40 por cento de toda a floresta tropical remanescente, desempenhando um papel vital na conservação da biodiversidade e, na regulação climática à escala global.
Perto de 1,8 milhões de hectares de floresta são perdidos anualmente,
correspondendo a quase um terço de toda a desflorestação tropical no planeta, e
libertando cerca de 250 milhões de toneladas de carbono.
A conversão de área florestal em terrenos agrÃcolas ou pastagens para gado
(tipicamente precedida pela extracção de madeira e queimadas) é geralmente
considerada a forma mais prática de alcançar as aspirações legÃtimas das
populações ao desenvolvimento económico.
Estudar a influência da desflorestação na qualidade de vida das populações
O estudo investigou de que forma a qualidade de vida varia através da fronteira
de desflorestação, com vista a testar se o processo de desflorestação estará ou
não associado a uma melhoria sustentada do bem-estar das populações.
Dados de satélite foram usados para classificar os municÃpios daquela região em
sete classes diferentes. Estas classes descrevem a posição dos municÃpios em
relação à fronteira de desflorestação: desde os que se encontram localizados
antes da fronteira (com floresta intacta e sem desflorestação activa), passando
por aqueles no auge da fronteira (muito activa), àqueles após a fronteira (já
sem floresta).
A qualidade de vida foi medida através do �ndice de Desenvolvimento Humano,
desenvolvido pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas e publicado para
cada municÃpio da Amazónia no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil.
Este Ãndice combina informação sobre a esperança de vida, o nÃvel de educação e o rendimento económico.
«Desenvolvimento» enganador
Os resultados sugerem que os nÃveis de desenvolvimento relativo aumentam rapidamente durante as primeiras fases do processo de desflorestação, mas declinam imediatamente à medida que o processo termina e avança geograficamente.
Desflorestação afecta melhoria sustentada das populações Observa-se o mesmo padrão de crescimento-e-queda para cada um dos sub-Ãndices considerados: rendimento económico, educação e esperança de vida.
Portanto, as pessoas que vivem nos municÃpios pós-fronteira têm uma qualidade de
vida tão baixa como aquelas que vivem em zonas remotas no interior da floresta
Amazónica.
A melhoria da qualidade de vida nas fases iniciais da desflorestação resulta
provavelmente da exploração e capitalização dos recursos naturais ali
encontrados (incluindo a terra, a madeira e os minerais), bem como do acréscimo
em termos de acessibilidade aos mercados, por via das novas estradas (associadas
à expansão da fronteira).
O subsequente declÃnio é possivelmente um reflexo da exaustão dos recursos
naturais. A produção florestal, pecuária e agrÃcola declinam tanto por unidade
de área como per capita, indicando uma redução geral da produtividade
independentemente do aumento da população humana.
Repensar o desenvolvimento
O estudo conclui que o modelo de desenvolvimento que tem sido seguido está longe
do desejável, quer em termos do desenvolvimento humano, quer em termos da
conservação dos recursos naturais.
O desafio que esta região enfrenta consiste em assegurar que o desenvolvimento
futuro se traduza em melhorias sustentadas do bem-estar humano sem que daÃ
decorra a destruição da natureza e dos serviços por ela providenciados.
Não parece existir uma solução única. Os autores sugerem que será necessário
aplicar um conjunto de medidas, incluindo: um melhor uso das áreas já
desflorestadas, a protecção da floresta remanescente, e incentivos directos a
actividades económicas baseadas na própria floresta assim como polÃticas que
promovam a educação, e saúde das populações.
Novos mecanismos financeiros que integrem pagamentos pelos serviços dos
ecossistemas terão provavelmente um papel muito importante. Entre estes, um
mecanismo financeiro global com vista à redução das emissões provenientes da
desflorestação, actualmente a ser negociado ao abrigo da Convenção das Nações
Unidas de Combate às Alterações Climáticas.
O Brasil, com as suas substanciais reservas de carbono e capacidade técnica de
monitorização das alterações da floresta, é seguramente o paÃs melhor
posicionado para implementar esta iniciativa e dela tirar benefÃcios.