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Pagª 20 - EDIÇAO NºXXVIII, Iº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.           

Depois, foi a visão do teu corpo longo...

Poema de Ilona Bastos

 

 

 

 

 

Das ambulâncias era a sirene
no seu ondular estridente
crescente, angustiante
o silêncio súbito, o medo
o desvario das velocidades
que corriam em mim, em suores
frios temores, arautos da desgraça,
afinal fantasmas que me invadiam
os dias tranquilos ou tementes…

Depois, foi a visão do teu corpo longo
esguio sob os lençóis do hospital
as sirenes lá fora, cá dentro
o gemer dos velhos doentes
a luz branca nas paredes verdes
a assepsia dos instrumentos
e tu ali, ligado ao soro e ao leito
pálido, desamparado, desmaiado
olhos fechados, sem dar por nós…

Das ambulâncias são ainda
os uivos errantes a invadir e a fugir
do meu silêncio, que é câmara
de passagem de fragmentos de ideias,
de receios, remorsos, recusas, revoltas,
invisíveis rios de lágrimas
que me inundam e se afogam nos gritos
diabólicos das sirenes estridentes,
permanentes arautos da desgraça…


O MUNDO DO AVESSO

Escrever poesia é virar o mundo do avesso:

num poema, é o galo que canta e acorda o sol;
noutro, é o olhar que salta a janela e alcança a paisagem;
noutro, ainda, é o mundo inteiro contido numa poça de chuva…
Que absurdo! Que ilógico! Que irreal!

E, no entanto, prefiro a poesia.
Prefiro o absurdo ao prosaico,
o ilógico ao coerente,
o irreal a esta ficção horrível
que nos fornecem e a que chamam realidade…

Não podemos ter a certeza do que seja a realidade,
mas intuímos o irreal a mil léguas.
Portanto, de real temos somente o irreal,
temos somente a poesia, temos o avesso do mundo,
que é afinal o único mundo que temos!

 

Catalão - Cidade Mágica

Sandra Fayad


- Que lugar é este? - indaga meu companheiro de viagem
- Pires Belo. Mais trinta e sete quilômetros e estaremos em Catalão – respondo.

A resposta tem entonação alterada. A voz sai meio cinzenta de um ponto mais profundo da garganta, atravessa um caminho - ladeado por ansiedade, alegria e saudade de um tempo distante que volta sempre - e chega aos lábios, abafada.

As sensações têm nomes de pessoas e lugares e me transportam para um espaço único, exclusivo. Assim como os pássaros cruzam a estrada, estou também cruzando a minha história, do sempre para a eternidade. Tudo - e ao mesmo tempo nada - é igual.

Quero silêncio. Preciso respirar fundo, porque as lágrimas estão ameaçando cair e não posso parecer fragilizada logo agora que faltam poucos quilômetros para entrar no meu passado, que outra vez vai se transformar em presente. É uma mágica espetacular!

Há lembranças demais para administrar. E que lembranças! São as melhores da minha vida. A cada metro da estrada, a infância e a adolescência voltam, em «flashs» luminosos sobre a realidade nua e depois vestida com as roupagens com que se apresentou a cada visita, nesses últimos trinta e oito anos.

- Há uma igrejinha lá no alto... comenta o parceiro.
- Ali é o Morrinho do São João - informo.
Para o visitante, é só uma igrejinha no alto do morro. Para mim, rebobina a fita até a infância mais tenra: balõezinhos, pipoca, quentão, pandeiros, roupa caipira, bolo de mandioca, canjica, poeira, gente da roça e da cidade na mesma festa.

Lembra também os visitantes, a cidade olhada de cima esticando..., as luzes de Goiandira, o namoro do Manoel e da Sheila Zarife, quadros da Dona Mariinha, fotografias, padrinho João Fayad, os peregrinos vindos da roça.

A placa informa: Catalão a 5 km. Explico que a cidade tem duas entradas.
- Uma é pelo antigo “campo de aviação�, passa pelo bairro do São João e desce para o centro. A outra é pelo JK, que sai direto no centro, passando pela «estrada de ferro».

Geralmente alterno as entradas. É que gosto de ver as novidades. A entrada do JK está diferente, devido ao grande número de edificações novas. São fábricas, concessionárias, moradias populares e trânsito de caminhões à esquerda de quem vem do norte.

A primeira parada é sempre a casa da madrinha Helena e da Julieta, minha irmã. Tenho a opção de visualizá-la como é hoje e como era na minha infância: calçada alta, portas grandes de madeira.

Aliás, as Ruas Vinte de Agosto e Coronel Afonso Paranhos aparecem assim, com dupla roupagem. Vejo-as como se fossem a cara e a coroa de uma mesma moeda ou o direito e o avesso de uma vestimenta romântica.

As vezes esqueço que a Prefeitura virou Fórum, que o Banco do Brasil mudou mais para trás, que as casas da Vó Coqui e do tio Salomão agora são lojas. Enumero mentalmente as modificações: apartamento da Beth França, casas da dona Cafa (vendia chanclish), da tia Ivete (mãe do Prefeito Adib), da madrinha e da Bibita (reformadas), da tia Norma e do Felipe (iguais).

A Rua Coronel Afonso Paranhos já se chamou Rua Estreita. Ali morávamos Sheila Nanete, Beatriz e eu (grudadinhas). Minha casa foi totalmente reformada pelo primo Marcelo, que agora é seu morador.

A cidade está cada vez mais bela, sinalizada, arborizada, com córrego tratado e canalizado. Agora tem a represa, que é o novo ponto turístico e de lazer da moçada.

Catalão é a sementeira onde fui plantada sob um composto de ótima qualidade, regada com bons princípios e cultivada em um mutirão de solidariedade. É fruteira carregada de doçura, é tijolo de rapadura mergulhado no melaço da gargalhada sem limites, é espelho que refletia o preço que a vida ia impor.

Era melhor rir muito de mim, de nós, dos outros, de tudo e de nada, enquanto fosse possível. E eu ri com elas, as amigas de sempre: Shirley, Sheila N e Sheila Z, Beth, Bibita, Valéria, Beatriz, Maura Hummel.

Amo Brasília, mãe adotiva, que me acolheu de braços abertos e me alimentou com seiva de boa qualidade, desde a porta aberta para a vida adulta. É a terra dos meus descendentes, das conquistas profissionais e dos novos amigos.

Mas Catalão, minha mãe natural, é sombreiro sob o qual descanso, rindo das mesmas bobagens ou chorando com as mesmas amigas pelos que já não podem rir conosco.

Nunca me esqueci da Festa do Rosário em outubro. Onde quer que eu esteja no dia vinte de agosto, informo, orgulhosa, a quem está ao meu lado:
- Hoje é aniversário da minha cidade.

E mentalmente envio-lhe uma mensagem: - Feliz aniversário, Catalão!

 



Heroínas Anónimas

Crónica

João Furtado

 

A saudade da minha mulher, das minhas filhas que deixei em Cabo Verde. A saudade do meu filho que encontra-se no Brasil a estudar. A necessidade de regressar para ajudar na velhice do meu pai e do meu sogro. Tudo isto me atormentava.

Estava apenas 5 dias fora. Mas também, por outro lado, não queria separar-me da minha filha, do meu filho, da minha netinha e do meu netinho. Estava perante um grande dilema. Se ficasse continuaria a ter a vontade de partir. Se partisse, partiria dividido, pois a vontade de ficar também era enorme. Mas sabia que teria que partir. Era necessário partir. Foi assim que acordei naquele Domingo.

A viagem não era tão já. Tinha ainda 5 dias para estar com os meus netos. A mais velha, de quase dois anos, tinha ido comigo. Estava a viver connosco em Cabo Verde, a Nuna. O Mais novo, com apenas 3 meses, era a primeira vez que o via. Dois amores da minha vida. Dois amores diferentes e com a mesma intensidade.

Para não continuar a tentar saber porque temos que nos separar dos nossos entes queridos, resolvi sair. Disse a minha filha para irmos a missa. Iríamos de carro até Brockton, outra cidade satélite de Boston, nós estávamos em New Bedford. Preparamos e saímos. Ela, o marido dela, a Nuna e eu.

Quando chegamos a missa estava quase no fim. A distância era longa. Esperamos a saída do Padre, para o cumprimentar. O Padre era nosso conhecido. Ele saiu pela porta principal, onde os cristãos foram até ele para o cumprimentar. Também fui. Aproveitei para chamar, por telefone móvel, uma amiga que sabia estar ai.

O nome dela é Ana Maria, mas nós a conhecemos por Bela. É comum em nós Cabo-verdianos termos dois nomes, por exemplo a Nuna, o nome verdadeiro é Adrianne. Ela também estava na missa, alias, havia-me dito isto. Uma das razões que me fez ir era encontrar-me com ela.

A Bela é do quadro da Policia de Cabo Verde. Foi há cerca de um ano por ter câncer. Soube que «perdeu» os dois seios. Ela me confirmaria esta informação no fim da visita. Estivemos juntos quase duas horas. Fomos até onde ela estava hospedada.

Mas, alem da alegria que eu sentia e ela também pelo nosso encontro, pouco falamos. Perguntamos por nossas respectivas famílias. Brincamos com tudo que de improviso aconteceu, mas tudo superficial. Eu tinha medo de a fazer lembrar o quanto tinha ela tinha sofrido. Não queria que ela sofresse novamente a me contar o que aconteceu com ela.

Mas ontem soube o que aconteceu com a minha amiga Bela. Soube através de um amigo de uma outra amiga minha. Amiga recente. Amiga que me tornei intimo como se predestinados. Ela chama-se Cristina, escreve e coloca no Mural dos Escritores. Leu o que escrevo e achou que era bom.

Para dizer a verdade, não acho que escrevo bem. Algumas pessoas têm me incentivado e agradeço, mas na verdade continuo a escrever apenas para poder passar para papel este bicho de inconformismo que vive dentro de mim. Se não coloco no papel, continuo a pensar. A imaginar que nem um louco, sim sou mesmo um louco, o meu cérebro não para de funcionar.

A única solução que tem é colocar no papel. Descobri que assim penso com uma lógica mais ou menos aceitável. Não fico a «saltar» de uma ideia a outra. tal um macaco a saltar de um galho para outro. Foi o amigo da Cristina que fez a Cristina me ensinar o que é ser herói. Ser herói no anonimato. Existem muitas pessoas que deviam ter estátuas nas ruas. Uma delas é a Cristina.

A Cristina tem sofrido com alegria. Tem carregado a Cruz sem reclamar. Tem esquecido a sua própria dor e aproveitado para aliviar a dor do próximo. Foi por ela, alias, por amigo dela, o Dany que soube que a Bela sofrer dores horríveis. Perdeu todo o cabelo. Fez radioterapia. Passou a beira da morte. Perdeu toda a estética feminina. Aquela mulher que me cumprimentou.

A Bela não conseguiu estudar doente e muito menos fez uma das melhores teses de licenciatura. A tese que li, gentilmente oferecida pela Cristina além de bem feito mostrou o lado humano da autora. Deixei de estudar pouco tempo depois de ir para o Liceu. Posso afirmar sem medo de errar que tenho apenas ensino primário. Todo o mais que sei, foi por curiosidade e, como afirmei, pela loucura do meu cérebro que não pára de vertiginosamente trabalhar e criar imagens figurativas.

Se um dia tivesse estudado gostaria de apresentar um trabalho igual ao de Cristina. Mostrar a todo o mundo que todos nascemos iguais perante a lei e perante Deus.

A Bela perdeu os seios. A Cristina preferiu não os perder. Deus teve compaixão dela. Ela merecia pelo menos um prémio pelo bom coração que tem. Continuou com os seios. Naturais e perfeitos. Não fez nenhuma plástica. Bela usa, de momento, um par de postiços, acho bem, ela merece a estética feminina, aconselhei-a a fazer plástica e a colocar os seios. Nenhuma mulher deve ficar sem os seios, se os puder ter.

Mesmo doente a Cristina continuou a trabalhar. Assim que pode, começou a dar aulas e a ajudar as crianças. Precisamente as marginalizadas. Sofreu algumas injustiças. Todo o ser humano sofre injustiças, mas poucos respondem com o bem. A Cristina respondeu sempre com o bem.

Não satisfeita com tudo que fez de bem. A Cristina quis me dar uma lição, uma bela lição que não posso dizer por minhas palavras. Vou transcrever o que ela me enviou, também através do Dany o amigo dela.

Ela está neste momento internada. Tenho recebido notícias dela, não caso de dizer, por Dany. Tenho feitos alguns acrósticos para ela, com o nome dela, ela adora. Ela quer que eu seja alegre e feliz, não sei se consigo. Não tenho a coragem da Cristina. Além disto, a minha mulher esta doente também. Sofre de dores de corpo. Sofro por ela, também sofro por Cristina, sofre pela Bela.

Como disse recebi a lição que a Cristina me quis dar. Ela intitulou-o de eu aprendi. Foi a maior lição que devia ter tomado de uma amiga tão especial e num momento tão especial da vida dela.


EU APRENDI

Aprendi que o mundo é mais que nossa casa e a vida vai além de nosso corpo.
Aprendi que amigos são muito mais valiosos que jóia e que é preciso falar sempre o quanto os amamos e como são importantes em nossa vida.
Aprendi que felicidade é mais que um momento, mas que devemos viver intensamente os pequenos momentos como se fossem o ultimo.
Aprendi que um sorriso não custa nada e que sorrir mesmo quando se quer chorar é um bom remédio e muitas vezes espantam as lágrimas, mas aprendi também que chorar não é nenhuma vergonha e chorar de alegria é muito lindo.
Aprendi que a dor física nem sempre podemos evitá-la e maldizer a vida por isto não vai abrandá-la, sobre a dor aprendi ainda que existem outras dores que podemos sim evita-las e até curá-las se confiarmos em Deus mantivermos a serenidade e acreditarmos que Ele sempre age a nosso favor mesmo quando não entendemos seus desígnios.
Aprendi que ser só é diferente de se estar só e que nós somos a nossa melhor companhia quando estamos em paz com nós mesmo.
Quem já não se sentiu só em meio a uma multidão e por outro lado se sentiu tranquilo sozinho com o próprio silencio?
Aprendi que ninguém é eterno e que as pessoas que amamos um dia se vão, mas os ventos continuam trazendo outras pessoas e nos ensinando a amá-las.
Aprendi que existe um oásis e um deserto, um céu e um inferno dentro de todos nós e depende somente de nós de que lado se vai ficar.
Aprendi que esperamos muito da vida para sermos felizes e almejamos uma felicidade extremamente material quando temos infinitas belezas e oportunidades ao nosso dispor e não nos custam nada.
Aprendi que deixamos para dar valor ao que temos quando perdemos e nos esquecemos que na vida nada somos apenas estamos.
Aprendi que é muito importante tecer planos e projectos de vida, mas não podemos perder muito tempo na vida os elaborando. Viver surpresas, improvisar ou nada planejar por um dia é quebrar protocolos sair da rotina e isto pode ser muito bom.
Aprendi tantas coisas que nem me lembro mais tudo que aprendi, mas também não quero decorar o que sei.
Lembro aqui o que minha amada mãe dizia:
__A vida é uma grande escola aonde a dor e o amor são os professores. Quem não aprende pelo amor aprende pela dor.
Iniciei meu aprendizado pela dor, mas optei a tempo em concluí-lo com o amor e para o amor.
E você como esta aprendendo?


Cristina, estou a aprender. Sim, não sei se serei tão douto quanto você, minha amiga querida. Mas estou aprendendo com você.
Espero ver-te em breve tal como uma Borboleta, toda feliz beijando as rosas, tirando delas o néctar para a felicidade tua e dos todos nós.


João Furtado