
Pagª 21 - EDIÇAO NºXXIX , IIº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
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Fernandes.
A Reencarnação
(Continuação - ver Início)
Já quanto ao segredo Pitagórico ele é referido em seguida na mesma obra de Porfirio:
«Depois disto, a sua fama aumentou, e ele (Pitágoras) conquistou muitos sequazes na própria cidade (não só homens mas também mulheres, uma das quais, Teano *, veio a ser também muito conhecida), bem como muitos príncipes, e chefes guerreiros do território bárbaro em redor. O que dizia aos seus associados, ninguém o pode dizer com certeza; pois o silêncio entre eles não era de tipo comum.»
* Teano é considerada a primeira mulher matemática.
E numa outra obra refere ainda Porfírio: Iâmbl.,V.P.,199: «O rigor do seu sigilo é espantoso; pois é evidente que, em tantas gerações, nunca ninguém encontrou quaisquer notas pitagóricas antes do tempo de Filolau; foi ele quem primeiro publicou aqueles três livros, que se diz terem sido comprados por Dion de Siracusa a pedido de Platão(...)» e sublinhamos Platão principalmente para referir que Porfírio foi não só o coleccionador das referências a Pitágoras e aos Pitagóricos como também o biógrafo de Plotino, iniciador e fundamentador do chamado Neo-Platonismo.
Findamos esta parte através de uma referência a uma obra importante para compreensão de toda esta problemática da união possível entre Pitagóricos e Platónicos.
(...) o máximo que se pode intentar, no caso dos Pitagóricos, é dividir a sua doutrina em três secções, duas das quais abarcam o período que vai do fundador a Parménides, enquanto a terceira diz respeito à geração dos Pitagóricos, que floresceram, sob a chefia de Filolau, no final do Sec.V. (G.S.Kirk-J.E.Raven: Os Filósofos Pré – Socráticos - Fundação Gulbenkian)
Ora, onde Platão está indiscutivelmente de acordo com os Pitagóricos é na convicção de que a alma humana é uma substância independente, que já existia antes de habitar o corpo actual e que continuará a existir, separada do corpo, depois da morte deste.
Além disso é, não só indestrutível como consciente e inteligente, possuidora de um conhecimento que não foi adquirido através dos sentidos.
A finalidade do Fédon (diálogo platónico) é defender esta crença numa inteligência separada, bem como a crença igualmente pouco conhecida de que os objectos conhecidos por esta inteligência são Formas que estão separadas das coisas materiais.
O discurso protréptico de Sócrates que antecede a parte argumentativa do Fédon abre com uma definição da morte que resolve de antemão a questão da sobrevivência.
A morte é definida como «a libertação da alma do corpo»: «estar
morto» quer dizer que «o corpo fica sozinho, separado da alma, e esta sozinha,
separada do corpo».
Segundo a doutrina religiosa a que Sócrates já recorreu, os prazeres animais são
condenados por acorrentarem a alma ao seu companheiro material.
Os sentidos - até mesmo a vista e o ouvido - mais não fazem do que dificultar o pensamento. A alma que está apaixonada pela sabedoria foge de todo e qualquer contacto com o corpo.
O seu desejo é alhear-se inteiramente do corpo e concentrar-se sozinha na contemplação das realidades que os sentidos não podem revelar.
Esta é a «purificação», a que se segue a visão da verdade, que os mistérios recomendam. Neste mundo esse alheamento não pode ser conseguido a não ser, quando muito, de maneira imperfeita. A libertação final e completa virá com a morte do corpo.
Assim o diálogo do Fédon começa não com qualquer argumentação mas com um passo de eloquência religiosa sobre o significado da vida e da morte, no qual a convicção do autor o levou manifestamente para além do domínio da prova racional. As dúvidas e os argumentos elaborados para as rebater surgem depois.
Novamente a teoria da reminiscência é apresentada como prova de uma
preexistência: a alma que pode existir separada do corpo é aquela parte do nosso
ser que pensa e conhece as Formas que existem separadas das coisas materiais.
As razões das crenças na reencarnação estão cada vez mais presentes na nossa
sociedade actual.
Há assim como que um desejo sublimado pela realidade de regresso às origens, à alma e ao corpo primeiro, ou ao conhecimento do corpo primeiro, um conhecimento mais rústico, ou pelo menos, menos aperfeiçoado do que aquele que adquirimos no presente, mas que não deixa de ser contraditório porque na sua génese este tipo de pensamento não rejeita senão parcelarmente o conhecimento que vai adquirindo (o conhecimento das coisas más ou menos boas) pretendendo regressar ao passado mas não viver como no passado.
Este prolongamento da vida, nesta forma, é uma soma de saberes: os presentes e os passados vistos na óptica do presente.
A sua adaptabilidade lógica em termos de comunhão vivencial é matéria de crença.
Ninguém pensa - pensamos nós - em debruçar-se entusiasticamente hoje, nessa vida idealizada, sobre os primórdios do Teorema de Pitágoras nem em conviver com os aspectos mais negativos desses tempos.
De olhos fechados e dentes cerrados, olhava para a minha sombra do
passado. Apenas os meus sentidos funcionavam, a minha terceira visão
apurava-se e o meu cérebro continuava a vaguear numa profunda
introspecção…
Por entre um copioso transpirar, ouvia o roçar do som da voz do mestre
meditativo rondando os meus ouvidos: - Não tenham medo do que estão a
ouvir, sentir ou ver… Tudo isso, passa-se noutro plano.
Nada do que ali se passa jamais poderá fazer-vos algum mal. Lembrem-se
que estão a ver a cena como espectadores e não como figurantes.
Estão pois, protegidos, de tudo o que aí virem, que apenas servirá para
desbloquearem algo que nesta vida precisam para melhor viverem convosco
próprio e com a sociedade…
Continuo a visualizar-me naquela dimensão e, claramente verificava o
arrastar de pernas pesadas, das minhas próprias pernas… Tentava
caminhar, e caminhar sem fim à vista, sem solução à vista… Areia e mais
areia, preenchia agora toda a minha visão… Só a minha sombra me
acompanhava… Estava só, irremediavelmente só…
- Em segurança, preparem-se para acordar lentamente. Lembrem-se mais uma
vez que estão protegidos e que nada do que viram poderá fazer-vos mal!
Podem abrir os olhos, rodar devagarinho o pescoço, mexer as mãos, as
pernas, os ombros… e, bem vindos novamente à vossa actual vida, que
agora certamente será mais fácil, pois tenho a certeza que com esta
viagem a outra vida, receios e medos que até agora nesta vossa pele
tenham tido, ficarão desvanecidos e desbloqueados…
Sim, aqui as coisas faziam mais sentido… até os calafrios que na minha
espinha corriam sempre que no deserto se falava…afinal a minha alma já
por lá demoradamente vagou…
VER E SENTIR
Cristina Maia Caetano
(XXIX)
Nas minhas retinas, a sensação de vaguear no deserto, confirmado pelo
imenso calor que as minhas células acumulavam, aumentava a cada doloroso
passo.
Sentia os lábios secos, e a custo tentava respirar… O calor imenso do
deserto principiava a torrar-me, tal era a proximidade sentida com
aquela minha vida passada…
Agora, já principiava a visualizar o sofrimento, a pressentir a agonia
naquela malfadada hora, e… Sabiamente a voz do mestre interrompeu
cuidadosamente tal penoso momento:
Já sentada, e bem acordada, percebi o quanto sábias tinham sido aquelas
palavras… Percebi o facto de suportar altas temperaturas…O facto de
nunca ter gostado da minha sombra… O facto de não querer estar só, que
não era nada mais, nada menos do que o refúgio da morte…
Lembrem-se pois, de pensarem carinhosamente no assunto e com a certeza
que o melhor é mesmo não se fazerem julgamentos...
