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Pagª 18 - EDIÇAO NºXXIX , IIº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

 Coluna de Liliana Josué  

GATOS VERDES

Quatro gatos verdes
observavam o seu desventrado quarto.
Gavetas voadoras com línguas de fora;
armários navegando assustados
por ondas de papeis;
leito num furacão
envolto em negras nuvens de pó.

Os gatos... eram gatos?
Sim! Eram gatos! Na certeza da dúvida...
mas tinham cor de papagaios!
Verdes, brilhantes...
talvez fossem... gatos - papagaios!?
Mas não falavam!

Constrangidos
observavam o mundo ressequido
daquele quarto esquizofrénico.
Que ambição dali poderem sair
mas uma despudorada Força contrária
puxava-os e impedia a desejada saída.
A liberdade é só para alguns
ou mesmos nenhuns.

Um dos quatro gatos - papagaios
fixou uma porta abstracta
passou por ela, quis tentar a liberdade.
Os outros três por lá ficaram
no caos das suas vidas
dentro do quarto
sem se atreverem a olhar mais longe.
O gato - papagaio que se soltou
tornou-se azul, brilhante como o céu
e conseguiu cheirar o ar sem mofo.

Seria gato? Seria ave?
Quem o saberia?
Só se comprovaria ser ele lindo.

Do seu futuro
mais ninguém soube.
Será que encontrou a liberdade?
Ou terá morrido na saudade
dos outros três gatos verdes
fechados nas bolorentas paredes?


Primavera Branca

Há sol azul
nos olhos do ancião,
metamorfoses de vidas
esvoaçando como tule
adormecem esse olhar
de solidão.

Cabeça pendendo sonhos
recordações
do distante
memórias de luares antigos
polvilhados de emoções
de cor imaculada
e cheiro a ontem.

Tudo é Primavera branca
cabelo, barba, ilusão...
a face nívea desgostos tranca
só os olhos é que não.

 

 

Coluna de Rosa Pena

Prema Arte

Viajar novamente pelo velho continente em tão pouco espaço de tempo poderia quebrar o encanto que ainda estava no ar. Em 2007 tinha sido o máximo! Hoje sei que é óbvio que não. Quantas vezes eu olhar Van Gogh mais terei para ver.

O casamento de minha filha e a cor dos meus cabelos aceleraram minha decisão. Sei lá em que momento eu virarei avó e quando for... Ah! A viagem será para dentro de mim e sem hora pra voltar tamanha a saudade.

Mergulhar como Rachel de Queiroz na arte de ser. A saudade é de alguma coisa que você tinha e que lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança.

Meus cabelos agora pintados regularmente viraram a prova viva que a energia também precisa de tinta, mas ela não existe por mais que o homem tente inventar o Homo sapiens imortal; sim, pode-se viver até duzentos anos, mas duvido que seja sem dor nas pernas, sem vontade de fazer xixi muitas vezes mais que a garotada, sem uma glicose ou um colesterol alterado que tiram nosso pé do acelerador. Penso como os elefantes. Quando o vigor virar poente quero morrer quieta no meu lar.

Meu marido reclama do saco de viagem e da mochila, do sobe e desce dos trens e principalmente da minha urgência em viver. Não! Não vou dormir de tarde em pleno Algarve um lugar que encanta até um desiludido.

Quero correr por Albufeira, quero por que quero estar no dia seguinte em Sevilha, depois voltar a Faro, ainda que mudando uma hora no fuso e no outro dia rever Lisboa, olhar o Tejo e pensar no Pessoa. Tabacaria, qual delas Fernando?

Ah! Mais lá para frente tomar um vinho do porto no Porto e em alguma hora chegar a Vigo, depois a Santiago de Compostela. Não como peregrina como tantos imaginam quando se fala em ir para esta cidade linda da Espanha.

Acho que, dos que lá estavam, apenas alguns fizeram realmente o caminho com o propósito de ter mais noção do seu «eu» ou para escrever livros no rastro do mago.

Muitos usam como trilha para bicicleta, moto ou até mesmo como prova de resistência. Não é necessário maior motivo que não sejam os olhos. Sim, ficarmos com as vistas iluminadas diante da beleza incomensurável do lugar, da Catedral, de construções com cerca de mil anos.

A noite é extremamente agradável sentar em bares e ouvir vozes nos mais diversos idiomas, sentir o planeta como um lugar sem fronteiras, bandeiras, cheio de paz. Não será isso a verdadeira magia?

Ninguém preocupado com roupa, língua, credo, curtindo com o mesmo entusiasmo um jazz, um fado ou um bolero?
 
Eu tenho mania de paz. Ela dirige a minha vida ditando o meu sorriso, meu pranto triste ou de encanto (chorei entre outras na catedral de Sevilha), ela dita os versos dos poemas que ainda farei, ela atualmente baixa minha voz e até me cala ainda que eu tenha razão para colocar fim a uma briga e finalmente ela faz meus braços mais longos que os do oceano para abraçar com força meus amigos.

Mas no que ela é mais farta comigo é na oferta de amplitude de minha visão, para que eu possa enxergar sem medo ou pudor a suprema arte do criador em cada caminho que percorro. Ontem eu vi toda a beleza do luar carioca.