Pagª 17 - EDIÇAO NºXXIX , IIº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Série Fauna & Flora: FIDELIDADE
Conto / Crónica
Por
Ilona Barros
O veleiro parecia saído de um compêndio de História ou de um romance de
aventuras: uma espécie de nau em madeira envernizada, descascada pelo sol e pelo
sal, dotada de uma impressionante profusão de mastros e de cabos. Gingava
suavemente sobre as águas do rio Arade, junto ao ancoradouro, e gemia, no apelo
próprio dos barcos à vela saudosos das ondas e do alto mar.
Do cais, observávamo-lo - eu, de cabelo ao vento, a mão a descer pelo forro da
bolsa em croché azul, buscando a máquina fotográfica para registar a imagem.
Era encantadora e encantatória aquela visão de um fragmento do passado, na sua
complexidade de cordas diversas, adriças, escotas, moitões, catracas e
amantilhos – sem contar com um sem número de outros instrumentos náuticos, cujos
nomes, tais como estes, aliás, eu ignorava, mas pressentia…
Levantara a câmara e preparava-me para enquadrar a fotografia, quando, no
tombadilho, repentinamente descortino um marinheiro – o rosto duro, a pele
curtida, o olhar sagaz de intrépido aventureiro!
Detenho-me a tempo.
Sentamo-nos num banco próximo, e deixo o meu olhar vaguear ao largo, cobrindo as
gaivotas em voo alto e o céu tenuemente alaranjado, em final de tarde.
Apercebo-me, ao recolher a vista para mais próximo plano, que uma mulher de
meia-idade, cabelo louro apanhado, extremamente elegante, de saltos
inesperadamente altos e finos, começa a descer o passadiço de madeira que parte
da margem e desagua numa série de placas flutuantes, adjacentes ao veleiro.
Completa a primeira etapa do percurso, seguida por um cão amarelo, saltitante,
de cauda erguida a ondular ao vento. Sem se deter, atinge o corredor flutuante e
prossegue o seu caminho.

Mas aí, eis que o cão se distancia da dona. Vemo-lo parar, cheirar o chão e a
brisa, olhar a mulher que se afasta em passo decidido, voltar a cabeça para o
veleiro e, com esforço, dar alguns passos hesitantes, mas esforçados, sobre a
plataforma.
A sua cauda deixou de abanar e recolheu-se entre as pernas. As suas patas
parecem ventosas que se agarram ao chão, e só uma força colossal as arranca e um
mecanismo potentíssimo acciona o movimento que as faz avançar sobre a superfície
bamboleante.
O seu corpo cada vez mais se abate, como se a gravidade sobre ele exercesse um
efeito inexorável. Mas o cãozito avança, seguindo a dona, que já alcançou a
escada de madeira e subiu ao veleiro, cumprimentando o marinheiro com
familiaridade.
Identificamos no cãozinho os sinais da vertigem e do enjoo, e quase partilhamos
da sua náusea e impotência. Todos acompanhamos empenhadamente a odisseia a que
se entrega.
Próximo da escada, o cão amarelo praticamente se arrasta. Mas continua, até que
atinge a base dos degraus. Então, pára. Olha o casco. Com o focinho atento,
aspira o ar de cima, do topo, e a sua cauda abana timidamente. Podemos senti-lo
suspirar. Volta a baixar a cabeça, a ajustar o rabo entre as pernas, e, com
notável esforço, sobe ao convés, salta e desaparece por detrás da amurada, a
cauda esvoaçando subitamente, num arroubo de felicidade.
Aplaudimos, com um sorriso, o feito do pequeno cão!
Quase simultaneamente, chega-nos, do veleiro, um eco de risos, exclamações de
alegria e latidos exuberantes.
Depois, tudo se acalma e serena. Novo sopro da brisa marítima nos atravessa, com
cheiro a sal e aventura.
Batem as asas com leveza, sobem rapidamente, volteiam na corrente e planam
demoradamente, as gaivotas. Festejam, aos gritos, o prazer de voar.
A MARIA SABE? A MARIA NAO SABE?
A Maria sabe? A Maria não sabe?
A Maria mal sabe ler e pouco escrever,
não sabe muito das coisas do mundo,
tem o espírito fraco e tudo lhe faz confusão,
explica, vagamente, de pano na mão,
a limpar a água deslizante sobre a banca
da cozinha.
A vida cansa-a e deprime-a, pois não sabe
de filosofias nem de teorias
que justifiquem os desgostos que sofreu,
as desilusões que a vida lhe infligiu.
Nada sei, diz brandamente, com a lembrança
do pai jovem e amado, morto a tiro
(acidente, por certo, o irmão que o matou…)
com vinte e cinco anos de idade,
e a mãe, de preto vestida até aos oitenta,
quando a morte a levou de uma viuvez
de cinquenta anos.
E confessa: só sei que a gente desaparece,
a terra que nos come,
e a alma que se vai, com o destino dela,
não sei para onde…
A Maria sabe? A Maria não sabe?
Fito-a, sem saber…
Histórias de Bia

Por Maria Petronilho
Aos seis anos, Bia já lia e escrevia sem erros.
Aprendera não se sabe como, ao mesmo tempo que aprendera a fazer laços com os atacadores dos sapatos, a abotoar os colchetes da saia, a fazer bonecas de trapos. É muito fácil fazer bonecas.
Podem ter ou não ter esqueleto, depende do tamanho e este depende dos trapos que o acaso nos deixa à mão de semear. Reúnem-se os trapos e escolhem-se os tecidos para o corpo e para o vestuário.
Para as bonecas pequenas, bastam fios, até linhas servem, se se enrolarem bastante. Se a boneca for grande, tem de ter esqueleto, ou seja, uma armação, em cruz feita com dois pauzinhos.
Começa-se por uma bolinha: pode ser de pano, de pão, de algodão... se a gente tiver um berlinde (bola de gude) então... very, very good! Ata-se bem apertado, em espiral, para fazer o pescoço.
Faz-se um rolinho de tecido e coloca-se na horizontal, ajeitando o tecido de modo a que fiquem a descoberto dois pedaços de cada lado. Nas bonecas com esqueleto, envolvem-se os braços de pau em tiras de tecido e no fim dos braços cozem-se as pontas com pontinhos miúdos, a fazer de mãos.
Na vertical, isto é que requer alguma habilidade, colocam-se outros dois rolinhos: as pernas. Se se tiver um trapo com que se faça um rolo fino e comprido o suficiente para se dobrar em ângulo... então é facílimo!
... Mas é preciso ter muita sorte... As mulheres aproveitam esses pedaços para fazer remendos. Se a boneca tiver esqueleto tem de se ter muito cuidado, colocando um outro pauzinho do mesmo tamanho, de modo a que a boneca não pereça coxa.
Ata-se muito bem a cintura. Depois é só fazer a roupa!
Cruza-se uma tira a fazer de blusa e coze-se dos lados. E com um trapézio do mesmo ou de outro tecido, talha-se a saia.
Estão a ver como é fácil?!
O difícil foi descobrir como cozer bolsos na saia... levou tempo... um dia destes, explico! Na cabeça, passam-se fios de lã e cortam-se conforme o penteado que se escolhe.
E preciso ter uma agulha grossa, de cozer camisolas... Toda a gente sabe isso. E depois basta pintar os olhos, o nariz e a boca.
Pode, antes de se cozer a blusa, colocar ou não maminhas por baixo, depende se se está a fazer uma boneca adulta ou uma boneca criança.
Aos homens e aos rapazes, é claro que se talham calças, com dois rectângulos. Pois a Sara aprendeu tudo isto ao mesmo tempo que aprendeu a ler.
Tudo depende, afinal, de se observar as coisas, não é tão difícil quanto
imaginam!
E a Bia lia.
Lia sobretudo livros de fadas, de princesas, de mouras encantadas, de dragões, de génios e gigantes.
Um dia descobriu que um dos dentes abanava. Abanava mais e mais dia após dia. Andava ela a ler um conto onde uma pastorinha de patos tinha sonhado que se lhe caísse um dente e o colocasse durante essa mesma noite debaixo da almofada, esse dente passaria a ser o seu amuleto da sorte.
Deveria depois levá-lo consigo para todo o lado, de modo que visse tudo o que ela visse pois um dia encontraria um príncipe, e apaixonar-se-iam e ele levá-la-ia no seu cavalo branco para um lindo castelo, onde seriam felizes para sempre.
Nunca por nunca se perde o primeiro dente que nos cai! Um belo dia, o dente de Bia, ao roer a linha com que cozia, caiu!
Não doeu nem um bocadinho, não deitou sangue, nada!
Bia verificou o buraco com a ponta da língua e sentiu a pontinha rija do dente novo que nascia por baixo. Sorriu, guardou o dente solto e passou a levá-lo para todo o lado.
Ia brincar na praça, ia à mercearia...
Pelo Natal, os pais levaram-na ao circo, era uma benesse dos patrões, a oferta dos bilhetes. Ela ficou radiante!
Preparou-se muito bem, penteou-se a preceito, ao espelho, e atou uma fita vermelha no alto da cabeça. No meio do laço, com uma ponta de fora, a mãe viu uma coisinha branca... julgou ser sujeira e ia sacudi-la.
Bia deu um grande salto, afastando-se:
- Não, mãe! Não mexas, senão ele cai!
- Ele quem?!
- O dente, ora essa! Deu-me tanto trabalho a prender de maneira que ficasse com
a cabeça de fora!
- O dente tem a cabeça de fora? – Admirou-se a mãe, apesar de habituada às
invenções de sua filha.
- Mas claro que sim, mãe! O dente é meu companheiro, vou levá-lo ao circo, para
se distrair connosco!
E assim foi!
... Visto ser oportunidade rara, não podia de ir deixar de acompanhá-la ao
circo, para se distrair!