Agenda de EventosEmail BlogMotor de BuscaNewsletter AVALIE-NOSLivro de Visitas Anuncios Gratis Homepage Album FotosIndice Geral Arquivo


Pagª 20 - EDIÇAO NºXXIX, IIº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.           

Depois, foi a visão do teu corpo longo...

Poema de Ilona Bastos

 

 

 

 

 

Das ambulâncias era a sirene
no seu ondular estridente
crescente, angustiante
o silêncio súbito, o medo
o desvario das velocidades
que corriam em mim, em suores
frios temores, arautos da desgraça,
afinal fantasmas que me invadiam
os dias tranquilos ou tementes…

Depois, foi a visão do teu corpo longo
esguio sob os lençóis do hospital
as sirenes lá fora, cá dentro
o gemer dos velhos doentes
a luz branca nas paredes verdes
a assepsia dos instrumentos
e tu ali, ligado ao soro e ao leito
pálido, desamparado, desmaiado
olhos fechados, sem dar por nós…

Das ambulâncias são ainda
os uivos errantes a invadir e a fugir
do meu silêncio, que é câmara
de passagem de fragmentos de ideias,
de receios, remorsos, recusas, revoltas,
invisíveis rios de lágrimas
que me inundam e se afogam nos gritos
diabólicos das sirenes estridentes,
permanentes arautos da desgraça…


O MUNDO DO AVESSO

Escrever poesia é virar o mundo do avesso:

num poema, é o galo que canta e acorda o sol;
noutro, é o olhar que salta a janela e alcança a paisagem;
noutro, ainda, é o mundo inteiro contido numa poça de chuva…
Que absurdo! Que ilógico! Que irreal!

E, no entanto, prefiro a poesia.
Prefiro o absurdo ao prosaico,
o ilógico ao coerente,
o irreal a esta ficção horrível
que nos fornecem e a que chamam realidade…

Não podemos ter a certeza do que seja a realidade,
mas intuímos o irreal a mil léguas.
Portanto, de real temos somente o irreal,
temos somente a poesia, temos o avesso do mundo,
que é afinal o único mundo que temos!

 

Catalão - Cidade Mágica

Sandra Fayad


- Que lugar é este? - indaga meu companheiro de viagem
- Pires Belo. Mais trinta e sete quilômetros e estaremos em Catalão – respondo.

A resposta tem entonação alterada. A voz sai meio cinzenta de um ponto mais profundo da garganta, atravessa um caminho - ladeado por ansiedade, alegria e saudade de um tempo distante que volta sempre - e chega aos lábios, abafada.

As sensações têm nomes de pessoas e lugares e me transportam para um espaço único, exclusivo. Assim como os pássaros cruzam a estrada, estou também cruzando a minha história, do sempre para a eternidade. Tudo - e ao mesmo tempo nada - é igual.

Quero silêncio. Preciso respirar fundo, porque as lágrimas estão ameaçando cair e não posso parecer fragilizada logo agora que faltam poucos quilômetros para entrar no meu passado, que outra vez vai se transformar em presente. É uma mágica espetacular!

Há lembranças demais para administrar. E que lembranças! São as melhores da minha vida. A cada metro da estrada, a infância e a adolescência voltam, em «flashs» luminosos sobre a realidade nua e depois vestida com as roupagens com que se apresentou a cada visita, nesses últimos trinta e oito anos.

- Há uma igrejinha lá no alto... comenta o parceiro.
- Ali é o Morrinho do São João - informo.
Para o visitante, é só uma igrejinha no alto do morro. Para mim, rebobina a fita até a infância mais tenra: balõezinhos, pipoca, quentão, pandeiros, roupa caipira, bolo de mandioca, canjica, poeira, gente da roça e da cidade na mesma festa.

Lembra também os visitantes, a cidade olhada de cima esticando..., as luzes de Goiandira, o namoro do Manoel e da Sheila Zarife, quadros da Dona Mariinha, fotografias, padrinho João Fayad, os peregrinos vindos da roça.

A placa informa: Catalão a 5 km. Explico que a cidade tem duas entradas.
- Uma é pelo antigo “campo de aviação�, passa pelo bairro do São João e desce para o centro. A outra é pelo JK, que sai direto no centro, passando pela «estrada de ferro».

Geralmente alterno as entradas. É que gosto de ver as novidades. A entrada do JK está diferente, devido ao grande número de edificações novas. São fábricas, concessionárias, moradias populares e trânsito de caminhões à esquerda de quem vem do norte.

A primeira parada é sempre a casa da madrinha Helena e da Julieta, minha irmã. Tenho a opção de visualizá-la como é hoje e como era na minha infância: calçada alta, portas grandes de madeira.

Aliás, as Ruas Vinte de Agosto e Coronel Afonso Paranhos aparecem assim, com dupla roupagem. Vejo-as como se fossem a cara e a coroa de uma mesma moeda ou o direito e o avesso de uma vestimenta romântica.

As vezes esqueço que a Prefeitura virou Fórum, que o Banco do Brasil mudou mais para trás, que as casas da Vó Coqui e do tio Salomão agora são lojas. Enumero mentalmente as modificações: apartamento da Beth França, casas da dona Cafa (vendia chanclish), da tia Ivete (mãe do Prefeito Adib), da madrinha e da Bibita (reformadas), da tia Norma e do Felipe (iguais).

A Rua Coronel Afonso Paranhos já se chamou Rua Estreita. Ali morávamos Sheila Nanete, Beatriz e eu (grudadinhas). Minha casa foi totalmente reformada pelo primo Marcelo, que agora é seu morador.

A cidade está cada vez mais bela, sinalizada, arborizada, com córrego tratado e canalizado. Agora tem a represa, que é o novo ponto turístico e de lazer da moçada.

Catalão é a sementeira onde fui plantada sob um composto de ótima qualidade, regada com bons princípios e cultivada em um mutirão de solidariedade. É fruteira carregada de doçura, é tijolo de rapadura mergulhado no melaço da gargalhada sem limites, é espelho que refletia o preço que a vida ia impor.

Era melhor rir muito de mim, de nós, dos outros, de tudo e de nada, enquanto fosse possível. E eu ri com elas, as amigas de sempre: Shirley, Sheila N e Sheila Z, Beth, Bibita, Valéria, Beatriz, Maura Hummel.

Amo Brasília, mãe adotiva, que me acolheu de braços abertos e me alimentou com seiva de boa qualidade, desde a porta aberta para a vida adulta. É a terra dos meus descendentes, das conquistas profissionais e dos novos amigos.

Mas Catalão, minha mãe natural, é sombreiro sob o qual descanso, rindo das mesmas bobagens ou chorando com as mesmas amigas pelos que já não podem rir conosco.

Nunca me esqueci da Festa do Rosário em outubro. Onde quer que eu esteja no dia vinte de agosto, informo, orgulhosa, a quem está ao meu lado:
- Hoje é aniversário da minha cidade.

E mentalmente envio-lhe uma mensagem: - Feliz aniversário, Catalão!

 

 



O ORACULO

Crónica

João Furtado

Foi o Gregório quem levou aquele livro, o copo e um dado, recordo como se fosse hoje, por duas razões. Uma porque o dado era de fundo vermelho e pontos brancos, a cor que fazia lembrar o equipamento do Benfica. A outra razão é a rivalidade entre mim e o livro, para todos o livro dava uma resposta sonhadora, menos eu. Definitivamente, o «ORACULO DE NAPOLEAO» não quis nada comigo.

Chegou como uma novidade lá em casa, era o livro da sorte e todos queriam saber a sua sorte. Desde as minhas irmãs até o meu pai, mesmo ele que era pouco dado as novidades ficou entusiasmado. Todos queriam saber o que seria seu futuro.

Pegavam no copo, colocavam o dado dentro do copo, agitavam o copo em movimento giratório enquanto proferiam a frase que o Gregório nos ensinou que era «Oráculo de Napoleão, Oráculo de Napoleão, diga-me….». Num movimento rápido embarcavam o copo sobre a mesa. Viam qual o número que coube a sorte e no livro, procuravam a resposta. As perguntas eram as que previamente se viam no livro.

As minhas irmãs, a minha mãe e o meu pai ficaram todos satisfeitos com as respostas obtidas e estavam ansiosos para continuarem o jogo. Pelo menos estavam a viver uma vida de ilusão por algum momento.

Chegou a minha vez e queria que eu me despachasse o mais rápido possível, para continuarem a perguntar. Todos tinham mil perguntas a fazer e queriam a resposta.

Tinha pouco mais de sete anos. Era a idade de fantasias e a pergunta devia ser sobre algum brinquedo ou outra fantasia de criança, mas eu não perguntei se ia conseguir uma bola no próximo Natal. Não quis saber se o Pai Natal olharia para mim, já que nos outros seis anos da minha vida ele nunca se lembrou de mim. Bem, mesmo que quisesse perguntar, não sei se a pergunta estava no livro.

Já conhecia algumas letras, mas ainda não sabia ler nada e por isso pedi a minha irmã mais velha para ler algumas perguntas. Ela abriu o livro e começou a ler as perguntas, escolhi uma. Não escolhi a que perguntava se seria rico, nem a que se teria um trabalho ou se seria feliz, mas perguntei se iria casar-me.

Não era normal um rapaz fazer uma pergunta daquelas, julgo eu, porque o «Oráculo de Napoleão» não gostou da pergunta e criou um adversidade para comigo nunca dantes visto.

Peguei no copo e usando o ritual que o Gregório nos ensinou, eu disse:

- Oráculo de Napoleão, Oráculo de Napoleão, diz-me lá, se vou me casar!

Saiu um número. A minha irmã registou e com o número da pergunta e o número do Dado foi a página da resposta e viu, estava escrito, «Não sei». A minha irmã disse-me para repetir o jogo, saiu outro número, ela foi consultar e leu «Se não mudares a tua forma de ser não casarás».

Ela não se conformou com a resposta e me mandou jogar de novo. Joguei. Fiz a mesma pergunta e o numero foi outro e a resposta também «DEIXA-ME EM PAZ». Das seis possíveis respostas saíram as três piores. Ela queria que eu repetisse e eu também queria, mas o Gregório não deixou. Disse-me que não deveria fazer a mesma pergunta porque o Oráculo estava chateado comigo.

Fiz outras perguntas, mas sempre recebi respostas negativas. Mais tarde, quando já sabia ler e escrever e continuava a ter as mesmas respostas, achei que devia ser do oráculo do Gregório, estudei-o em pormenor e criei o meu próprio. Inverti as respostas, mas os dados continuaram a dar-me números que correspondiam «Deixa-me em paz», «Vai passear», ou «Não tens mais nada que fazer!?».

Mesmo depois de casado, tornei a perguntar, num misto de troça e vingança para com o Oráculo, mas ele continuou impassivelmente a dar-me as mesmas respostas, «Deixa-me em Paz», «Vai Passear» ou «Não tens mais nada que fazer?».

 

COLUNA DE MARIA PETRONILHO

O que se passa com o lince?

O lince - ibérico é considerado o felino mais ameaçado do mundo e o único considerado Criticamente em Perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza - UICN.

Durante o século XX a distribuição desta espécie sofreu um acentuado declínio que teve como consequência a redução e o desaparecimento de algumas das suas populações, ficando estas cada vez mais dispersas e afastadas.

As investigações mais recentes apontam para uma população total com cerca de 100 indivíduos adultos, conhecendo-se actualmente apenas duas populações reprodutoras em Espanha (Guzmán et al. 2002).

Em Portugal, a presença da espécie foi confirmada pela última vez no ano de 2001, nos complexos fronteiriços das serras de Ficalho - Preguiça - Malpique - Adiça, através da identificação molecular de um excremento de lince - ibérico (Santos - Reis et al. 2003).

Actualmente os especialistas acreditam que podem existir indivíduos dispersos mas provavelmente sem ligação a populações - mãe.

O lince - ibérico é uma espécie emblemática, que já foi alvo de campanhas para reconhecimento da situação da espécie em Portugal (e.g. Campanha LPN/ICN «Salvemos o Lince e a Serra da Malcata»- primeira campanha de sensibilização sobre o lince - ibérico).

Trata-se do único grande mamífero carnívoro endémico da Península Ibérica e só uma intervenção urgente poderá travar o seu processo de extinção e evitar o primeiro desaparecimento de um felino na Europa nos últimos 2000 anos.


Presságio

O meu poema é feito de vento,
de água e areia, sol a pino!
Solta alegria de passarinho
ao avistar a rama sempre-verde
onde entrelaça o ninho!


Das camélias

Nos dias de nuvens
as flores desabrochadas
mostram-se desbotadas,
namoram às escondidas
mas quando o sol rompe os dias
riem às gargalhadas,
cantam em desgarradas,
desavergonhadas
vadias
soltas
pétalas
perfumes,
beijos claros
desdenham vigias
nada importa
que não seja
o apelo coevo e claro
da seiva a chispar
a ânsia dos estames
o gineceu em espasmos
acudi, abelhas!
gritam as pétalas
elas vêm, sempre fiéis
a dar a dar com as asas
fascinadas, gulosas
os pardalitos vadios
disputam o néctar,
brincam e brincam
desdobrando imensa
vida e alegria!