Pagª 23 - EDIÇAO NºXXII , IVº NUMERO DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Poemas de Laila Murad

Fases do Amor
Nosso Amor teve fases como a lua
Começou tímido e acanhado
Quando um leve afago distraído,
Um doce abraço furtivo
Um afoito beijo roubado
Um roçar de corpos ocasional,
Deixavam-nos encantados
E certamente enamorados!
Depois veio a lenta transição
Os toques tímidos não bastaram,
Beijos e abraços mais invasivos se tornaram,
Nossos corpos com desejo se buscaram
Com fome, sede, volúpia,
O encanto tornou-se pura emoção!
O amor foi se aprofundando,
Nos corações lançando raízes
Enfeitando nossas vidas com seus matizes,
As fases foram se misturando,
Hoje temos o carinho do início,
Do desejo sensual temos a premissa
E é essa mistura bela e sadia
Que hoje nos deixa assim, tolos e felizes!
Amantes Apaixonados
Venha, amado meu, meu amante na noite vazia,
Ao chegares, apague a luz que ofusca o seu olhar,
Esse olhar quente de fera faminta e pele luzidia,
Deixemos que a lua plena que brilha lá no firmamento
Ilumine as sombras que invadem nosso leito com luar
Toma-me em teus braços e lenta e com vagar
desnudes essa sua fêmea faminta como sempre
pronta, ansiosa e à sua espera para nos amar.
Venha, cinja-me no teu abraço envolvente,
Traga contigo a volúpia do desejo sempre ardente,
Envolva tua amante no diáfano véu de tuas carícias
Sempre despertando em nossos corpos frementes
Essa sensação sempre tão forte e premente
De nos fundirmos num manancial de delícias...
Amemo-nos com beijos, carinhos e toques
Repartindo em cada um, esta maravilhosa sensação,
E, nossas bocas ávidas buscam uma nova emoção,
Que preencham em nós o vazio em cada vão,
E, no auge cobiçado dessa deliciosa união,
Brindemos ao êxtase desse amor sem retoques.
Declaração de Amor
Eu te amo no silêncio do meu coração,
No aconchego de meu abraço,
No sussurro das minhas palavras
murmuradas com amor e ternura
ao pé do teu ouvido
No beijo suave e carinhoso
que busca resposta
nos teus doces lábios,
numa singela e cálida ventura...
Eu te amo também
quando meu corpo busca o teu,
transpirando desejo, buscando consonância
neste amor feito de sonho e irrealidade.
pois sabemos o que queremos
e que nos convém.
Eu te amo ainda
no calmo enlevo do amor saciado
buscando um beijo roubado
e uma doce carícia
suave e sempre
bem-vinda!
Sherazade
-Trovas-
Arlete Piedade
Bela princesa árabe,
destino cruel, chamava
ser amada pelo seu rei
que depois a matava!
Mas ela jovem e sábia,
pl'a vida, apaixonada
não o podia evitar,
pois o rei a obrigava!
Era escrava do amor,
mas o podia retardar,
esse momento de horror
logo depois de amar!
então uma ideia brotou,
na sua mente de fada,
contar contos e encantar
seu rei que ela amava!
noite após noite, contou
histórias de espantar,
seu amor se apaixonou,
e a começou a amar!
após mil noites de medo,
o desejo se transformou,
em mui respeito e amor
e com o seu rei se casou!
A evolução da Linguagem e a Gramática

Por: Daniel Teixeira
Os antigos discutiam muito sobre se a gramática seria «empeiria», isto é,
experiência em acto, pura e simples, ou técnica (tecnhé), quer dizer, um
complexo de regras, de noções, coordenadas por um critério e destinadas a
preencher uma finalidade. Todos facilmente concordaram que Gramática era uma
técnica e procuraram por conseguinte construir o respectivo sistema.
O carácter normativo que acompanha a prática do ensino linguístico tinha
forçosamente de levar a esta definição do conceito de gramática como um complexo
de noções destinadas a um fim. Pelo próprio facto de pretender pôr o discente em
condições de se servir de um meio expressivo mais cuidado e aperfeiçoado, e
portanto diverso em medida maior ou menor do que lhe era fornecido pelo ambiente
natural imediato, esse ensino desenvolve-se através de aperfeiçoamentos que vão
das particularidades de pronúncia e da propriedade lexical, à esquematização
normativa da estrutura da frase e do período em que se desdobra a actividade
discursiva.
A intenção didáctica surgiu, sem qualquer espécie de dúvida, da necessidade de
compreender os valores semânticos escondidos em tantas fórmulas da poesia
homérica, que, com o tempo, se haviam tornado incompreensíveis.
Nunca devemos esquecer que a consciência crítica acorda na Grécia em função da
exegese e da compreensão dos dois poemas que se impõem à totalidade do mundo
grego como a primeira nascente de todas as verdades ( Ilíada e Odisseia ).
Enquanto a aquisição da língua se desenrola no âmbito da «empeiria»
(experiência), e tendo-a por guia a tal ponto que se processa o impulso da
imitação instrutiva, desde volitiva a determinado sistema expressivo, surge a
necessidade de uma norma na qual o acto linguístico possa encontrar a sua plena
justificação.
Neste aspecto cumpre esclarecer um pouco mais aquilo que se pretende afirmar
nesta parte do texto: o facto de a aquisição da língua se processar no domínio
da experiência (empeiria) não implica que a referida experiência (imitação) não
tenha por pano de fundo um processo consciente e racionalizado. Não confundir
experiência com costume, embora as fronteiras entre uma e outro nem sempre sejam
nítidas.
Aliás, no domínio da experiência (empeiria) podemos encontrar desde o processo
coordenador das sensações a que Kant chamou de pensamento até à sensação
simples, ou seja, sem qualquer processo de reflexão / comparação / dedução. Que
a experiência, entendida neste plano, não é acto de razão, ou seja, acto
filtrado pelo intelecto , parece-nos claro.
De reparar que a gramática, pelo menos a formalização da mesma através de regras
mais ou menos fixas, é posterior ao começo da escrita e da fala. Em certo
sentido pode entender-se que os gramáticos, inicialmente, mais não fizeram do
que recolher e ordenar as regras espontâneas já existentes e através das quais
se movia já a linguagem.
A assunção da gramática, como facto definido e determinado, não nega a
existência de uma gramática espontânea. O mesmo aspecto pode encontrar-se na
linguagem gestual: ou seja, ela existe enquanto tal e contém em si já algumas
regras que, ainda que não totalmente descritas ou fixadas, acabam por funcionar
como parâmetros mínimos sistematizadores da linguagem gestual: a uns parâmetros
e aos outros referidos atrás chamam-se parâmetros naturais.
A sistematização gramatical surge, assim, por necessidades didácticas. Não se
pode ensinar ou aprender algo que não contenha em si um sistema seguro e a
gramática esclarece a funcionalidade do sistema, fixando-o no esquema ideal, e
todavia real, da norma.
A MULHER NA LITERATURA PORTUGUESA
No Sec. XIX os românticos idealizam muito a mulher (Dulce, Joaninha,
respectivamente em Herculano e Garrett) mas os autores de transição para o
Realismo (Camilo, Júlio Dinis) começam a observar atentamente a psicologia
feminina.
Certas heroínas de Camilo, enérgicas, viris, umas na defesa de um amor puro,
outras (mulheres «fatais» que são) na perfídia com que enredam os apaixonados,
traduzem bem a realidade portuguesa; a Mariana do Amor de Perdição é uma figura
bem castiça, a um tempo desenvolta, afeita a trabalhos, e capaz de ternura e
humilde abnegação no amor.
Já diverge bastante o prisma queirosiano, segundo o qual a burguesinha lisboeta
(essa «burguesinha do Catolicismo» que perpassa nos versos de Cesário) é o
produto fútil e indefeso de uma educação errada.
Depois de Eça de Queiroz, em cuja obra, com audácia sem precedentes, se faz
avultar a sensualidade feminina, cada vez as figuras de mulher, na prosa de
ficção, suscitam mais detida análise, quer do ponto de vista individual, quer do
ponto de vista social.
E para essa análise corajosa e reivindicadora notavelmente estão contribuindo as
mulheres que cultivam as letras.
No século XX e principalmente nas últimas décadas, não só aumentou
extraordinariamente o número de escritoras como as suas obras ganharam uma força
original, uma independência de observação e de juízo que não têm precedentes, já
na poesia, de Florbela Espanca, de Fernanda de Castro, de Sophia de Mello
Breyner Andresen etc.
Daniel Teixeira