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Pagª 13 - EDIÇAO NºXXII , IVº NUMERO  DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   


Reflexão em câmara lenta

Conto / Crónica de Michel C.

Há bocado tive uma reflexão que achei esquisita porque, para ser muito franco, costumo ter
reflexões  abrangendo outros campos que não este que vou referir.

No entanto, o preocupante depois, e à medida que ia desenvolvendo a reflexão, puxando pelo fio ou dando guita à ideia, se preferirem, o preocupante repito, foi constatar que já não é nem a primeira nem a segunda vez que eu tenho reflexões destas este ano, e ainda vamos nos finais de Maio.

Não as contei, como é claro, as reflexões parecidas com esta que vou referir, mas por grosso e assim a olho, já devo ter atingido para aí a meia dúzia o que dá uma média de uma reflexão por mês, destas, porque outras reflexões diferentes tenho eu todos os dias e mesmo a todas as horas, pelo menos.

Normalmente são reflexões simples, daquelas de trazer por casa, e digo isto para que quem me leia, e não reflicta assim tanto como eu, não fique complexado ou mesmo a pensar que eu sou um reflector desmesurado. Nada disso, estejam descansados. Reflicto muito sobre coisas sem importância, coisas que não valem nada e no fundo, se fosse bem exigente, até era capaz de não contar como reflexão um grande número das reflexões que faço.

Mas esta, esta que vou explicar em seguida é uma reflexão complexa porque conjuga numa só reflexão a reflexão ela mesma e a sua inversa, a que podemos chamar, para comodidade, de reflexão com retro - reflexão integrada.

Pois bem e começando...esta tarde, não muito tarde, encontrei-me a pensar, primeiro, na melhor forma de tornear um carrinho de compras num supermercado - uma grande superfície, daquelas que dão desconto em tudo - e confrontei-me com a possibilidade, que não executei desde logo, de ter de me dirigir à senhora - bastante nova e jeitosa por sinal - e simultaneamente «proprietária» do carrinho de compras que eu queria tornear com o meu carrinho de compras.

A articulação das palavras era inevitável, nada de tossidelas «discretas» que seriam ineficazes pois a senhora estava absorta na leitura de um rótulo de uma lata de cogumelos: provavelmente calculava as calorias, a origem dos ditos, o método de embalagem que não de fabricação porque os cogumelos já nascem fabricados, e por último a sua relação com o preço, sopesando tudo, penso eu, numa delicada operação que absorvendo a totalidade da sua atenção não a fazia reparar no facto de ter o carrinho atravessado no corredor, impedindo-me a passagem até à prateleira dos espargos que estavam logo a seguir aos pickles.

Ora este facto de ter de «falar» com a senhora colocou-me desde logo numa posição reflexiva que eu inicialmente achei interessante mas que conforme disse acima apresenta alguns factores que são preocupantes, a meu ver. Pensei, antes de agir - porque há quem aja sem pensar - sobre a possibilidade que não achei muito remota de, dali, daquelas palavras que eu poderia dizer, um «excuse me» e um «please» para adornar que, sem se saber bem como, poderia dali advir uma frutuosa amizade com encontros entre lençóis ao fim de dez minutos como acontece nos filmes americanos.

Eu sei que é estranho, sei também que há quem já esteja com o dedinho na testa, mas o mais coerente ainda está para vir por isso não se precipitem. Reflecti, ainda sem ter articulado nenhuma palavra, vejam a coisa em câmara lenta no que se refere à posição relativa no corredor dos enlatados entre mim e a senhora e aceitem que eu pensei que afinal não conhecia a senhora de lado nenhum, que não sabia nada da sua vida e que a probabilidade dessa frutuosa amizade vir a ter lugar era remota, muito remota, mesmo.

Pois por menos estranho que pareça, vi-me a vasculhar com os olhos o carrinho da senhora naquilo que era visível a olho nu, e tendo reparado que ela levava um pacote de Skip daqueles gigantes (em promoção) adivinhei desde logo que ela lavava muita roupa em casa (que tinha máquina de lavar também era fácil) o que pressupunha haver mais gente em casa, mas, dando o desconto ao facto de haver desconto no pacotão era até provável que ela vivesse sozinha ou, na pior das hipóteses, para a nossa relação, que ela vivesse com alguém, em comum, mesmo que não fosse casada, coisa que hoje em dia já se usa muito.

Ora isso pressupunha também uma hipótese de infidelidade, coisa a que sou avesso por natureza, mas, vendo melhor as delicadas mãos que ainda seguravam a lata de cogumelos, aceitei, após algum esforço, fugir imaginariamente à regra e aceitar como válida a possibilidade de uma facadita num matrimónio, uma coisinha assim sem grandes consequências e bem justificada dados os valores em jogo (e que valores, digo agora depois de a ter visto melhor).

Pois bem, reflectido tudo isto, procurei dar lustro aos dentes com a língua, abri o sorriso e tentei melodiosamente fazer sair (e consegui) as tais palavras mágicas em inglês porque dá mais classe. Para minha não-surpresa a senhora moça sorriu-me abertamente, pediu-me desculpas atabalhoadas e quando me leu o pensamento centrado na leitura dos seus olhos acrescentou um misterioso mas solene «porque não?!»

E lá fomos os dois, despachando as compras em grande velocidade, deixando de reparar nos preços e mesmo naquilo que se ia metendo nos carrinhos, passámos céleres à caixa menos concorrida e num afogo entrámos no carro dela - nestas coisas sou muito prático, logo vinha buscar o meu - e arrancámos fazendo chiar os pneus.

É claro que, e conforme já devem ter percebido nada disto que escrevi se passou a partir de uma dada altura da escrita. Sou eu ainda reflectindo, porque de facto neste momento em que chego a esta linha continuo agarrado ao meu carrinho tentando tornear o carro dela e ela continua agarrada à lata de cogumelos agora vendo se tem algum buraco no fundo. Mas o encanto continua e a possibilidade está ainda em aberto uma vez que estamos em câmara lenta.

Mas, não acham muito estúpido se eu disser à moça «excuse me, please» isto tendo em conta que estamos em Portugal e ela parece bem ser portuguesa? Não seria melhor um simples «Com licença!» e mesmo um «por favor» para adornar? Ou um «Pardon» talvez...ou mesmo um...

 

Zorro, só capa e espada ? (Ultimo Livro - V)

Por Afonso Santana

Os custos do Zorro

Os custos da série Zorro, suportados pela Disney, fizeram história no meio cinematográfico da altura. O cavalo Tornado, por exemplo, era «representado» por quatro cavalos, sendo a estrela o Diamond Decorator, um cavalo com sete anos, mas dobrado por outros três. Um deles era especialista nos dramáticos relinchares que apareciam na cena de abertura, um outro era especialista em cenas de fuga (corrida) e um outro ainda aparecia nos combates do Zorro a cavalo.

Mas o mais custoso para a Disney, o que demonstra o empenho colocado na série, tem a ver com a construção dos cenários, que na altura não eram ainda fixos. Pois bem a Disney construiu em 1955 os edifícios de Pueblo de la Reina de Los Angeles, o quartel dos soldados de Monastério com um custo bastante elevado para a altura: cem mil dólares para a construção, 35 mil dólares para o mobiliário e cerca de 30 mil para adicionais, nomeadamente guarda roupa, tudo num custo total de 208 mil dólares.

Para além destes custos fixos o custo de cada episódio ficava entre 50 e 100 mil dólares por cada 30 minutos exibíveis (isto quando o custo corrente na altura de uma hora de cena era de cerca de 14 mil dólares), e a primeira série, de 39 episódios, cifrou-se em cerca de 3 milhões e 200 mil dólares.

Contudo uma outra forma de fazer cinema foi igualmente despoletada nesta altura pela Disney e que é agora corrente: o aproveitamento dos mesmos cenários e da mesma altura para fazer sets de episódios diferentes, o que no entanto e por não ser ainda corrente e rodado se limitava a um máximo de cenas de quatro episódios, o que mesmo assim confundia os actores, incluindo a estrela principal (Zorro) Guy Williams, ao ponto de muitas cenas terem de ser posteriormente «dobradas» apenas pela voz dos actores dado no som ficarem falas diferentes das aplicáveis.

A personagem do Zorro também foi trabalhada através da contratação de um especialista em personificação cinematográfica (Fred Cavens) uma vez que o actor principal não encarnava a personagem da forma que foi sendo mais desejada através do feed back recebido dos espectadores. Cavens tinha-se distinguido por ter tratado da imagem e dos ajustamentos de personagens de Douglas Fairbanks e Tyrone Power.

Uma outra ideia do Zorro

Um historiador italiano diz ter encontrado provas nos arquivos da Inquisição sobre o mascarado Zorro. De acordo com Fabio Toncarelli, Professor de História na Universidade de Viterbo, existem provas detalhadas nos até agora fechados arquivos da Inquisição e que o Vaticano tem tornado mais acessíveis a estudiosos, de que o real Zorro, o mascarado espadachim que inspirou os nacionalistas mexicanos para o ideal da Independência era de facto não um nobre espanhol mas sim um Irlandês de Wexford chamado de William Lamport.

Nota: Veja no final links relacionados com este historiador e sobre a sua história de Zorro

Este historiador diz que existem provas bastantes e muitas referências mesmo nesses documentos até agora sigilosos, que afirmam que Lamport nasceu na Irlanda em 1615 e que faleceu na cidade do México em 1659. Levava uma vida dupla, como Zorro, e tinha uma pequena barba ruiva e olhos flamejantes. Era um mulherengo e levou uma vida de aventuras mais copiosa do que os argumentistas cinematográficos poderiam imaginar.

Este historiador diz ter dispendido bastante tempo na sua investigação sobre o Zorro e o mito que lhe está associado, encontrando referências a ele em Madrid, Dublin, Roma e na Cidade do México.

Mas a chave sobre a informação do Zorro encontra-se no estudo de documentos relacionados com julgamentos feitos a heréticos pela Inquisição, dada a meticulosidade empregue na feitura das actas pelos Inquisidores. E foi lá que o nome Lamport lhe fez reparar na coincidência com o mito do Zorro pela primeira vez.

Por isso, segundo este professor italiano, o Zorro existiu de facto e o seu mito manteve-se até 200 anos depois da sua morte. Segundo os documentos da Inquisição, Lamport nasceu numa família nobre da Irlanda e foi educado pelos Jesuítas em Dublin e em Londres. Mas acabou por deixar a vida de estudo, que o levaria ao sacerdócio, alegadamente por se ter envolvido em actividades anti-inglesas e juntou-se a um bando de piratas.

Nos finais dos anos 20 do Sec. XVII, Lamport aparece em Espanha onde muda o nome para Guillen Lombardo. Luta ao lado da Espanha contra os Franceses e a sua bravura em combate desperta a atenção do Duque de Olivares, Ministro do Reino até 1643 na Corte de Filipe IV de Espanha - III de Portugal (1621-1665).

No ano de 1625, Lamport, que acabou por adquirir fama e reputação como conquistador e como espadachim, foi enviado por Olivares para o México para fugir a um escândalo de sedução de uma dama da Corte de Filipe IV.

Foi na Cidade do México que Lamport, ou Lombardo, começa a sua dupla vida. Oficialmente move-se nos círculos da nobreza espanhola no México e envolve-se com uma mulher de nome Antonia Turcios, mas tem inúmeras aventuras amorosas, agindo como espião ao serviço de Olivares e assumindo a falsa identidade para se tornar amigo das tribos índias locais, aprendendo os seus costumes, as suas magias e crenças e a astrologia.

Foi provavelmente por causa disto que o seu comportamento chamou a atenção da Inquisição local, que acusava Lamport de conspirar contra Espanha para libertar os Indios e os escravos negros para se tornar ele mesmo Rei e Libertador do México. Esteve dez anos na prisão, quando as investigações da Inquisição se confirmaram, mas consegue fugir. Quando regressa à Cidade do México, acaba por sair à noite do seu esconderijo para colocar cartazes e panfletos contra a Inquisição revelando os seus segredos.

Lamport acabou por ser apanhado pelo facto de não saber resistir aos encantos de uma bela dama. Segundo uma carta datada de 1647 do Bispo da Cidade do México para Filipe IV de Espanha, que lhe perguntara como decorria a caça a Lombardo, este teria entretanto sido capturado na cama com a mulher do Marquês Lope Dias de Cadereyta, o Vice- Rei do México.

Lamport ficou preso durante mais sete anos tendo sido depois condenado à fogueira, mas mesmo aí acaba por frustrar os seus algozes não morrendo queimado mas sim enforcando-se com a corda que o prendia à estaca da fogueira.

Lamport não se metamorfoseou no Zorro que conhecemos senão cerca de 1872, quando Vicente Palacio Riva, um General Mexicano reformado escreve um romance ao estilo de Dumas e dos Três Mosqueteiros, intitulado «As memórias de um Impostor». O herói do romance é chamado de Guillen Lombardo mas leva uma vida dupla, como nobre Diego de La Vega e à noite como membro proeminente de uma sociedade secreta que combate a ocupação espanhola e o poder da Inquisição.

Terá sido assim com base neste «aperfeiçoamento» de um personagem de facto existente, por um General Mexicano, que terá nascido o Zorro de Johnston McCulley que curiosamente se tornou famoso nos meios literários de aventuras, antes de ter escrito o Zorro, com o título «The Stolen Story» (A história roubada).

Notas e links.

La spada e la croce. Guillén Lombardo e l’Inquisizione in Messico, Roma, , Ed. Salerno, 1999(tradotto in francese col titolo: Guillén Lombard, le rebel, Toulouse, Privat, 2001; tradotto in spagnolo col titolo El mito de Zorro y Inquisición en México, Editorial Milenio, Lleida, 2003;

Tradução em Espanhol com resumo

Veja aqui resumo e comentários sobre este livro em português (os comentários e o resumo)


Morre a artista Clemência Pecorari Pizzigatti

A artista plástica piracicabana Clemência Pecorari Pizzigatti morreu na tarde desta sexta-feira (15/05), aos 73 anos. Ela estava internada no Hospital dos Fornecedores de Cana (HFC) desde o último dia 5 e lutava contra um câncer.

Artista plástica, pioneira no mosaico em Piracicaba, professora de artes e terapia ocupacional. A carreira artística de Clemência Pecorari Pizzigatti é tão vasta e minuciosa como a paixão dessa piracicabana pelo trabalho que realizou há mais de cinqüenta anos. Hoje, aos 73, ela deixa um legado simples de ser entendido, ao mesmo que complexo para a sensibilidade humana, em forma de pinturas, mosaicos e literaturas com traços de inocência e intelectualidade. Ora Impressionista, ora expressionista, Clemência nunca se prendeu a uma técnica para produzir.
As viagens de outrora ao redor do mundo lhe trouxeram conhecimento, mas a paixão estava em terras piracicabanas. É em Piracicaba, que duas das grandes obras de Clemência são constantemente adjetivadas de «impactante» e «maravilhosa»: o mosaico no Mirante, de 120 metros, confeccionado em 1968 e, o mais recente, no Coplacana, de 50 metros, finalizado em 2008. «Memorável» também é a pintura que a artista fez no muro do Cemitério da Saudade, além do painel no muro da Igreja dos Frades.
A ânsia de viver e prazer em pintar foram os nortes de Clemência. Professora adorada por ex-alunos e mulher influente no universo artístico, mas que nunca foi mãe. No entanto, o amor materno é inerente a ela, que tem como filho cada pintura, cada mosaico e cada mandala.

Veja no vídeo entrevista de Clemência Pecorari Pizzigatti com mostra de alguns trabalhos da artista.