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Pagª 18 - EDIÇAO NºXXII , IVº NUMERO  DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

  SUBTILEZAS

Conto

Liliana Josué

O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro. Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .

Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.

Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.

Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.

Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.

Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».

Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa. Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.

Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.

A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.

A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um tanto assustador. A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.

A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa. Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.

Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.

Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.

A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.

Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.

Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.

 



Moçambique tem maior herança musical na CPLP

Dos territórios de língua portuguesa, Moçambique foi o quarto a ter gravações regulares de artistas locais desde os anos 60 até aos dias de hoje, conclui um estudo do investigador alemão Paul Vergon.

Para Vergon, a produção musical moçambicana foi diversa e extensiva que tem o privilégio de dispor, hoje, de uma vasta cultura musical desde as mais tradicionais peças folclóricas até aos sucessos populares das décadas passadas, coisa que definitivamente não aconteceu com o Brasil e Portugal.

«Apesar da incrível e notória musicalidade de todos os povos do continente africano, não era possível acreditar que Moçambique naquela época tivesse artistas a gravar e a vender discos com muita facilidade nos países do primeiro mundo», refere.

O investigador adiciona que mais do que ser um dos maiores repositórios de musica nacional, dos territórios de língua portuguesa, Moçambique foi o quarto a ter gravações regulares de artistas locais, sendo o primeiro Portugal, seguido de Brasil.

O académico refere que as primeiras gravações foram realizadas na ex - Lourenço Marques e na capital de Sofala, Beira. «Lá, uma variedade imensa de artistas locais fizeram gravações, em especial grupos de marimba, corais, solos de mbira (piano de polegar) e guitarristas bastante ricos em essência», acrescenta.

Vergon acrescenta que na altura não havia gravadoras, nem engenheiros de som e muito menos técnicos que garantissem a difusão musical, sendo os responsáveis pela difusão musical ingleses e alemães, que visitavam o país e exploravam novos mercados.

Paul Vergon reporta ainda que o poder aquisitivo dos moçambicanos da época andava em alta, pois muitos trabalhavam nas minas de ouro de Joanesburgo, na vizinha �frica do Sul, e com o seu salário adquiriam muita música recém introduzida em discos.

BONS ARTISTAS DA ÉPOCA

O investigador faz uma referência interessante sobre o facto de Moçambique, desde sempre, ter tido os guitarristas da etnia changane mais conhecidos em �frica e em vários locais do mundo.

Cita como exemplos os artistas Pedro Matabela, Aurélio Kowano, Filipe Sithole e Feliciano Gomes.

Vergon revela um pormenor curioso, quando diz que os mesmos guitarristas apostavam na marrabenta como um ritmo moçambicano nacional, mas alguns membros da comunidade portuguesa que residia no país confundiam-na com o o samba do Brasil.

 

Arlete Deretti Fernandes

Mulher e Mãe

De um raio de sol, da beleza da lua
e do brilho das estrelas Deus criou a mulher.

E para completá-la, deu-lhe uma essência
que permitiu-lhe ser mãe.

Ensinou-a a plasmar na própria alma,
a tolerância, o amor e a paciência.

Foi quando então a mulher se preparou
para ser mãe, abrigando em si a vida.

Amou e ensinou ao novo ser a bondade a ela concedida,
Com a própria consciência, já então enriquecida.


Ofício de Ser Mãe

O bebezinho frágil que inspira tanta doçura,
A mãe é sempre o exemplo da mais doce ternura.

Em seu regaço carrega o mais precioso bem,
É um presente lindo que somente ela tem.

Acompanha com amor o seu desenvolvimento,
São momentos de alegria, de muito contentamento.

Enquanto o bebê cresce, a mãe está sempre atenta,
porque sabe que colabora com Deus no seu pensamento.

Que amor tão grande é este, capaz de qualquer sacrifício?
É um fragmento de Deus, que faz parte deste ofício.

 

José Pedro Matos

Sandra Fayad

Olá, José Pedro

Pudera eu
ter mais oportunidades de conversar contigo
esticar as horas úteis do meu dia
ou dormir apenas o que Napoleão dormia
Quisera eu
ter um dirigível redondo de alumínio
flutuante, leve, suave, mas poderoso
em que eu pudesse fazer um vôo silencioso
do centro para o sul assim... num piscar de olhos

Então falaríamos primeiro de coisas banais
É sempre assim com as pessoas normais
Eu ia querer saber se viveste mesmo alguns contos
que parecem tão reais
E aqueles, em que deixas ao leitor a conclusão,
o doce exercício da imaginação?