Pagª 18 - EDIÇAO NºXXV , IIIº NUMERO DE JUNHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Coluna de Liliana Josué

HARPEJOS DE FELICIDADE
Naquele dia, apetecia correr despidos em direcção ao vento.
Escorregar num raio de sol até ao mar, tão transparente como olhares
serenos.
O escuro dos desgostos, crueldades e traições ficaram pendurados nas
portas dos quartos abafados.
Dançava no ar a esperança da renovação; o reencontro com a vida.
Bocas sorriam no vermelho das suas cores: Cerejas doces e cravos de
Primavera.
Todas as mãos eram asas batidas de pássaros felizes, dando-se como
ninhos macios.
Os corpos, nuvens brancas e suaves, deslizavam no sonho efémero do céu
libertador.
O paraíso abria-se generoso.
Perfumes raros desprendiam-se dos cabelos, apaziguando outros odores.
Como era lindo o mundo, naquele dia.
Mas foi só naquele dia...
Porquê só naquele dia... ?
Primavera Branca
Há sol azul
nos olhos do ancião,
metamorfoses de vidas
esvoaçando como tule
adormecem esse olhar
de solidão.
Cabeça pendendo sonhos
recordações
do distante
memórias de luares antigos
polvilhados de emoções
de cor imaculada
e cheiro a ontem.
Tudo é Primavera branca
cabelo, barba, ilusão...
a face nívea desgostos tranca
só os olhos é que não.
CARTA PARA FERNANDO
Sandra Fayad
Fernando,
Li pausadamente teu texto sobre a Bienal do Livro.
Namorei tuas palavras e fotos.
Ri, chorei, emocionei-me, lamentei...
Como lamentei não ter ido até lá!
Desde que soube da tua vinda, pensei:
Ah, valeria a pena por tudo.
Valeria a pena por mim principalmente
Especialmente pelo abraço carinhoso
Que eu ia te dar.
Pelo beijo com sabor de fã,
com cor de amiga,
com cheiro de mulher,
com dom de poetisa
que nunca vai te ouvidar
que, tal como uma compota saborosa,
conserva seus desejos
de contigo um dia estar.
Coluna de Rosa Pena

Pasárgada?
Um pouco mais de açúcar na calda do doce, mais algumas margaridas no vaso da sala. Por pouco tempo ainda terá que colhê-las. Breve nascerá uma árvore delas no assoalho. A luz da rua apagou e os carros começam a passar correndo em suas buscas insanas. Amanheceu e até Gal se calou no CD para esperar Baby, o pequeno príncipe que chega hoje.
Encontrará a mesa posta com a toalha xadrez e sentirá a mistura dos cheiros na casa. Canela na cozinha e alfazema no quarto. Assim que ele chegar seu olhar ruborizará o teto, seu abraço sôfrego tirará a cor assustada das fachadas encardidas, sua simplicidade fará com que o prédio se encolha de vergonha de sua altivez.
Sua voz silenciará as buzinas e os carros fugirão dos meninos com suas bolas de gude. O mar virá até a janela saudá-lo e não vai querer mais voltar. Os relógios darão vez às ampulhetas que não têm a pressa dos ponteiros e essa se esquecerá de descer a areia durante as noites de amor.
Afrodite sorrirá cúmplice ostentando sua coroa de flores.
Passarinhos farão ninhos no asfalto e os vira - latas beberão o leite esquecido na porta. Todas as camisas perderão seus colarinhos, todas as campainhas ficarão sem som. Apenas palmas na porta e o carteiro gritando que a carta chegou da capital, que se mudou para onde a ponta do lápis não consegue alcançar.
Hoje Baby chegará quando o sol se pôr e a luz da vela acender. Encontrará uma mulher cor de canela com cheiro de alfazema, numa casinha branca cheia dos sonhos de Bandeira nas prateleiras.
— Acorda mulher! Não existe papai Noel!
Pasárgada era sonho do Manuel.
Psiu!
Meu décimo terceiro foi pra rima que pariu!
Vovô dizia mil réis
mamãe tostão e vintém
existiu até o Barão,
não é conto,
mas o conto é também.
No moderno
falam em «paus».
Imagine a Fátima
no jornal Nacional:
-O dólar caiu e o pau subiu.
Onde, quando, quem?
Foi com Viagra?
Pergunta a mulherada
em tempos de vacas magras.
-Falo de dinheiro!
Ainda tem o cruzeiro
o danado do cruzado,
creio que do boxe resgatado.
Velhos e novos,
goraram os ovos.
Uma novela Real
URV e CR cifrão.
Sei não...
Meu salário permanece virtual.
Alguém ainda lembra do apagão?
(da série..Não sou vaca, mas estou louca)