EDIÇAO NºXX , IIº NUMERO DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué
Poemas de Laila Murad

Fases do Amor
Nosso Amor teve fases como a lua
Começou tímido e acanhado
Quando um leve afago distraído,
Um doce abraço furtivo
Um afoito beijo roubado
Um roçar de corpos ocasional,
Deixavam-nos encantados
E certamente enamorados!
Depois veio a lenta transição
Os toques tímidos não bastaram,
Beijos e abraços mais invasivos se tornaram,
Nossos corpos com desejo se buscaram
Com fome, sede, volúpia,
O encanto tornou-se pura emoção!
O amor foi se aprofundando,
Nos corações lançando raízes
Enfeitando nossas vidas com seus matizes,
As fases foram se misturando,
Hoje temos o carinho do início,
Do desejo sensual temos a premissa
E é essa mistura bela e sadia
Que hoje nos deixa assim, tolos e felizes!
Amantes Apaixonados
Venha, amado meu, meu amante na noite vazia,
Ao chegares, apague a luz que ofusca o seu olhar,
Esse olhar quente de fera faminta e pele luzidia,
Deixemos que a lua plena que brilha lá no firmamento
Ilumine as sombras que invadem nosso leito com luar
Toma-me em teus braços e lenta e com vagar
desnudes essa sua fêmea faminta como sempre
pronta, ansiosa e à sua espera para nos amar.
Venha, cinja-me no teu abraço envolvente,
Traga contigo a volúpia do desejo sempre ardente,
Envolva tua amante no diáfano véu de tuas carícias
Sempre despertando em nossos corpos frementes
Essa sensação sempre tão forte e premente
De nos fundirmos num manancial de delícias...
Amemo-nos com beijos, carinhos e toques
Repartindo em cada um, esta maravilhosa sensação ,
E, nossas bocas ávidas buscam uma nova emoção,
Que preencham em nós o vazio em cada vão,
E, no auge cobiçado dessa deliciosa união,
Brindemos ao êxtase desse amor sem retoques.
Esse amor outonal
Chegando assim, como uma flor outonal
Que, para vicejar no campo, bela e viçosa
Rompe o diáfano véu da bruma matinal
E. ao despertar, numa oferenda virginal
Abre sua corola, faceira e preguiçosa
Para receber do sol o beijo mor no e sensual.
A magia deste amor maduro e sazonal
Abre ao coração a ventura de novo porvir
Para transpor forte, corajoso e destemido
As altas muralhas do que é convencional
E viver o presente deste sentimento-criança
Mistura de afeto,carinho, ternura e muito mais
Que vem surgindo de mansinho, sorrateiro
Como um intruso bem-vindo e inesperado
Que deseja viver plenamente e nada mais...
Vem surgindo, matreiro , nas asas da esperança.
Os graus da poesia lírica em Fernando Pessoa
Por:
Daniel Teixeira
Comentários de Daniel Teixeira baseados em Fernando Pessoa, Páginas de Estética, Teoria e Crítica Literária - Sobre a Poesia -1- Os graus da Poesia Lírica - Junho de 1930.
Para além de se saber aqui, neste texto, que não temos visto muito referido,
quais são as bases teóricas e muito subjectivas do lançamento dos heterónimos
pessoanos, cuja nota se pode ver na suas últimas frases sobre o quarto grau da
poesia lírica pessoana que referimos aqui em seguida: «O quarto grau da poesia
lírica é aquele, muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda mas
igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização.» ficamos ainda a saber
que Fernando Pessoa tinha uma ideia muito especifica sobre aquilo que era a
poesia e aquilo que poderiam ser os poetas.
O poeta como fingidor (aquele que faz seu o que os outros - e ele mesmo -
sentem) é o corolário lógico do seu pensamento sobre esta matéria, processo de
reconhecimento dos outros esse que se verifica através de uma
«despersonalização» de elevado grau, nas palavras de Pessoa, mas que tem algumas
conotações com a «viagem fora do corpo» largamente conhecida.
O poeta, como artista, passa a ser poeta e artista de teatro, que absorve de tal
forma as personagens que desempenha que acaba por se identificar com elas.
O poeta não é, pois, só um fingidor mas também um burlão (parafraseando Tirso de
Molina) porque finge conscientemente ou com consciência disso, sem que contudo
se lhe possa apontar qualquer transgressão ética: é assim e nada mais.
Este aspecto é bastante interessante para análise da personalidade de Fernando
Pessoa e para a questão dos heterónimos pessoanos que e ao que parece percorrerá
ainda mais um século, pelo menos.
O elogio de Pessoa é o elogio da diversidade, agrupada esta num dado número de
características que se encontram a nível do intelecto, ou seja, fora do campo da
sensibilidade e do campo do homem / poeta como ser natural.
Não se trata pois de ter apenas uma relação profunda consigo mesmo, mas também
de desdobrar o seu eu em vários eus que se reencontram num plano ideal onde
fazem a unidade num eu composto por vários eus.
Trata-se, por palavras diversas, de defender a unidade do eu dando-lhe uma outra
definição, ou em termos qualitativos correntes um outro patamar, pois que da
soma das partes se obtém o todo e que o todo é soma das partes e cada parte
contribui, com a sua parte, para a construção do todo.
Mesmo que se admita, como se pode muito bem admitir, que o todo construído se
eleve acima das suas partes e que em termos qualitativos dê o chamado salto ao
ponto de não mais ter relação com as suas partes constituintes ele nunca se
demonstra, neste caso, através da manifestação das partes uma vez que com elas
já não têm contacto ou que delas se separou. Quer dizer, e esclarecendo melhor,
sobe-se esta escada (da soma das personalidades) mas não se pode descê-la, neste
processo.
Assim, a entidade resultante, o conceito, o ser uno e identificável, será uma
entidade distinta que não pode :«tender a definir para essa entidade uma
entidade fictícia que sinta sinceramente (...) a entidade ( o eu ) de outros eus»
mas será sim uma entidade que se sente como tal no seu todo, sem necessitar de
especificações outras porque se constituiu como uma entidade.
Aliás, se o fizer, ou seja, se se especificar na sua constituição está a fazer
entrar pela janela aquilo que tentou expulsar pela porta. Tão simples quanto
isso...ou é, ou não é. Por isso o fingimento continua a ser fingimento, mais
sentido, incorporado, intelectualizado, como diz Pessoa, mas é e será sempre um
fingimento, uma máscara, uma persona personificada.
As concepções de Pessoa sobre os graus da poesia e dos poetas colocariam os
poetas intimistas ou biográficos pelo facto de sentirem sinceramente,
provavelmente logo nas duas escalas mais básicas da construção Pessoana ou no
seu último e mais elevado grau da escala pessoana.
Tudo trataria e dependeria de se saber, hoje, se o poeta se incorporou como
personagem ou se se incorporou na sua poesia como entidade substancial, quer
dizer, se o poeta fez do ser poeta e da sua poesia a sua vida ou se antes fez da
sua vida a sua poesia. Matéria esta que pode não ser nem muito pacífica nem
muito (ou nada) objectivável uma vez que nem sequer os campos estão
diferenciados metricamente.